12.02.1996 às 6:07

Diana Vreeland é tema de peça off Broadway

Entre as poucas mulheres que entrarão para a história deste século graças ao seu estilo está Diana Vreeland. Legendária editora de moda das revistas americanas “Harper’s Bazaar” e “Vogue”, Vreeland é tema de um dos maiores sucessos off Broadway na peça “Full Gallop” (A Todo Vapor), de Mark Hampton e Mary Louise Wilson, em cartaz em Nova York. Toda a personalidade de Vreeland é traduzida no monólogo interpretado por Mary Louise Wilson que, mesmo sem ter conhecido pessoalmente a imperatriz do estilo, capta com precisão seus trejeitos.

A peça se fixa num dia de 1971 quando Diana, já viúva, volta de uma longa viagem pela Europa após ter sido sumariamente demitida da “Vogue” pois “sua era havia acabado”. No clima intimista do pequeno Westside Theatre, o cenário reproduz a sala de paredes vermelhas do pequeno apartamento em que Diana morava na Park Avenue, em NY. Naquele dia, Diana vai oferecer um pequeno jantar, mas não tem dinheiro nem para os cigarros Lucky Strike, que ela pede à empregada.

Entre telefonemas solidários e impertinentes sobre sua demissão, ela não demonstra uma gota de sentimento cortando rápido o interlocutor curioso: “Full Gallop”, responde. Fica furiosa apenas com a notícia de jornal segundo a qual ela chegou de viagem com o pires na mão aos 70 e poucos anos. “70 e poucos? Isso é demais!”

Os 90 minutos da peça repassam sua vida e algumas frases que a celebrizaram como: “O biquíni é a invenção mais importante desde a bomba atômica”, “Todos precisam de um pouco de mau gosto; o que eu não suporto é a falta de gosto”, “O dinheiro pode fazer coisas horríveis às pessoas ignorantes” ou “O melhor da minha vida em Londres foi Paris” _referindo-se aos 12 anos em que viveu na capital inglesa com o amado marido Reed Vreeland e seus dois filhos, antes de retornar, em 1936, a Nova York e ser convidada por Carmel Snow para trabalhar na “Bazaar”.

“Mas eu nunca entrei em um escritório, só acordo ao meio-dia e nunca estou pronta antes do almoço”, respondeu Diana ao convite que, aliás, chegava em boa hora já que seu marido estava sempre para ganhar um dinheirão que nunca vinha. Snow a conhecia socialmente e insistiu: “Mas você conhece muito sobre roupa”. Diana conhecia tão bem roupas quanto a vida em sociedade e logo passou a assinar uma das colunas mais deliciosas da imprensa, chamada “Why Don’t You…” (Por que você não…), onde ela fazia sugestões tão práticas quanto excêntricas ao leitor, como “Por que você não lava o cabelo loiro de seu filho com champanhe?” ou “Por que você não troca seus sapatos por sapatilhas de balé?” (durante a Segunda Guerra, quando os cupons para sapato eram racionados).


Diane Vreeland

Protagonista de 40 anos da história da moda no século XX, Diana era brilhante e, apesar da aparência dondoca, trabalhava duro e defendia com afinco o cargo que adorava ocupar. Na peça, alguns dos profissionais que admirava são lembrados, como o fotógrafo Baron Adolf de Meyer e o costureiro Cristóbal Balenciaga (“Ele tinha um gosto incrível para cores”). Apaixonada também por cores, Diana declara no texto que “o azul mais lindo é o do céu tropical da Bahia”.

A peça deixa de citar algumas “descobertas” de Diana como Lauren Bacall, Lauren Hutton, Marisa Berenson e Twiggy (precursora do look anoréxico anos 90), a sandália baixa de dedo e a blusa de gola alta (esta que todo mundo está usando). Em 1962, quando foi contratada pela “Vogue”, Diana sentiu os ares rebeldes dos anos 60 e temperava a revista com o que chamava de “youthquake” e “beautiful people”. Ao mudar de emprego, mudou imediatamente de look: trocou o cabelo pintado de azul e preso por um laço no alto da cabeça por um corte Chanel quase egípcio e muito rouge: no rosto, na raiz do cabelo da testa e até na ponta da orelha. E ainda perguntava: “É o suficiente?”
“Full Gallop” mostra este mundo de fantasia e humor em que Diana vivia mergulhada. Naquele dia de 1971, ao se render à falta de comida -e de dinheiro- para o jantar, Diana acaba cedendo ao convite para ser curadora do instituto de moda do Metropolitan Museum de Nova York, que ela relutava em aceitar pois não queria virar “peça de museu”. Historiadores a criticaram por “maquiar os fatos” em suas exposições -memoráveis apesar da maquiagem. Afinal, Diana, que sequer revelava a idade, não ligava para os “fatos”. “O importante é projetar a imagem certa”, dizia. E “Full Gallop” reflete esta imagem.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo