A morte de Davide Sorrenti
Divulgação

Foto de Nan Goldin
Corpos largados, cabelos desgrenhados, olhos perdidos e distantes. Os braços ficam dependurados ao lado do corpo, como se as mãos pesassem demais em relação ao eixo aparentemente tão leve. Muita cama, cadeira e sofá. Muito carpete, cortina e papel de parede. É este cenário e é esta cena que marcaram as imagens da moda nos últimos dois anos. Marcaram – e não devem marcar mais – porque nunca uma estética foi tão fiel ao mundo real, só que a realidade acabou num episódio fatal.
O episódio acabou virando tema de um recente pronunciamento de Bill Clinton. Nele, o presidente americano acusou os estilistas a incitarem os jovens ao uso de heroína. “Glamourizar o vício para vender roupa não é bom para nenhuma sociedade”, disse. Calvin Klein, um dos grandes divulgadores da imagem, se defendeu alegando que não briefava suas campanhas, que os jovens contratados tinham plena liberdade e, portanto, as imagens eram apenas expressão genuína do mundo jovem.
Klein e Clinton têm ambos razão. Mas o episódio que levantou a poeira de uma estética que surgiu como reação à glamourização da moda – a estética heroína-chic ou a estética da desglamourização – foi a trágica morte do fotógrafo de moda Davide Sorrenti, de overdose de heroína, em fevereiro passado em Nova York. Diante da perda do filho mais novo, a mãe de Davide, a também fotógrafa Francesca Sorrenti (da atual campanha das marcas Bazar e Jeans de Christian Lacroix, entre outras), enviou uma carta-apelo aos estilistas e editores de moda pedindo que estabelecessem novas relações de trabalho entre contratados e contratantes e que apagassem as imagens do submundo junkie de suas campanhas publicitárias, catálogos e editoriais de revista.
Nascido em Nápoles, na Itália, Davide faria 21 anos no próximo dia 9. Desde 1982, quando os pais se separaram, ele morava em Nova York com o irmão Mario (fotógrafo), a irmã Vanina (stylist) e a mãe Francesca, estilista da grife Fiorucci nos bons tempos e fotógrafa há 15 anos. Ou seja, Davide cresceu no epicentro do cobiçado mundo da moda, convivendo com os principais “fashion image makers” internacionais. Ex-namorado da então emergente modelo Kate Moss e atual de Milla Jovovich, seu irmão Mario é o autor de clics das campanhas de Calvin Klein, entre outras.
Apesar do peso profissional da família, Davide procurava explorar um estilo próprio. Como a fotógrafa Nan Goldin, cujo estilo influenciou toda esta geração (e foi a verdadeira inspiração das fotos de J.R. Duran para o catálogo da Ellus – polêmico porque, segundo outsiders do mundo da moda, ele estaria reproduzindo cenas dos casos Daniela Perez e PC Farias), suas fotos eram o registro do modo de vida de seus amigos – a maioria retratada no filme “Kids“, de Larry Clark. A namorada de Davide, a modelo James King, foi capa da revista do “New York Times” (fev/96) num ensaio fotográfico da amiga Nan Goldin – em seguida, King esteve internada para se recuperar do abuso de heroína. Davide era louco por ela – e as meninas eram loucas por ele, um menino tão frágil quanto animado. Mas o que seus amigos não sabiam era que o uso de heroína, no caso dele, tinha um agravante. Ele sofria de talassemia, um tipo de anemia sanguínea. Para sobreviver, tinha que se submeter a transfusões de sangue quinzenais. Dias antes de morrer, havia viajado com a mãe Francesca para o México, de onde voltou de uma aparentemente bem-sucedida reabilitação.
A morte de Davide acabou encarnando a imagem trágica da estética de desglamourização que fez todo o sentido quando surgiu. A virada dos anos 80/90 estava enebriada pelo glamour das supermodelos, dos superfotógrafos, dos supercenários. A fotografia de moda expressava uma perfeição dos deuses, um ideal de beleza inatingível aos meros mortais. O mundo mágico da moda provocou os maiores complexos no universo feminino, quem dirá nos jovens. Não havia ginástica ou creme facial capazes de fazer a mulher se parecer com Cindy Crawford ou Linda Evangelista clicadas por Patrick Demarchelier ou Steven Meisel. As modelos se transformaram em deusas e os fotógrafos, em Midas. A moda passou a valer ouro.
Já em 1967, ao escrever “O Sistema da Moda“, Roland Barthes criticava de certa maneira este tom de bom-mocismo da moda que a “proíbe de proferir qualquer estética ou moral desagradável”. Os jovens ingleses, na entrada dos anos 90, foram os primeiros a contradizer Barthes. Eles se rebelaram contra o glamour fashion e logo ganharam espaço em veículos de expressão, como as revistas “i-D” e “The Face“, que dedicaram páginas e páginas à imagens de jovens comuns, despenteados, com unhas sujas, em quartos bagunçados. Os fotógrafos: os pioneiros Juergen Teller (alemão radicado em Londres) e Corinne Day (a primeira a clicar Kate Moss), David Sims, Nigel Shafran, Craig McDean (fotógrafo da atual campanha da Forum), Terry Richardson, Glen Luchford e o próprio Mario Sorrenti. As influências: Lee Friedlander, Robert Frank, Helmut Newton, Larry Clark e Nan Goldin.
A própria Nan Goldin se surpreendeu ao ver os personagens de suas foto-reportagens se transformarem em modelos meticulosamente desarrumados nas fotos de moda de revistas “cool and cult”. “Minhas fotos são fruto das minhas relações pessoais, meus amigos mais próximos, e não o registro de um observador distante”, esclarecia Goldin, ela mesma reabilitada do uso pesado de drogas e testemunha íntima da morte de muitas vítimas da AIDS.
A influência de Nan Goldin foi além dessa nova geração de fotógrafos de moda. Chegou aos estilistas mais modernos do circuito Paris-Londres-Nova York, como Helmut Lang e a própria Prada. Jean Colonna foi o que mais expressou sua gratidão, digamos, pelo trabalho de Goldin. Dois anos atrás, todo o cenário e atitude de seu desfile em Paris eram inspirados na fotografia de Goldin.
“Há uma verdadeira estética da imperfeição que reage à irrealidade da beleza imaculada”, analisa Stephane Wargnier, especialista em mídia e professor do Instituto Francês de Moda, em entrevista a Patrick Remy no livro “Fashion – Images de Mode” (ed. Steidl). Já o fotógrafo Jurgen Teller conta em seu livro que seus primeiros contatos com as supermodelos ocorreram em backstages, onde ele sentiu “uma grande insegurança delas em relação ao corpo e à aparência”. “Não quero explorar essa insegurança, mas sim mostrar que a beleza pode ser encontrada na fragilidade”, explica. Teller, que sempre trabalha com a namorada e stylist Venetia Scott, diz que procura transmitir beleza e romantismo em seu trabalho: “A imagem de um cachorro morto ou um carro amassado é muito romântica – mas pode ser bastante melancólica também”.
O uso de drogas é apenas um elemento da estética da desglamourização, reflexo puro de uma realidade juvenil de grandes centros como Londres e Nova York. Importá-la automaticamente para o Brasil fragiliza as campanhas que a adotaram. Mas se a heroína tem pouco a ver com o eixo Rio-SP, outras drogas marcam forte presença e não é ignorando-as que elas vão deixar de existir. Nova York, como centro comercial mais importante no circuito de produção de moda internacional, tem o dom de unir jovens ingênuos a ricos angustiados, todos ansiosos para criar a imagem de amanhã.
A carta-apelo de Francesca Sorrenti conta parte das relações desse mundo e procura reverter não só a estética heroína-chic como criar novas bases de trabalho no mundo da moda. Ele questiona: é criativo fotografar uma menina de 13 anos com uma blusa de US$ 1,3 mil? Pedir a modelos menores de idade que trabalhem de 10 a 14 horas por dia não é explorá-los do mesmo jeito que a indústria têxtil o faz em países de terceiro mundo? E conclui: quem resistiria aos apelos adultos diante de US$ 50 mil no final do mês e um apartamento à disposição em Nova York ou Paris?
Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo
Cartier, 150 anos
A marca da pantera completa 150 anos este ano. Além da abertura da loja em São Paulo, as comemorações acontecem em grande estilo no circuito internacional. Nova York assiste até agosto a exposição “Cartier 1900-1939″ no Metropolitan Museum, que segue em outubro para o British Museum em Londres. O cinquentenário do festival de Cannes, em maio passado, teve amplo patrocínio da Cartier. Pela primeira vez, a Palma de Ouro (prêmio máximo do evento) foi feita com sólido ouro 18 e atrizes como Isabelle Adjani, presidente do júri, Jeanne Moreau e Gong Li apareciam em cena com reluzentes jóias Cartier, procurando recuperar um glamour hollywoodiano.
Desde a sua fundação pelo ourives Louis François Cartier (1819-1904), em Paris, a marca soube associar sua imagem a bons meios de divulgação como moda, cinema, arte e realeza _no começo deste século, Cartier chegou a ser a jóia oficial de 15 coroas, da Rússia à Espanha, da Grécia à Índia. Já em 1859 ele estabeleceu sua primeira parceria, junto ao costureiro Charles Worth, considerado pioneiro da alta-costura. Tecidos nobres se casaram tão bem com pedras preciosas que a união acabou se estendendo a laços familiares: a neta de Worth se casou com o talentoso neto de Cartier, Louis-Joseph, primogênito do filho Alfred, que assumiu a marca em 1874.
O príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII da Inglaterra, está entre seus primeiros clientes da nobre realeza e dizia: “Cartier é o joalheiro dos reis e o rei dos joalheiros”. Graças às jóias usadas em sua coroação, Alfred Cartier acaba abrindo no mesmo ano de 1902 a primeira loja em Londres, expandindo os negócios para o exterior. Nove anos mais tarde, é a vez de Nova York, onde ele negocia com o proprietário do ponto em que se instalou a troca da casa por um colar de duas voltas de pérolas orientais, avaliado em US$ 1 milhão. Cada loja era administrada com autonomia por um de seus três filhos (Louis, Pierre e Jacques) e as jóias tinham design específico para aquele mercado.
Louis inovou ao substituir o ouro e a prata pela nova platina, tornando a armação praticamente imperceptível para valorizar os diamantes e o estilo Guirlanda, que ele desenvolveu em reação à onda art nouveau. Atento ao modernismo emergente e ao surgimento do cubismo, ele lança jóias mais geométricas para acompanhar as mudanças também do vestuário que, entre outras novidades, abolia o uso do corset e lançava o cabelo à garçonne.
Para atingir o afortunado mercado russo, antes da Primeira Guerra, Cartier contrata um artesão local e lança peças em forma de flores e animais, como serpentes, zebras, panteras e crocodilos, competindo diretamente com Carl Fabergé, célebre por seus valiosos ovos de Páscoa. Em 1933, a pantera vira o animal fetiche de Cartier. Quinze anos depois o duque de Windsor oferece à sua amada Wallis um broche de pantera talhado em uma esmeralda de 116,74 quilates, que ganha versão de safira de 152,35 quilates um ano mais tarde.
A pedido do amigo e aviador brasileiro Santos Dumont, Louis Cartier desenvolve um novo tipo de relógio, o relógio de pulso, em 1904, com pulseira de couro. Embora não fosse considerado elegante, era extremamente prático. Ainda neste segmento, Cartier fica fascinado também pelo modelo batizado de “mistery clock”, opulente relógio de mesa feito de cristal de rocha, topázio ou aquamarinha, que ganhou status de jóia verdadeira. Os “mistery clocks” tinham fortes referências da cultura japonesa e chinesa, como de resto todo o trabalho de Cartier, bastante influenciado pelos países do Oriente, incluindo Índia e Bali. O Egito ganhou evidência com a descoberta da tumba de Tutankamon, em 1922 e marcou a fase art decó do joalheiro. Ao lado de preciosos rubis, esmeraldas e diamantes, ele colocava jade, coral, ônix e madre-pérola. Essa mistura de cores e brilhos ganhou o apelido de tutti-frutti.
Já no cinema mudo há registros de jóias Cartier, como o relógio Tank usado por Rodolfo Valentino em “The Son of the Sheik” (1926). Mas Hollywood fez grandes investidas e homenagens à marca. Entre outras aparições, estão a de Gloria Swanson em “Sunset Boulevard”, Marylin Monroe murmurando “Car…tier” em “Os Homens Preferem as Loiras”, Mia Farrow em “O Grande Gatsby” e Candice Bergen e Jacqueline Bisset em “Ricas e Famosas”.
A paixão por jóias extrapola as telas em casos memoráveis como o de Elizabeth Taylor, que chegou a ganhar coleções Cartier inteiras de seu mais duradouro marido, o ator Richard Burton – o auge foi o diamante em forma de pêra de 69,42 quilates em 1969. As jóias usadas por Grace Kelly em seu último filme, “Alta Sociedade”, foram presente de seu futuro marido, o príncipe Rainier de Mônaco, assim como o colar e a coroa usados por ela no dia de seu casamento. O poeta multimídia Jean Cocteau admirava tanto o trabalho da grife que Louis criou um anel exclusivo para ele, hoje conhecido como aliança Cartier: três alianças entrelaçadas de três ouros diferentes – ouro branco (amizade), ouro amarelo (fidelidade) e ouro vermelho (amor).
A simplicidade e perfeição da aliança Cartier se refletem também no prédio da Fundação Cartier, criada em 1984 para incentivar a arte contemporânea e cujo projeto do arquiteto Jean Nouvel foi inaugurado há três anos no boulevard Raspail, em Paris.
A exposição em cartaz em Nova York, “Cartier 1900-1939″, traz mais de 200 peças executadas no período mais promissor da marca e vale a visita. São colares, relógios, pulseiras, cigarreiras e porta-maquiagem (“vanity case”) – um dos itens mais identificados com a Cartier -, documentados no catálogo-livro da mostra.
A administração familiar superou duas guerras mundiais e durou até o final dos anos 60. Hoje, a marca está presente no mundo inteiro, seja com lojas próprias ou multimarcas, comercializando tanto canetas e isqueiros quanto colares e até coroas.
Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo



