28.07.1997 às 3:13

As ideias de Marie Rucki

Estilista e diretora da escola de moda Studio Berçot, em Paris, Marie Rucki chegou domingo a São Paulo a convite da Coordenação Industrial Têxtil. Até o próximo dia 8 ela realiza workshops na Casa Rhodia sobre criação, estilo e modelagem. Anteontem pela manhã, ela falou sobre “Moda e Estilismo no Final do Século”, palestra que levará à Federação de Indústrias do Rio de Janeiro no próximo dia 11.

A volta da alta-costura ao foco de interesse fashion neste fim-de-século corresponde a um desejo de sonho que, segundo Rucki, nada tem a ver com a necessidade industrial. Assim, surgem as cisões entre os profissionais da moda, comparáveis ao que ocorreu com as artes na época do impressionismo: “Há cem anos os impressionistas eram herméticos demais para o público. Hoje é a moda que causa essa impressão. Só os verdadeiros profissionais falam e entendem a mesma linguagem, mas essa linguagem não corresponde à necessidade do público que quer saber qual a cor e o comprimento da próxima estação. E a resposta é: valem todos”, afirmou na palestra realizada no hotel Mofarrej Sheraton.

Para chegar ao final do século, Rucki pontua a moda em três períodos. Os anos 40 do pós-guerra viram o desejo e a necessidade do luxo frutificarem na alta-costura, que teve suas imagens amplamente difundidas pela imprensa americana e francesa da época. Os anos 60 assistem à explosão do prêt-à-porter (pronto para usar) que propõe uma moda universal, divertida e acessível à classe média. “Mas o prêt-à-porter também foi perigoso”, disse Rucki, “pois acabou com a hierarquia existente”. Os anos 80 produzem os chamados “criadores”, isto é, estilistas que desenvolvem um prêt-à-porter mais caro, mais bem feito, dirigido a um consumidor mais elitista do que o do prêt-à-porter dos anos 60. Em seguida, vem o período que Rucki chama de pós-modernista, voltado para os jovens, comercialmente mais fácil, detonado pela imprensa inglesa. Até que chegamos a 1997 ou ao final deste século que, segundo ela, “já está no ar mesmo que ainda faltem alguns anos”.

Segundo Rucki, a grande influência de hoje são os “excêntricos”, grupo cultural urbano anônimo que só existe nas grandes metrópoles e tem um look bastante gótico. “São os dândis deste final de século e a papisa da excentricidade é Diana Vreeland”, diz. Foi a eles que o poderoso Bernard Arnault, detentor do maior conglomerado de luxo do mundo, recorreu para reavivar a alta-costura: contratou os “excêntricos” ingleses John Galliano e Alexander McQueen como estilistas das maisons Dior e Givenchy. “É um marketing às avessas, mas muito sofisticado e eficaz”, concluiu Rucki.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

28.07.1997 às 3:10

Moda masculina em 1997

Nova York – Ao contrário dos verdadeiros shows de excentricidade das passarelas de Milão, a semana de moda masculina de Nova York é business puro. Mais do que criar uma imagem adequada à marca, os desfiles masculinos para a primavera 98 visam atingir seu consumidor final. Pelo que se viu em mais de 20 desfiles durante cinco dias, na semana passsada, este consumidor final é um homem cool, moderno e extremamente sofisticado na elaboração de seu look.

Tanta dedicação à aparência não aproxima o homem 98 em nada do almofadinha yuppie que marcou a moda americana no final dos anos 80. Seja no preto-e-branco de Helmut Lang, na riqueza de cores de John Bartlett ou em seu uso parcimonioso para Boss, de Hugo Boss, e Calvin Klein, o homem mostrado em NY respeita uma aparência mais natural, relax mas não relaxada, em que predominam costumes de três botões, com ombros levemente estruturados e calças secas. Os tecidos eleitos para a tal roupa social – que na verdade é a roupa profissional usada pelos executivos- são lã fria, lã com seda, gabardine stretch, linho encerado, sintéticos com brilho, napa e muito ultrasuede (camurça sintética). A monocromia da gravata-camisa-costume surgida no último ano dá lugar aos sobretons de beringela, marrom, cáqui, cinza e preto. A Boss arrisca um vermelho e salmão em meio a tons de areia inspirados no filme “O Paciente Inglês”. Já o americano John Bartlett prefere a imagem de “Forrest Gump” em versão dirigida por Fassbinder para chegar a uma “sexcentrity”. O austríaco Helmut Lang está mais para “Pulp Fiction” com seus costumes sequinhos acinturados por faixas tipo smoking, que viram capanga. A opção casual são as regatas furadinhas com avental branco ou as calças jeans manchadas de branco, iguais às dos artistas que circulam pelo Soho.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

15.07.1997 às 12:00

Entrevistas com Glória Coelho e Reinaldo Lourenço em 97

Divulgação

A estilista Glória

Casada com o estilista Reinaldo Lourenço, Glória Coelho tem 45 anos e comanda a grife G há 23 anos – longevidade rara para uma marca de moda no mercado brasileiro. Nascida por acaso em Pedra Azul, em Minas, ela se diz baiana de corpo e alma. Hoje, às 14h, seu desfile abre o MorumbiFashion, no Ibirapuera.

O que você mais ama na sua roupa? O conforto.
O que não cabe na sua coleção? Eu sei o que cabe: ouro, prata, chumbo, formas alongadas de colunas, mangas bem trabalhadas, golas emoldurando o rosto. E o ar do Egito, da Arábia e da Macedônia.
“L’air du temps” para o próximo verão: Muitas jóias diferentes.
O que tem lugar garantido no seu armário? Um blazer de couro preto da G, bem Mad Max, de abotoamento simples, que eu não tiro do corpo.
Qual vai ser o grande responsável pela mudança em nosso guarda-roupa no ano 2001? A tecnologia e os tecidos térmicos, que respiram, esquentam no frio e refrescam no calor.
Quais são seus heróis? Meu pai, meu filho e meu marido.
Quem faz sua cabeça? Ricardo Cassolari, do L’Autre Femme.
Quem é sua musa? Para criar, são as meninas de 15, 16 anos.
Quando você sente mais produtiva? Quando eu desenvolvo uma coleção.
Quando você se sente criativa? Quando tenho uma boa idéia.
Combinação de cores: Chumbo, ouro, preto e branco com muito ouro velho.
Matéria do dia: Silicone, pele sintética de onça e asas de anjo da guarda.
Look de verão: Calça cigarrete com uma blusa de gola bem grande, emoldurando o rosto. Ou uma “golden woman”, em tom de ouro velho.
Modelo preferida: Golda Meyer.
Música que toca na sua passarela: Árabe.
Fazer desfile é… Gostoso.
Terminar um desfile é… O vazio.
Criar é… Maravilhoso.

DivulgaçãoReinaldo Lourenço

Casado com a estilista Glória Coelho, Reinaldo Lourenço nasceu em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, e acaba de completar 35 anos. Sua marca existe desde 1984 e hoje, às 18h, ele apresenta seu verão 98 de inspiração futurista, com muitos peixes e estrelas, ambientado num planeta imaginário de mulheres-peixe.
O que você mais ama na sua roupa? O corte especial das minhas calças e o jeito que sei cortar em viés.
“L’air du temps” para o próximo verão: Uma mulher com cheiro de esporte, roupas frescas, o espírito t-shirt.
O que não cabe na sua coleção? Peruagem.
O que tem lugar garantido no seu armário? Camisetas lindas.
Qual vai ser a bola da vez do ano 2001? A busca da simplicidade total ou uma maravilhosa roupa de alta-costura, tão valiosa quanto um quadro ou uma jóia.
Qual vai ser o grande responsável pela mudança no nosso guarda-roupa nos próximos anos? A tecnologia dos tecidos.
Quais são seus heróis? Não acredito em heróis.
Quem faz sua cabeça? Ninguém.
Quem é sua musa? A Glória, minha mulher.
Quando você se sente mais produtivo? Quando posso ficar só desenhando e fazendo roupa.
Quando você se sente criativo? Quando estou descansado, livre de pressões e preocupações.
Matéria do dia: Tecidos bi-stretch, jérsei e tecidos com tratamentos especiais.
Look de verão: Um vestido de carpas, todo recortado, pelo joelho.
Modelo preferida: Karen Elson.
Combinação de cores: preto, branco e vermelho.
Música que toca na sua passarela: Elvis Presley, barulho, sei lá…
Onde você faz compras? Nos “marchés aux puces”, que eu adoro.
Fazer desfile é… Um trabalho sem fim.
Terminar um desfile é… A felicidade total.
Criar é… Viver.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

13.07.1997 às 1:56

Conhecendo a Colette

Divulgação

Colette, o lugar

Paris – Se Colette, a escritora, marcou a Paris do fim do século passado, Colette, o lugar, deve cumprir o mesmo papel neste fim-de-século. O espaço junta arte, design, moda e comida. Fica na rue Saint-Honoré, entre o moderno hotel Costes e o Carrousel du Louvre, epicentro dos desfiles. A decoração é supercool e minimalista e, até o final do mês, as fotos de Davide Sorrenti estão em exposição, depois do bem-sucedido leilão promovido por sua mãe, a fotógrafa Francesca, em prol de Fundação Davide, de recuperação de jovens drogados.

O sub-solo lembra o restaurante japonês Wagamama, em Londres, uma espécie de refeitório do séc. 21. Chamado de Water Bar, oferece uma límpida seleção de 60 tipos de água provenientes das mais diversas fontes: Decantae (das montanhas gaulesas), Thonon (das montanha rochosas de Savóia), Ballygowan (de uma fonte irlandesa de mais de 800 anos) estão entre as naturais. Das gasosas, destaque para a Acqua della Madonna (de Castellamare di Stabia, na Itália), Serra da Estrela (de uma rocha granítica de Portugal), Hatakosen Lamune (com limão, do Japão), Ramlosa (que existe desde 1707 na Suécia) e Spa (belga). Além das águas, eles servem drinques energizantes e refeições rápidas e saudáveis, inclusive no preço.

No térreo, um pequeno balcão faz uma manicure rápida no Nail Bar, ao lado dos produtos de maquiagem e beleza do expert François Nars e da Kiehl’s. No mesmo espaço, convivem o design de Tom Dixon, Allglass, Stelton e outros, os tênis Nike, Reebok e Adidas, bicicletas Bianchi, relógios, aparelhos eletrônicos, velas e camisetas. No andar superior, roupas femininas e masculinas mixam designers top como Pucci e Paul Smith a Alexander McQueen, Antonio Berardi, Owen Gaster e Comme des Garçons, com acessórios de Philip Treacy, Bless, Jimmy Choo e outros. Mais em cima, uma pequena seleção de cds, livros e revistas e a previsão de exposições de Mike Mills, Mark Borthwick e Jeremy Scott.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

06.07.1997 às 1:49

Tendências masculinas da primavera-verão 1997/98

A tendência da roupa masculina é menos efêmera do que a da roupa feminina e as mudanças, sutis, ficam evidentes só para insiders da moda. Mas até o começo de setembro as lojas estarão recebendo a nova coleção primavera-verão e, observe, há alterações claras no guarda-roupa masculino.

Por ser verão, o terno (conjunto de três peças: calça, paletó e colete) fica restrito à ocasiões formais. O costume (calça e paletó) é o “uniforme”, com camisa e gravata, só camisa ou camiseta. Os jaquetões (transpassados com abotoamento duplo) estão fora. Prefira o abotoamento simples de um, dois ou três botões, a jaqueta ou o paletó tipo camisa, com zíper ou botões de cima a baixo, mais casual. O modelo de dois botões é o mais fácil de usar, embora o de três botões seja mais contemporâneo. “O homem resiste por achar que aumenta a barriga. Não é verdade. Basta abotoar só o botão do meio”, explica o estilista Renato Loureiro. A cintura é baixa para a calça reta ou no lugar, com pregas.

Seja qual for o modelo escolhido, deve estar perto do corpo sem apertar, ser confortável e resistir, dignamente, do primeiro compromisso matutino até o jantar. “O twil de microfibra é muito recomendável porque não amassa e cai bem”, aconselha Loureiro. Além dele, os tecidos top da estação são lã fria (térmica, muito usada por Ricardo Almeida) e linho misto (com seda ou náilon na Ellus, encerado ou com viscose na Zoomp).

Tons claros são privilegiados no verão. Almeida é um dos que apostam nos chamados brancos (gelo, cru, creme, manteiga), combinados em sobretons no costume, camisa e gravata. Mas Loureiro acha que seu uso deve ser restrito ao dia: “A noite pede tons escuros como chumbo, cinza e marinho-noir”, acredita. O resultado também pode vir em sobretons ou total look monocromático. Esqueça as camisas de cetim. São um perigo. A mistura de listras, como propõe Marcelo Sommer, pode ser chic e divertida ao mesmo tempo.

Fora do trabalho, valem confortáveis salopetes de jeans (Emporio Armani e Vide Bula) e bermudões (Sommer), camisetas de viscose ou tela, com ou sem manga (Almeida, Ellus, Sommer, Zoomp). Na praia ou piscina, o maiô mais largo, tipo anos 50, deve ser o mais procurado, mas a Blue Man lança a tanga de crochê stretch para quem quer viver seu dia de Fernando Gabeira de volta do exílio.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

12