Oscar 98
Cansadas de serem alvo de tantas críticas, as atrizes de Hollywood perseguiram tanto o bom gosto que a maioria foi bem-sucedida na noite de entrega do 70º Oscar. De Elizabeth Sue, que apresentou o prêmio de melhor figurino com um longo de renda esmeralda rebordada, à performance básica e impecável de Susan Sarandon que, com o corpo firme, segurou com elegância um longo preto com decote bustiê preso por alcinhas de sutiã, com cauda esvoaçante – um modelo digno da dupla italiana Dolce & Gabanna. Como a noite é de gala, o comprimento longo dominou a cena e só mesmo Cher para quebrar o protocolo e levar o prêmio alegoria. Neste Oscar, apareceu melhor quem se vestiu mais cool, mesmo que este cool siga o toque feminino e artesanal das tendências de alta-costura: muitos bordados (canutilho, vidrilho, micropérolas…), muita renda e muito tule, mas nada que resultasse um bolo de noiva. As cores preferidas foram verde, vermelho, perolados e preto.
O foco de atração para os flashes ficou com as jóias, num desfile de reluzentes gargantilhas, novas ou de época, assinadas por casas de tradição como Asprey, Tiffany’s, Van Cleef & Arpels e Harry Winston, conhecido como o rei dos diamantes. A insossa Céline Dion, por exemplo, tentou valorizar seu volumoso Coração do Oceano, uma réplica de safira do filme Titanic, colocando-o sobre um longo-sereia stretch preto à Thierry Mugler, fechado até o pescoço. Já a cantora Madonna apareceu linda, com o cabelo cacheado de sua fase mummy, em modelo de fazer inveja à sua Evita. Seu poderoso colar era realçado com o profundo decote do vestido preto, abotoado apenas na cintura, que se abria sobre saiões de tule.
Claro que as exceções saltam aos olhos. A jovem atriz inglesa Kate Winslet estava a própria floresta amazônica, com modelão verde de decote império provavelmente assinado por seu irreverente amigo Alexander McQueen. Ao anunciarem o prêmio de melhor atriz para Helen Hunt, Winslet deu mais dramaticidade ainda ao modelo, que quase incendiou de tanta raiva. Kim Bassinger teve mais sorte com o vestido verde-claro de decote canoa que descia nas costas arrematado por laço: faturou melhor atriz coadjuvante. A julgar pelo modelo que usou no Globo de Ouro, o vestido deve ser do desconhecido Amsale.
Helen Hunt apostou no correto: um tomara-que-caia de xantungue verde-água, bem sequinho, assinado por Giorgio Armani. Mais uma vez, o estilista italiano fez do Auditório Shrine sua passarela e chegou ao podium com o maior número de Oscars. Entre os homens, o mais original era Robin Williams, que ganhou melhor ator coadjuvante vestindo um casaco 7/8 preto com gola Mao sobre camisa branca de gola alta, sem gravata. Os meninos Matt Damon e Ben Affleck, também de “Gênio Indomável”, receberam prêmio de melhor roteiro usando versão mais tradicional de smoking, também by Armani. E, enquanto Billy Cristal mais uma vez apresentou o Oscar fiel a Armani, José Wilker, no Telecine, adotava o look monocromático com costume de veludo marrom da Prada. Jack Nicholson recebeu sua estatueta de melhor ator vestindo smoking de Donna Karan.
O vermelho foi escolhido pela elegante Minnie Driver, em modelo decotado de Gianni Versace com direito à pele do mesmo tom, e por Francis McDormand , que usou uma capa de renda dourada por cima. Geena Davis também deu um toque de pele na manga recortada do vestido manteiga com o dorso bordado. Ainda na tendência off-white, Cameron Diaz escolheu um modelo que parecia um número acima de seu manequim. A moda brasileira perdeu a chance de mostrar os tricozinhos da Patachou usados em “O Que É Isso, Companheiro?”, o vestido da Beneduci (em Fernanda Torres) e o smoking da Forum (em Luís Fernando Guimarães). Mas, um dia, a moda e o cinema brasileiro ainda chegam lá.
Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo
Paco Rabanne no Brasil
O estilista Paco Rabanne está no Brasil para participar do encontro internacional promovido pela escola de moda Senac/Esmod, que termina hoje com um fórum de debates. Ontem à noite, 120 modelos selecionados do trabalho de 3 mil alunos de todo o mundo participaram de um desfile no Palace. Entre eles, 52 eram de alunos do Senac/Esmod local que premiou os estudantes Wanderlei Ferreira (como modelista) e Claudia Lopes (estilista) por meio do voto de um júri presididido por Rabanne. Wanderlei ganhará estágio de um mês em Paris e Claudia, uma semana em Milão.
Rabanne no Brasil não é propriamente uma novidade. Ele já esteve no país tantas vezes que perde a conta de todos os lugares que conhece: Manaus, Fortaleza, Recife, Salvador, Porto Alegre etc. “São Paulo é dinâmica, como Milão. O Rio é mágico e glamouroso”, afirma. Aquariano, ele acaba de mostrar sua coleção outono-inverno 98/99 durante a semana de prêt-à-porter em Paris. Numa atitude rara entre seus colegas, Rabanne costuma assistir ao desfile de outros estilistas. Sobre a nova coleção de Jean-Paul Gaultier, por exemplo, afirmou nesta entrevista exclusiva ao Estado: “Fiquei escandalizado. Ele não precisava ter usado tantas peles. Sou a favor apenas do uso das peles de animais comestíveis como vaca, coelho e carneiro”. Para ele, a mulher hoje deve se vestir de acordo com sua personalidade e seus desejos: “Nunca se deve seguir o que a moda dita. O espelho é a melhor resposta”, aconselha.
Sobre a moda no Brasil, não faz comentários diretos. “Há um enorme problema. Há cerca de dez anos a moda está muito na moda devido à grande difusão dada pelas TVs e até pelas supermodelos. A propaganda é tanta que muita gente quer fazer moda, mesmo sem ser criativa, e acaba copiando o passado. A moda é um movimento das civilizações. Portanto é preciso conhecer bem o passado para não repeti-lo”, afirma aos 64 anos. Segundo ele, o domínio do passado implica técnicas de materiais, corte, modelagem etc. porque “para ser um criador é preciso ser estilista, colorista, modelista, produtor, enfim, ter uma profunda noção do todo”. Ao mesmo tempo, ele alerta para a necessidade de estar atualizado com os movimentos contemporâneos: “Viajo muito pelo mundo inteiro. Falo sobre moda ou sobre o que penso e é muito excitante encontrar o trabalho de outros profissionais, mesmo que sejam estudantes. Gosto desse confronto com outros criadores. Hoje, na França, Karl Lagerfeld é o número 1 em criação, mas ele vive num gueto. Vai acabar asfixiado em seu pequeno mundo sem descobrir a rica produção que acontece no planeta”.
Rabanne nasceu na Espanha e aos cinco anos mudou-se para a França, órfão de pai. Sua mãe trabalhava no ateliê de Cristobal Balenciaga, considerado um dos grandes mestres da moda deste século, mas Rabanne resolve cursar arquitetura, embora nunca tenha exercido a profissão. “Sempre fui um homem de matéria e não de forma. Como arquiteto, amo as linhas puras”, diz. Bom desenhista, passou a fazer bijoux e acessórios para grandes costureiros, entre eles, Christian Dior, com quem trabalhou oito anos. Embalado pelas novas manifestações artísticas e culturais nos anos 60, como a Op Art, ele lança uma mini-coleção de doze vestidos-bijoux, rompendo com o uso de tecidos clássicos e revelando um espírito dadaísta em seu trabalho: “Mostrei 12 modelos de plástico e metal numa apresentação inédita até então: modelos negras dançavam ao som de Marteau sans Maitre, de Pierre Boulez. Foi um escândalo maravilhoso. Hoje, o metal se desenvolveu tanto que está leve e macio, muito diferente do daquela época.” Segundo ele, a pesquisa de materiais continua a ser um ponto forte em seu trabalho. Sua nova coleção traz uma pesquisa com cristais líquidos, borracha e outros materiais inusitados. Espiritualista, alerta: “Em 2030, o planeta vai estar tão superlotado que teremos que nos vestir com materiais escavados em minas”.
Testemunha de boa parte da produção fashion deste século, Rabanne lembra que há 50 anos só Paris ditava moda: “Hoje, os países se desenvolveram e se fortaleceram inclusive na moda: temos Kenzo e Yohji do Japão, Versace e Armani da Itália, Oscar de la Renta da República Dominicana e muitos outros. Cada um deve ser muito preciso e específico em sua maneira de explorar a moda pois a diversificação é universal”. Sobre o cancelamento do desfile da Emporio Armani pela Polícia de Paris, a poucas horas de seu início, ele é direto: “É um absurdo. Fiz um escândalo na televisão francesa por usarem Armani em uma questão política idiota.”
A trajetória de Rabanne é pontuada pela intensa pesquisa e uso do metal em várias composições e formas: malhas, tricôs, correntes e rendas de alumínio, prata, bronze, cobre e ouro. Chanel só se referia a ele como “o metalúrgico”. Mas seu pioneirismo aparece também nas roupas descartáveis de papel, que vendia em saquinhos. Entre seus figurinos que marcaram história, estão o dos filmes “Barbarella” e “Cassino Royale”. Mas se suas roupas não primavam propriamente pelo usável, seus perfumes sempre foram sucesso de vendas imediato: Calandre era “o” perfume da mulher dos anos 70 e Paco Rabanne pour Homme sua imbatível versão masculina. À lista, hoje acrescentam-se Metal, La Nuit, Sport e XS.
Nessa década, diversificou sua atividade e tornou-se autor de vários livros sobre espiritualidade e esoterismos, onde estimula à clarividência e ao equilíbrio em um mundo de tantas mutações: “Trajectoire” (Trajetória), “La Fin des Temps” (Final dos Tempos) e “Le Temps Présent: Le Chemin des Grands Initiés” (Tempos de Hoje: O Caminho dos Grandes Iniciados), da editora Michel Lafon. Além deles, é autor da série “Toute la Sagesse du Monde” (Toda Sabedoria do Mundo), que já publicou entrevistas com o mestre budista tibetano Bokar Rimpoche e com o último médico dos Sioux indianos que utiliza terapeuticamente cristais e os quatro elementos da natureza. Além dos livros, Rabanne adquiriu no ano passado o bar de jazz Le Montana, que existe desde os anos 30 em Saint-Germain des Près, bairro que ficou conhecido por reunir os existencialistas nos anos 50.
Com esse know-how, é inevitável perguntar-lhe sobre o próximo milênio. E suas previsões são bastante negativas: “Teremos a Terceira Guerra Mundial, os cometas, a nova civilização que virá substituir a nossa. É a mudança da era de Aquário. Por isso temos que aturar tantos horrores hoje, como transparências gratuitas, exageros barrocos e peças mal-feitas, brutas, tanto na moda quanto nas artes.”
Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo
Oscar 1998
Ela não era loira, linda, nem sexy. Nunca posou como estrela de Hollywood e o grande público a desconhece completamente. Baixinha, não abria mão de sua franja milimetricamente reta, dos óculos fundo-de-garrafa e de sisudos tailleurs em tons neutros. Ciente de que a beleza não era um dom que Deus lhe deu, dizia: “Sempre quis me parecer com Shirley Temple. Mas o espelho logo me mostrou o contrário”. Espartana nos hábitos e extremamente séria nas feições, só passou a sorrir quando cobriu com uma prótese dois dentes incisivos que lhe faltavam. No entanto, Edith Head foi indicada para 35 Oscars, dos quais levou oito para casa, por seu trabalho como figurinista em mais de 1.100 filmes durante os 29 anos em que comandou o departamento de figurinos dos estúdios Paramount.
Uma de suas biografias, “Edith Head’s Hollywood”, de Paddy Calistro, afirma que ela teria nascido em 1897, dez anos antes do que declarava, em uma pequena cidade na Califórnia. Head, que morreu em 1981 às vésperas de seu 84º aniversário, não gostava de comentar sobre sua vida antes de chegar à Paramount. Dizia que havia um espaço em sua mente trancado por uma porta de ferro. Ali ela atirava tudo aquilo de que não gostava e batia com força a tal porta de ferro.
Para conquistar tantos Oscars, Head driblou vários colegas, mas chutou vários gols. O primeiro teve Mae West como alvo. O chefe de Head, então uma mera aprendiz, estava em Paris assistindo os desfiles e lhe passou a bola do filme “She Done Him Wrong” (1933). West alertou Head: “Quero uma roupa larga o bastante para provar que sou uma lady, mas justa o suficiente para mostrar que sou mulher”. O filme tirou a Paramount da falência e bateu recordes de bilheteria.
O segundo e decisivo gol teve Barbara Stanwyck como parceira. Incumbida de vesti-la em “Internes Can’t Take Money” (1937), Head ganhou sua confiança. No filme seguinte, “Lady Eve” (1941), Head a transformou em sex symbol graças a um modelo de lamê dourado. O sucesso foi tanto que Head passou a ser cláusula contratual nos trabalhos da atriz.
Mas foi apenas há exatos 50 anos que a Academia de Hollywood instituiu o Oscar de melhor figurino. Ambiciosa, Head não se conformou quando viu a estatueta cair em outras mãos. Determinada, resolveu se empenhar ainda mais, trabalhando 15 horas por dia, seis vezes por semana, a fim de que fosse vista como um ser insubstituível. Head sempre quis ser a única nos estúdios da Paramount e podava qualquer possibilidade de ameaça ao seu reinado como figurinista. Com o designer americano Oleg Cassini, um dos preferidos de Jacqueline Kennedy Onassis e um dos namorados de Grace Kelly, chegou a impedi-lo de ter seu primeiro crédito no cinema com o filme “I Wanted Wings” (1941).
A frustração do primeiro Oscar durou pouco. Nos três anos seguintes, ela ganhou quatro Oscars consecutivos: três pelo trabalho em preto-e-branco, um pelo colorido: “A Herdeira” (1949, com Olivia de Havilland), “Sansão e Dalila” (1950), “A Malvada” (1950, com Bette Davis) e “Um Lugar ao Sol” (1951). O vestido de camadas e camadas de tule usado Elizabeth Taylor em “Um Lugar ao Sol” foi confeccionado com a etiqueta Edith Head e todas as pós-adolescentes americanas correram para adquiri-lo. Mas seu maior talento não estava na criação propriamente de um modelo e sim na sensibilidade para escolher o modelo correto, seu ou de outro estilista, e na capacidade de se auto-promover conquistando generosos espaços na mídia. “Jamais serei a melhor figurinista do mundo, mas posso ser a mais inteligente”, dizia. Anos depois, em 59, Head lançou o auto-biográfico “The Dress Doctor”, e mais uma vez teve o gosto de ser um best-seller.
Ética não era seu ponto forte. Encantou-se quando a apresentaram à nova estrela da Paramount, a bela Audrey Hepburn. Mas não se conformou quando Audrey voltou de Paris com o guarda-roupa completo – e impecável- , assinado pelo também promissor talento da moda Hubert de Givenchy para o filme “Sabrina”. Sem se fazer de rogada, na noite do Oscar de 1954, Head recebeu o prêmio e, para surpresa de Givenchy, seu nome sequer era citado nos créditos. O vestidinho preto do filme lançou a “gola Sabrina”, assim conhecida até hoje, mas cuja autoria ambos reivindicam. Head, ao contrário dos clássicos agradecimentos à equipe, pronunciava-se apenas a respeito do brilhante resultado de seu trabalho. Seus assistentes jamais eram lembrados.
Grace Kelly foi o consolo de Head para Hepburn. Head ensinou-a a andar, a segurar a cauda do vestido e a manter a postura. Além disso, soube valorizar sua elegância e beleza em filmes como “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca”, ambos de Alfred Hitchcock, seus preferidos.
Em 1967, Head foi demitida da Paramount mas logo arrumou abrigo no Universal Studio. Ali, seu acervo fazia parte até do tour dos visitantes e ela chegou a cobrar US$ 10 mil por desfiles de seus melhores figurinos. Em 73, recebeu o último Oscar por “The Sting”, com Robert Redford – mas, dizem, ela não teve o menor envolvimento no trabalho, a não ser o de aparecer na noite da festa.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo



