Revista “Visionaire” com Tom Ford
Talvez o principal modelo de conceito e de sucesso desse mercado editorial paralelo seja a luxuosa “Visionaire”, revista cult que enlouquece o mundo da moda e o mundo das artes a cada lançamento. Sua último número tem como editor convidado o americano Tom Ford, estilista e diretor de criação da Gucci.
Em sua 24ª edição, a Visionaire estabeleceu um novo conceito no mercado editorial tendo como princípio básico o não-padrão. Ou seja, o projeto da revista é não ter projeto, nem gráfico nem editorial. Para isso, os sócios americanos Stephen Gan, Cecilia Dean e James Kaliardos elegem um editor convidado que tem plena liberdade na escolha do formato e do conteúdo. É curioso notar que as recentes edições assinadas por estilistas procuram fugir das convenções da moda – caso do número de Karl Lagerfeld, o kaiser da Chanel, que fotografou celebridades e supermodelos, todos nus em “As Roupas Novas do Imperador”.
A edição de Tom Ford, batizada de Light, também tem pouco de moda e muito de surpresa. A revista é uma caixa de plástico rígido, preto e brilhante (bem no estilo Gucci), recheada de 24 transparências soltas, com imagens fotográficas que você só enxerga ao apertar um botãozinho que faz a caixa se acender, criando um backlight. Cada foto é assinada por um convidado de Tom Ford. As imagens são conceituais e a idéia de luz, o ponto de interseção. A maioria tem cara de ficção, com cenas e ambientes de outro planeta. É o caso de Guest, de Christopher Bucklow, Room, de Craig Kalpakjian, Untitled, de Alyson Shotz, e A Brink of Infinity, de Roni Horn, todas cedidas por galerias de Nova York.
A moda está representada por top fotógrafos como Nick Night, Raymond Meier, Wolfgang Tillmans, Mario Testino, a dupla Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin (com The Club) e o novo Luis Sanchis. O inglês Alexander McQueen é o único estilista participante e explicita seu prazer mostrando a pontinha de um pênis em pleno momento de gozo.
Há 3.300 exemplares à venda no mundo. No Brasil, chegaram apenas 50: 30 para São Paulo (à venda no Café V da loja Viva Vida, r. Oscar Freire, tel. 853-9327, Jardins), e 20 para o Rio (na mesma loja, no Fashion Mall). O preço, assim como a revista, é de colecionador: R$ 810, valor que equivale a três pares do tradicional mocassim Gucci de camurça, à venda na butique Daslu. Como diz o slogan da Zapping, it’s up to you.
Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo
A energia de Issey Miyake
Pela primeira vez no Brasil, a coleção do estilista japonês Issey Miyake, um dos expoentes da moda internacional, estará à venda a partir de hoje na butique Sissi (al. Lorena, 1.919, tel. 881-8260, Jardins). Na próxima estação, a loja já prepara suas araras para receberem mais um grande nome da cena internacional (e intelectual), Yohji Yamamoto. “Estou muito feliz por ser representado no Brasil”, disse Issey Miyake, 60 anos, com exclusividade ao Estado, lembrando que já esteve uma vez aqui durante o Carnaval. “A energia, a música e as cores vibrantes são imagens que levarei para sempre comigo”.
Não pense em quimonos nem tailleurs. Esqueça se a última moda pede saias longas ou curtas, cinza e rosa. Não há tendência nas roupas de Miyake, há apenas o estilo Miyake, de forte identidade, o que o torna atemporal – uma exceção neste império do efêmero. Mestre na combinação de cores e invenção de tecidos, Miyake estabelece com suas roupas uma relação de volume com o corpo como poucas vezes a indústria do vestuário já viu. Ele cria formas a partir de tecidos e seus tecidos são uma fusão da tecnologia e tradição de seu país: das camisas de fibra de abacaxi e vestidos de papel ao mais recente fenômeno da marca, os plissados chamados Pleats Please, fruto de um desenvolvimento dos quase 30 anos que trabalha como criador de moda, depois de ter estudado em Paris e estagiado com Guy Laroche e Givenchy.
“Adoro fazer experiências com tecidos, combinando a mais moderna tecnologia com tradição e artesanato”, conta. Inspirados nos artesanais plissados criados por Mariano Fortuny (1871-1949), Miyake conseguiu industrializar o look e oferece um guarda-roupa completo com a seguinte opção de materiais: poliéster (mais barato), voal, chifom, crepe ou tafetá (o mais caro), em regatas a partir de R$ 220 ou vestidos longos de até R$ 1.200. “Ao criar uma peça, a coisa mais importante para nós é olhar o futuro e ao mesmo tempo tentar refletir as necessidades da vida da mulher moderna e preservar as fontes naturais do mundo”, diz. Os modelos da linha Pleats Please provam isso: são guardados enrolados, ocupam pouco espaço, são leves e não amassam.
Os desfiles de Miyake também traduzem este desejo, ao criarem imagens sempre associadas à arte, cultura, bem-estar e felicidade, com recursos como o balé de Frankfurt ou uma orquestra medieval japonesa. Não há supermodelos nem carão. Meninas com cara de nenê podem dividir a passarela com senhoras de 80 anos, tudo sempre com expressões serenas e plácidas. Formas e modelagens são mostradas com um tom lúdico que faz a bolsa se transformar em casaco ou o vestido virar um espesso círculo.
A coleção que chega a São Paulo é uma das melhores dos últimos anos. Predominam tons claros: branco, pele, gelo, lilás, marfim. Entre parkas, doudounes e calças paraquedistas, o destaque são as peças de malha circular que possibilitam diversos modelos: basta manter ou soltar uns pontinhos estratégicos que mudam a forma da roupa e formam drapeados incríveis – uma espécie de prêt-à-porter do futuro, ou seja, você compra a base produzida em série mas cria um modelo sob medida ao seu estilo.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
Produtos Tintin chegam ao Brasil
A febre entre as crianças são os personagens da Looney Tunes (Piu Piu e Taz), mas para os adultos de gosto mais apurado, loucos por uma boa história de aventura, o personagem Tintin é uma daquelas lembranças da infância que ficam ainda mais saborosas com o tempo, pois Tintin é dotado de uma sofisticação que se valoriza com o amadurecimento. Essa sofisticação aparece também nos produtos da marca, antes disponíveis apenas em algumas cidades da Europa e do Japão, que acabam de chegar ao Brasil pela loja Programa Infantil, autorizada exclusiva no país.
Segundo Claudia Ribeiro, proprietária da loja, adquirir os direitos de representação foi uma aventura tão complicada quanto as histórias do personagem criado pelo belga Hergé (pronúncia em francês das iniciais invertidas do autor, Georges Remi). Foi só depois de apresentar os números de venda de outras marcas que Ribeiro ganhou o ok da Fundação Hergé: “O Brasil é o terceiro mercado da Warner, atrás apenas dos Estados Unidos e da Inglaterra”, conta Claudia, que vende também artigos da Looney Tunes, Disney e Cartoon Network.
Embora ainda não tenha a linha completa de Tintin, a Programa Infantil conta um sortimento de artigos cujos temas são as histórias “Ceptro de Ottokar”, “Tesouro de Rackham, o Terrível” e “O Templo do Sol”. Há nove modelos de relógio (cerca de R$ 140), dezesseis modelos de meia (R$ 19), onze de camisetas (R$ 40), bandana (R$ 45), guarda-chuva (R$ 120), necessaires (de R$ 32 a R$ 36), mochila (R$ 95), tapetes (R$ 290 e R$ 380) e jogo de toalha (R$120), além de louças, papelaria, fitas de vídeo, livros e CD-Rom. Os preços superiores aos da concorrência são reflexo da qualidade de seus artigos, que apresentam design e acabamento superiores, tornando-os mais clássicos e nada descartáveis.
Tintin, cujos desenhos são transmitidos diariamente pelo Cartoon Network, foi criado por Hergé em 1929 para o suplemento infantil do jornal belga “Le Vingtième”. As primeiras histórias (No País dos Soviéticos, Tintin na África, Tintin na América e Os Charutos do Faraó) trazem clichês conservadores e paternalistas de um autor distante da realidade dos locais retratados. Mas em 1936, ao anunciar sua história sobre a China, Hergé recebe uma carta do jovem estudante TChang-TChong-Jen alertando-o para a imagem distorcida que estava divulgando de outros países e propondo-lhe que pesquisasse mais profundamente os temas de suas aventuras. Grato até sua morte a TChang-TChong-Jen, Hergé (1907-1983) homenageia-o em histórias como “Tintin no Tibet” e acaba montando um centro de pesquisas, que tinha entre seus assistentes Edgard Pierre Jacobs (de Blake e Mortimer).
Traduzido em mais de cinquenta línguas, o repórter Tintin é o jovem herói das 24 histórias deixadas por Hergé. Sempre acompanhado pelo cachorro Milou, Tintin se envolve em aventuras misteriosas onde seu faro de detetive e sua coragem o ajudam a enfrentar as forças do mal. “As Jóias de Castafiore” está entre as melhores histórias (1963) e “Explorando a Lua” (1954), entre as mais vendidas (mais de 5 milhões de exemplares).
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
Tom Ford acredita na eternidade do estilo
A inauguração mais importante do ano em termos de moda internacional acontece hoje (só para convidados) em São Paulo. Trata-se da primeira loja Gucci na América Latina, que será comandada por Eliana Tranchesi, da butique Daslu, em seu QG na Vila Nova Conceição. Transformada em ícone fashion nos últimos três anos, a marca italiana surgida em 1923 tem uma história das mais interessantes, que inclui um período áureo nos anos 50, o desgaste absoluto de sua imagem nos anos 80 (quando o logotipo Gucci aparecia em qualquer esquina) e sua plena recuperação nos anos 90. O responsável pela reviravolta é o estilista americano Tom Ford que, nesta entrevista exclusiva ao Estado, concedida por fax de seu apartamento em Paris, fala pela primeira vez à imprensa latino-americana.
Nascido no Texas, Ford estudou arquitetura mas decidiu que seu futuro estava na moda. Tentou apresentar seus desenhos a vários estilistas até que conseguiu uma chance com a designer Cathy Hardwick. Ela não tinha nada de especial, mas acabou introduzindo Ford ao mundo da moda e ao jornalista Richard Buckley, com quem vive há onze anos. Em 90, ele e Richard resolveram se mudar de Nova York para Milão, em busca de uma qualidade de vida melhor. Foi aí que Ford entrou na Gucci. A marca estava tão falida que ele trabalhava sem nenhum assistente. “Não havia nem papel para xerox”, lembra.
A grife que havia conquistado o mundo com seus mocassins e bolsas, como o modelo de alça de bambu de 1957 inspirado em uma sela de cavalo, estava perdida diante de seus 22 mil produtos licenciados e da crise entre os herdeiros de Guccio Gucci, o fundador. Só entre seus filhos e o neto Maurizio, então presidente da empresa, havia cerca de 15 processos registrados. Aldo, o primogênito, chegou a ser preso por sonegação e acabou vendendo sua parte ao banco de investimento Investcorp. Em 95, Maurizio, que já havia passado os 50% restantes para a Investcorp, foi assassinado em uma rua de Milão, supostamente a mando da própria esposa. Mas o escândalo já não abalava mais a reestruturação do nome Gucci, que havia se tornado a primeira grife a se transformar em empresa de capital aberto, antes mesmo de Donna Karan e Ralph Lauren. Comandada por Domenico del Sole (advogado de Maurizio) em parceria com o jovem Tom Ford, que ganhou plena autonomia a partir de então, as vendas da Gucci saltaram de US$ 180 milhões em 88 para US$ 1 bilhão em 98.
Ford, 36 anos, imprimiu um novo caráter à moda. Próximo do mercado e distante das criações conceituais, ele fez da palavra sexy o adjetivo obrigatório às suas roupas, que viraram objeto de desejo tão forte quanto seus stilettos (sapatos de salto alto e fino) ou mesmo o fio dental de verniz com o G atrás. Ford idealizou uma mulher forte e realista, (re)lançou a minissaia e arriscou até umas ombreiras gigantes. Tudo com explícito apelo sexy, de preferência em preto e em materiais contemporâneos como o jérsei e o couro. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Tom Ford mora em um simpático apartamento em Saint-Germain-des-Près, em Paris, mas possui casas em Los Angeles, Nova York, Santa Fé e Londres, entre outras. “São as cidades que amo”, conta. “Adoraria ter tempo para minha vida pessoal, mas tenho que trabalhar muito”. Dentro ou fora da Gucci, ele é conhecido por ser workaholic e extremamente centralizador. Sua missão no mundo da moda ainda não está cumprida, mas os amigos mais íntimos já comentam seu desejo de se aventurar como diretor de cinema, papel que seria adequado ao seu perfil centralizador, uma vez que ele teria total controle da imagem: da idealização da luz ao vestido que uma boa atriz pode tornar eterno.
Gentil, ele diz que admira todos os seus colegas de moda, mas evita falar sobre ídolos, desafetos e também sobre o Brasil. Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva ao Estado.
Lilian Pacce – Quem é a mulher e o homem Gucci? Entre tantos clientes famosos, como Uma Thurman, Helen Hunt e Antonio Sabato Jr., com qual você se identifica?
Tom Ford – A Gucci se dirige tanto ao homem quanto à mulher realista. Aprendi em meu trabalho que o que não vende não é moda. Tanto o homem quanto a mulher Gucci não são uma pessoa específica. São pessoas modernas em mudanças constantes. Particularmente, acho que o novo homem Gucci é um pouco eu mesmo. Mas na verdade o homem Gucci é um pouco rock star e um pouco um ser como outro qualquer. Uma mulher confiante é o que mais me inspira, alguém que de certa maneira tenha o mesmo nível de segurança que um homem.
Lilian – O que é ter estilo?
Ford – A essência do estilo está em conhecer e acreditar em si mesmo. Na moda, estilo é bem diferente. Quem tem estilo não precisa necessariamente de moda. Se você encontra algo que funciona bem para o seu tipo, mantenha-o sempre! Adoro encontrar no metrô de Nova York alguém congelado em 1972. Você pode dizer que ela não tocou no cabelo nos últimos 20 anos, não mudou a maquiagem, não trocou de roupa. O resultado é incrível porque aquilo realmente combina com ela e é como ela fica bem. Adoro ver estas pessoas absolutamente convictas sobre o que lhes cai bem. Isso é estilo. E estilo muitas vezes vai totalmente contra a moda. É a expressão pessoal. O estilo é eterno.
Lilian - Como você define o estilo Gucci?
Ford – O estilo Gucci é definitivamente o luxo, mas não o luxo óbvio. É o luxo intimista, sem ostentação.
Lilian - Quanto ajuda e quanto atrapalha o uso do logotipo explícito na roupa? Você acha que é hora dos logotipos voltarem?
Ford – É engraçado. Sempre me perguntam sobre logotipos, mas eu não dou a menor importância para eles, sequer penso neles. Às vezes o logo funciona numa temporada ou em uma roupa, às vezes não. O logo deve ser apenas tão bom quanto o produto em que é colocado. Ele vale tanto quanto o que quer que esteja por trás dele. É apenas mais um elemento do design. Especialistas trabalham anos desenvolvendo um logo que simbolize o que a marca é. Temos sorte porque o nosso é reconhecido no mundo todo e seria bobagem não usá-lo.
Lilian – O Brasil é um mercado conhecido da Gucci. Quais são as expectativas da empresa nesta nova fase? A “saúde” da Gucci do Brasil já está tão recuperada quanto a da Gucci no resto do mundo?
Ford – Acho que a Gucci está recuperando sua saúde no Brasil e espero que os brasileiros apreciem nossos produtos tanto quanto nossos clientes mundo afora. Geralmente preferimos ter loja própria. Optamos pela franquia apenas nos mercados em que não podemos ter o controle direto e absoluto. Mas o resultado é o mesmo: todos os clientes têm o mesmo produto, o mesmo serviço de atendimento e a mercadoria entregue na mesma época. No ano passado, abrimos lojas na China e em Moscou. Há duas semanas, em Istambul e, em breve, abriremos no Kuait e em Atenas, além de estarmos reformulando a loja da Sloane Street, em Londres, que é nossa flagship no Reino Unido.
Lilian – Quais são as diretrizes da Gucci para enfrentar o futuro?
Ford – Temos todos os olhos do mundo sobre nós e nosso objetivo agora é vestir o mundo. Nos próximos cinco anos eu acho que devemos amadurecer enquanto empresa. Queremos oferecer ao nosso cliente roupas, acessórios e produtos que ele realmente precisa para viver. Mais do que entrar na loja para comprar um nova camisa ou um novo sapato Gucci, quero que nosso cliente entenda que ao entrar na Gucci ele vai encontrar tudo que quer ou precisa a cada dia. Essa sensação deve ser de completo prazer desde o momento em que ele passa pela porta e encontra um serviço impecável do atendimento do vendedor até o responsável pelo pacote que será levado até a porta para ele. Tudo deve ser impecável e extremamente agradável – é essa minha expectativa para os próximos cinco anos.
Lilian - Qual foi seu passo decisivo dentro da Gucci?
Ford – Foi recuperar a imagem de luxo, elegância e moda que os produtos Gucci tinham no passado.
Lilian - Além das coleções, quais são suas atividades e responsabilidades na Gucci?
Ford – Sou o diretor criativo de tudo o que é feito pela grife. Desenho onze linhas e tenho responsabilidade direta sobre todos os produtos (roupas, perfumes e objetos para casa), formato das lojas, vitrines e publicidade.
Lilian - O que faz o sucesso de uma grife hoje?
Ford – O sucesso da Gucci é resultado do comprometimento constante de 1.800 pessoas. Os principais ingredientes para este sucesso são a excelente qualidade de cada produto, liderança do design, estratégia de business transparente e coerente, distribuição seletiva e consistente publicidade e comunicação mundial.
Lilian – O que é mais importante: criatividade, estilo ou marketing?
Ford – Tudo.
Lilian - Segundo a revista Vanity Fair, “para os gays, Tom Ford é um sonho. Os homens o admiram e as mulheres… nem é preciso dizer”. Como você se sente diante de tanto assédio?
Ford – Se eu fosse me definir com cinco adjetivos, escolheria confiante, inseguro, perfeccionista, leal e organizado.
Lilian - Qual sonho você ainda quer realizar?
Ford – Adoraria ter mais tempo livre para mim.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo



