29.07.1998 às 5:05

Mario Testino abre exposição na Faap

“As pessoas no Brasil me conhecem só pelos portraits da Madonna e da Diana, mas não é isso que fez meu nome”, avisa Mario Testino nesta entrevista ao Estado. Ele abre hoje, para convidados, a exposição “Fashion Photographs” na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). A mostra é uma seleção de 114 imagens clicadas nos últimos quatro anos pelo fotógrafo peruano radicado em Londres para editoriais das principais revistas do mundo, como “Vogue” (francesa e americana), “Harper’s Bazaar”, “The Face” e “Visionaire”, e campanhas de publicidade como as da Gucci, Missoni e Versace. As fotos são distribuídas em murais que formam as hastes de uma estrela; nas pontas, dois videowalls exibem outras imagens consagradas em quase vinte anos de carreira.

Sempre de calça esporte, camisa branca ou azul-clara e blazer marinho, Testino remete mais a uma elegância britânica do que sul-americana, com sua pele e olhos claros. “Minha paixão por elegância, estilo e moda vem da minha mãe, que sempre foi chic e adorável”, diz aos 44 anos. O português é fluente – graças às muitas temporadas que passou no Rio, desde a adolescência, e que depois se tornou cenário idílico para fotos publicadas nas revistas “W”, “Allure” e “Vogue”. Muitas delas foram selecionadas para a exposição que, segundo ele, “é uma celebração ao sol e ao sexo”. “Adoro o Rio. É uma cidade linda e ao mesmo tempo urbana e moderna, com uma sensualidade à flor da pele”, diz. Sensualidade é quase um requisito básico no trabalho de Testino: “Felizmente hoje a moda pede um novo chic, um novo glamour que valoriza as formas do corpo, as curvas da mulher”. Em deliciosa entrevista à cantora Madonna, que o catálogo da exposição reproduz em parte, ele se diz fascinado pelas curvas do corpo, que despertam um desejo de tocar que é o mesmo que ele procura passar nas fotos.

Testino lembra que sua mãe dizia que ele era uma pessoa “insuportável”, incapaz de fazer só o que os outros querem. “Sou muito exigente, escolho bem quem eu vou fotografar pois a fotografia é o instante de 1/60 de segundo onde a luz, a maquiagem, a expressão, tudo tem que funcionar – isso na moda é natural, mas com uma grande personalidade tudo fica mais difícil; além do quê, eu amo roupa”.

Simpático, Testino tem em Londres um staff de seis pessoas, entre assistentes e secretária, além de stylists, cabeleireiros e maquiadores com quem sempre trabalha, como Carine Roitfeld que o fez descobrir o seu tipo de mulher. “Gosto desse espírito de equipe, ouço a opinião de todos: é importante cultivar novas pessoas sem perder as referências; o Orlando Pitta, por exemplo, fez seu primeiro trabalho comigo há 15 anos”, conta sobre o cabeleireiro que o apresentou a Madonna e que o acompanha nesta viagem ao Brasil, ao lado de mais seis pessoas – entre elas, Stephen Gan, editor da revista cult “Visionaire”, que assina o projeto dos catálogos da exposição e da coleção de verão da Zoomp, patrocinadora do evento.

Testino sabe temperar esse espírito familiar -”latino”, diz – com sua intuição para descobrir talentos. Até com as modelos é assim: responsável pela ascensão de Shalom Harlow, Carolyn Murphy e Amber Valetta, ou, para citar duas brasileiras, Gisele Bundchen e Fernanda Tavares, ele se transforma em conselheiro tão fiel quanto crítico: “Sou o único que diz a elas o que elas fizeram de errado em um desfile; temos uma relação de total confiança.”

No início, o grande referencial de Testino era o fotógrafo inglês Cecil Beaton: “Ele era um modelo da minha geração, pois além de fazer moda, cobria toda a sociedade de sua época”. Esta influência, somada à de outro ícone fashion, Helmut Newton, resulta no trabalho de Testino, um mix de bom gosto, classe e sensualidade inerentes à cada imagem. A princesa Diana sorriu à vontade para ele meses antes de sua morte, ocorrida há um ano. Patsy Kensit exala prazer na foto em preto-e-branco publicada pela Face. Nas campanhas da Gucci, cada imagem remete a uma cena de sedução. São essas imagens que podem ser vistas até dia 23 na Faap, das 10h às 20h.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

14.07.1998 às 7:53

Mario Testino, um apaixonado pelo Brasil

OK, come!”, exclama Mario Testino, alertando a equipe para o início das fotos. O cenário é uma garagem que paira sobre a baía de Guanabara, escolhido a dedo em um condomínio no Joá. As novas darlings brasileiras Gisele Bundchen e Fernanda Tavares vestem a nova coleção de verão da Zoomp, marca responsável pela estada do fotógrafo esta semana aqui. O trabalho resultará no próximo catálogo e campanha publicitária da Zoomp que, pela primeira vez, contrata um top fotógrafo e uma equipe internacional que inclui ainda o editor Stephen Gan, da revista cult Visionaire, autor do projeto gráfico. Além disso, Testino abre dia 3 uma exposição na Faap com o melhor de seus trabalhos nos últimos quatro anos e com apresentação da cantora Madonna no catálogo. Dia 4, apresenta uma palestra no teatro da faculdade.

Em setembro, lança dois livros: um luxuosa edição de apenas 60 exemplares, a US$ 2 mil cada, com seis reproduções de foto e texto do inglês Martin Amis, pela ed. Couromandel, e “Mario Testino – Any Objection?” (ed. Phaydon), que terá a praia de Ipanema na capa e, segundo ele, “é uma celebração ao sol e ao sexo”.

Acostumado a revelar a alma de celebridades como a princesa Diana e Madonna – é autor do ensaio fotográfico da cantora com a filha Lourdes e da capa do último CD, “Ray of Light” -, Testino confessa que gosta mesmo é de moda. “Sou histérico por roupa e vida social”, declara. E é enorme fã do Brasil – tanto que já esteve várias vezes a trabalho aqui, revelando assim um pouco da beleza brasileira para o mundo nas revistas “W”, “Allure” e “Vogue” americana.

Desde os 14 anos, freqüenta o Rio, onde amigos e até suas sobrinhas já moraram. “Elas, que têm 17 e 22 anos, me explicaram o que é a Zoomp”, diz Testino, 42 anos. “O Rio é incrível. Junta a sensualidade da praia com programas urbanos, como ir a cinemas e exposições. As pessoas são leves, sexy, riem gostoso. Até o português do brasileiro é sensual”, conta em português fluente (assim como seu espanhol, inglês, francês e italiano).

Cidadão do mundo, Testino nasceu no Peru, estudou na Califórnia e mudou-se por acaso para Londres. “Meu pai era muito generoso e disse que me sustentaria enquanto eu estudasse. Então, estudei muito”, brinca. Tentou economia, direito e negócios internacionais, sem concluir nenhum. Pediu ao pai a última chance: estudar em Londres. Mas estudar o quê? Uma amiga o aconselhou a fazer um curso de fotografia – aval suficiente para seu visto de permanência. Lá foi ele, que era louco por roupas mas estranho às câmeras. Escolheu um curso no Old Vic Theatre, mas quatro meses depois seu professor morreu. “Na noite seguinte ao funeral, uma amiga me arranjou um estágio de US$ 15 por semana. Topei na hora. Parece que uma conjunção celestial me levou à fotografia”. Para melhorar sua renda, fazia bicos em um restaurante e, definitivamente, viu que sua ambição não cabia ali. “Passei a fazer retratos até que um dia entrei para Harper’s and Queen.”

Como um peruano conseguiu penetrar tão rápido no restrito mercado editorial da moda internacional? “Por ser sul-americano, via Londres com outro olhar, fotogrando lugares clássicos, chics, diferentes dos que os ingleses procuravam”, explica. Há cinco anos sua carreira deu um grande salto. Ao assumir a direção da revista “Harper’s Bazaar”, Liz Tilberis incluiu Testino em seu staff de fotógrafos ao lado da estrelas como Patrick Demarchelier e Peter Lindbergh. Dois anos atrás, a “Vogue” América, concorrente direta da Bazaar, ofereceu a Testino o cargo de estrela em si.

Ao mesmo tempo, a stylist Carine Roitfeld se encantou com seus ensaios de nus, maneira com a qual ele exercitava seus estudos de luz quando tinha pouco trabalho, e, principalmente, adorou a fixação de Testino por moda: “A maioria dos fotógrafos de moda gosta de fotografia, e não de moda”, disse. Desde então Testino e Carine formam uma dupla de criação responsável por alguns dos looks mais marcantes desta época: as campanhas da Gucci, Paul Smith, Missoni, Sonia Rykiel e algumas de Saint-Laurent e Versace. Com ela, ele clicou em Paris a ex-loira do Wonderbra Eva Herzigova, agora morena e de cabelo comprido, para a campanha de jeans da Zoomp.

Como se constrói a imagem de uma marca? “É preciso entender o que o cliente quer. Mas não tenho vocação para fazer só o que ele quer, então dou o meu toque, o polimento que faz a imagem brilhar”, diz. “A mulher é a coisa mais importante – embora eu mesmo já a tenha colocado como se fosse mais uma luminária do cenário. Importante é vender a roupa. Como eu gosto de roupa, ela sempre aparece nas minhas fotos”.

Outro talento de Testino é sacar antes a supermodelo de amanhã. Shalom Harlow, Amber Valetta e Carolyn Murphy são algumas “descobertas”. “Vejo 50 composites por dia”, calcula. Hoje ele investe em três meninas: a porto-riquenha Astrid Muñoz e as brasileiras Gisele Bundchen e Fernanda Tavares. “A mulher tem que ser sexy, forte e segura. Gosto também de uma certa androginia. A beleza física é 50%, depois vem a sensualidade e a personalidade”, diz. Ser descoberta por Testino significa ganhar um professor: “Explico como ela deve caminhar, se vestir e valorizar-se”, diz com indisfarçada exigência.

“Mario Testino – Fashion Photographs”: exposição que abre dia 3 (só para convidados) e fica até dia 24, das 10h às 20h, no salão cultural da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), r. Alagoas, 903, Higienópolis, tel. 3662-1662.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo

12.07.1998 às 7:31

Criações de Yves Saint-Laurent

Assistir 40 anos de moda em pleno estádio de futebol em dia de final de Copa do Mundo é de fato um momento inédito – para o futebol e para a moda. Enquanto a confusão da escalação ou não de Ronaldinho rolava, 300 modelos do mundo inteiro desfilavam 300 criações de alta-costura de Yves Saint-Laurent, um dos grandes gênios da moda deste século, sobre o campo do Stade de France especialmente coberto com uma lona azul que reproduzia o desenho de nuvens no céu.

O desfile garantiu à França lugar de destaque na final – caso o time da casa não se classificasse. Moda é um grande produto de exportação na França e, portanto, assunto de Estado. O governo oferece incentivos para que os criadores mantenham a fama de Paris como capital da moda. E hoje o maior estilista vivo ainda está em ação em Paris.

O desfile de YSL, que teve a participação de nove modelos brasileiras, dividiu-se em temas recorrentes na trajetória deste criador nascido na Argélia, como a influência das artes (Van Gogh, Picasso, Andy Warhol da pop art), do orientalismo, do exotismo da África ou da Índia. Além disso, Saint-Laurent foi o primeiro a permitir que a mulher trocasse o longo vestido de festa pelo smoking, com calça e tudo. Isso sem contar as roupas de safári que ele tornou sensuais e urbanas e as túnicas transparentes, que liberaram a nudez feminina há mais de 30 anos.

Lilian Pacce