29.09.1998 às 5:08

Flavio de Carvalho no “Iconoclastias Culturais”

Iconoclastias Culturais” começa na rua, com uma passeata às 6 da tarde de hoje, terça-feira. A passeata, embora não tenha nada a ver com o 2º turno das eleições, não deixa de ter cunho político, homenageando o arquiteto multimídia Flávio de Carvalho (1899-1973). Carlos Miele, da grife M. Officer, foi o escolhido pela Casa das Rosas para encarnar a provocante e polêmica figura de Carvalho. Trinta homens sairão do parque Trianon em direção à Casa das Rosas, mas o grito de guerra deles não estará estampado em nenhuma faixa e sim na indumentária escolhida.

Que o Homem Saia” é o nome deste movimento que busca na força de um grupo o que um homem sozinho fez em 1956. O homem, claro, era Flavio de Carvalho. Ele saiu pelas ruas do centro da cidade desfilando sua proposta de traje ideal para o homem tropical: saia plissada acima do joelho (antes mesmo que Mary Quant lançasse a minissaia para a mulher), top à Michelangelo de náilon, meia arrastão e sandália de couro cru. Batizada de “Experiência nº 3“, foi imediatamente associada ao New Look que Christian Dior havia lançado em 57: um traje que revolucionou a moda no pós-guerra, oferecendo à mulher o direito à feminilidade, com saias no meio da perna e cinturinha de vespa.

O New Look de Carvalho, aliás, é anterior também ao de Dior. Desde 1944 ele fazia reflexões sobre a “estupidez” do terno-e-gravata para o homem tropical, embora só tenha apresentado sua proposta em 56. “O homem se manifesta na vida pelo seu corpo e pelo traje que o cobre”, dizia. Em depoimento ao “Estado” na época, ele explicava assim sua tese: “No New Look para o verão a refrigeração do corpo se dá pelo fluxo em velocidade graduável do volume de ar situado entre o corpo e o tecido. Este fluxo de ar leva consigo o vapor de água do suor para a atmosfera no exterior do traje, impedindo que o suor se deposite sobre o tecido. Para que haja um bom fluxo de ar há necessidade de um bom volume de ar entre o corpo e o tecido. (…) A saia não pode ser substituída pelo short porque o short impede a circulação de ar entre as coxas”.

Embora a idéia da saia (incluindo túnicas e vestidos) para homem não seja novidade, Carvalho foi um visionário. Ou um “revolucionário romântico”, como definiu o arquiteto suíço Le Corbusier. Ao recuperar uma peça de uso corrente dos homens da Antiguidade (como mostram, por exemplo, as imagens do rei Mycerinos, da 4ª dinastia egípcia, que usa modelo pregueado como o de Carvalho) e tradicional até hoje entre os escoceses (com a saia kilt), Carvalho transformou a roupa em manifestação artística contra as convenções burguesas e o conservadorismo da sociedade.

Menotti del Picchia comentou assim a passeata de Carvalho: “Ele não se ria, por dentro, dos que por fora se riam dele. Sua aventura não era uma piada: era heróica”. Obviamente, boa parte de público viu naquilo apenas uma piada, sem entender suas razões. E del Picchia conclui: “Não creio que seus modelos vinguem. Flávio é um Galileu e não um Dior; não é um costureiro, é um filósofo”.

Entre as inúmeras pensatas sobre o tema, Carvalho dizia que a moda “é um gráfico das angústias dos grupos sociais”, composto pela “moda curvilínea fecundante e pela reta paralela antifecundante”. O uso de cores vivas e fortes compensaria o desejo de agressão e, portanto, evitaria as guerras proporcionando uma vida melhor.

Ao interpretar Carvalho, Carlos Miele colocará na rua o que muitos estilistas já fizeram na passarela: Jean-Paul Gaultier, Giorgio Armani, Donna Karan, Walter Van Beirendonck, entre outros internacionais, e até André Lima para a Cavalera, com as kilts para o próximo verão. O enfoque de Miele, como sempre, está na matéria, no uso de tecidos novos e hi-tech. Ele próprio, Arthur Omar, André Schiliró, André Abujamra e outros nomes ligados à arte vestirão pareôs abaixo do joelho com tops variados, como tricô, camisa ou camiseta. “Esta roupa pesa 1,5kg a menos do que um terno com sapato”, garante. Contrariando a tese de Carvalho, no entanto, Miele permitirá o uso de shorts sob as saias. Mesmo assim, aposta no modelo como uma alternativa favorável ao meio-ambiente uma vez que “a necessidade do ar-condicionado diminui e com isso diminuem os problemas respiratórios e a poluição”. “Além disso, ao mostrar mais o corpo, o homem vai querer se cuidar melhor e vai ter menos problemas de coração”, afirma Miele parafraseando sua inspiração.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

28.09.1998 às 4:57

“O Homem Casual”, novo livro de Fernando de Barros

Acaba de chegar às livrarias o novo título assinado pelo especialista em moda masculina Fernando de Barros, “O Homem Casual” (ed. Mandarim), que ele lança um ano depois de seu “Elegância – Como o Homem Deve se Vestir” (ed. Negócio), que já vendeu 25 mil exemplares. Enquanto “Elegância” é uma compilação de vários artigos publicados em seus 34 anos de editora Abril (mais especificamente na revista “Exame Vip”), “O Homem Casual” é um livro escrito a partir de uma tese. A tese de que o estilo social não resistirá ao século 21 e será substituído pelo casual: um estilo ainda em formação, que valoriza o conforto e torna a roupa mais espontânea sem perder a elegância. Um estilo baseado no tripé calça jeans (ou cáqui, o novo ícone do estilo casual, segundo Barros), camiseta básica (t-shirt) e camiseta pólo, ou seja, as chamadas peças básicas.

Mas se elegância já é algo difícil de lidar dentro dos padrões autoritários da formalidade, imagine no liberalismo democrático da casualidade. “Claro que sempre haverá regras”, avisa Barros, 83 anos, do alto da sabedoria de quem viu a moda nascer no Brasil, revelando com modéstia: “Me visto muito mal casualmente, mas sei que o terno está acabando: um século é demais para uma roupa”. Para provar, mostra uma foto dos anos 20 em que aparece de terno ao lado do pai, um rico comerciante português, e dos irmãos na casa de 27 cômodos próxima de Lisboa, em que foi criado por sete empregados, pois a mãe faleceu quando ele tinha dez anos. “A única coisa que mudou na roupa masculina foi o colarinho da camisa: em vez de virar para cima, agora vira para baixo”.

São essas observações simples e diretas que pontuam “O Homem Casual”. Nele, o ex-diretor e produtor de cinema e teatro Fernando de Barros vai tramando noções de estilo, dados históricos e boas histórias, como a de Jânio Quadros governando com roupa-safári, lembrando que a grande revolução do século 20 ocorreu com as mulheres e, portanto, com o guarda-roupa feminino: “Elas se emanciparam e foram as grandes heroínas desta era”, diz, citando a minissaia entre outros símbolos.

Barros mostra como surgiram as peças que sustentam o estilo casual e procura fazer justiça a Jacob Davis, o alfaiate que cortou e costurou a primeira calça jeans mas que, por falta de dinheiro, dividiu a patente com Levi Strauss, o das calças Levi’s. Lembra que o tenista René Lacoste um dia inventou um novo modelo de camisa para jogar tênis: de malha, com três botões, gola circular e um crocodilo bordado na lateral (o apelido do campeão de tênis era crocodilo). Ciente da praticidade de seu modelo, Lacoste começou a fabricá-lo nos anos 30. Muito usado pelos jogadores de pólo, passou a ser conhecido como camiseta pólo – símbolo que se tornaria marca registrada de Ralph Lauren. “Graças à simplicidade, a pólo e a camiseta atingiram a perfeição; num país de clima quente como o Brasil, elas se tornaram um jeito próprio de vestir do brasileiro”, escreve.

Apesar de cético quanto ao futuro do terno (termo que ele prefere a costume, numa espécie de “licença poética”), Barros reconhece que “o homem de sucesso deve impressionar” e um terno bem cortado é fundamental para isso. Segundo ele, as empresas modernas dão mais importância hoje ao “homem capaz de negociar e mudar a situação das coisas com sutileza e persuasão; por isso a roupa de trabalho está adquirindo maior sutileza”. Assim, o estilo casual representa vários avanços, “na medida em que implica não só comprar uma roupa de qualidade mas saber usá-la”: “Ele leva o homem a estar bem vestido sempre e não só durante o expediente de trabalho”.

Barros ensina como um traje social, como um terno cinza, pode conviver com peças informais resultando no casual, fazendo com que o homem fique “elegante sutilmente, transmitindo uma sensação de inteligência e objetividade sem ser ostensivo”. Para isso, propõe um guarda-roupa básico, que depois pode ser aperfeiçoado, acrescentando-se inclusive um terno escuro. Alerta para cuidados cotidianos com a roupa, ensina a valorizar padrões e texturas, a combinar meias e cintos, calças e sapatos, além de falar sobre bonés, tênis, jaquetas e suéter (uma opção casual para o paletó no inverno). Convencido de que seu leitor aprende rápido a lição, ele se arrisca a propor calça de algodão preto com paletó de algodão branco, com quatro botões, no que ele classifica de fórmula formal-informal.

Alguns palpites de Barros podem não vingar, como o de que o training “virou coisa apenas para velhinhos” e “a gravata de tricô retornou para ficar”. Mas a tese defendida por ele sustenta o livro, cria cultura de moda e faz com que o homem encontre ali, numa leitura fluente e casual, informações suficientes para se olhar no espelho de manhã e poder decidir, sozinho e seguro, como deve se vestir para viver mais feliz sem ser relaxado.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo