McQueen monta circo de horror na Semana de Moda de Londres
Londres – Hoje a Prada desfila sua coleção outono-inverno 2001/2002 e amanhã é a vez da Gucci, ambas em Milão. A expectativa é grande porque a temporada internacional de lançamentos não foi nada emocionante até agora. Tudo começou em NY, de onde realmente se espera uma interpretação comercial das tendências mais criativas. Semana passada foi a vez de Londres, que entrou no mapa da moda com a missão de alimentá-la com o máximo de criatividade e o mínimo de contestação e ousadia. Mas, salvo raríssimas exceções como Alexander McQueen e a nova Sophia Kokosalaki, a temporada da chamada London Fashion Week foi tão saborosa quanto um purê de batatas de hospital.
A geração criativa que os britânicos exportaram para o epicentro da moda de Paris (leia-se John Galliano para a Dior, Stella McCartney para a Chloé, McQueen para a Givenchy) parece ter traumatizado a nova geração. A fantasia underground deu lugar à preocupação comercial. Os novos estilistas não alimentam mais o sonho de virarem estrelas internacionais por sua originalidade. Buscam vestibilidade a qualquer custo e, verdade seja dita, a qualidade das roupas está muito boa. Mas cada coleção parece gritar: “Compre-me, quero ganhar dinheiro e viver bem!” Tanto que alguns desfiles foram explícitos, como o do polonês Arkadius, do americano Scott Henshall e de Russel Sage.
Arkadius chamou sua coleção de Prostitution, num protesto contra a necessidade da moda jovem e inglesa ser criativa. “Fiz muito sucesso na mídia com minhas 1ªs coleções mas não vendi uma peça”, disse ao Estado. “Agora quero ser comercial sim, mesmo que isso seja visto como uma prostituição do meu trabalho”. Arkadius apresentou ótimos suéteres de cashmere, com decote assimétrico, usados com risca de giz em recortes geométricos. Russel Sage, que redesenha roupas garimpadas em brechós, fez sucesso como o bolero recoberto por notas de dinheiro, questionando se uma roupa pode valer de fato 6 mil libras esterlinas (cerca de R$ 18 mil). Já o americano Scott Henshall, de 25 anos, que trabalha também como diretor criativo da tradicional Mulberry, estampou símbolos do dólar em camisetas, e brincou com a palavra “sale” (liquidação) em vermelho.
Talvez o trauma maior desta London Fashion Week tenha sido a ausência do cipriota Hussein Chalayan, um dos pilares da moda britânica. Nas últimas temporadas, Chalayan brindou os fashionistas com grandes “fashion moments” mas agora, falido, deixou todo mundo no vácuo.
Alexander McQueen, o maior e mais rebelde filho pródigo, destilou toda a maldade que uma criança é capaz em seu desfile intitulado Merry-Go-Round (Carrossel), provavelmente o último que realiza em Londres – McQueen acaba de vender 51% de sua marca para o grupo Gucci, forçando assim a ruptura de seu contrato com a Givenchy, do grupo arqui-rival LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy), que termina em outubro depois de 4 anos in house; portanto seu desfile deve ser transferido para Milão, enfraquecendo ainda mais a London Fashion Week. Além disso, McQueen ganhou pela 3ª vez o prêmio de estilista do ano, prêmio que lhe foi entregue pelo príncipe Charles na noite do Rover British Fashion Award.
O desfile parece ter exorcizado os pesadelos do chamado “enfant terrible” McQueen nesses últimos meses de negociações, misturando em seu carrossel personagens sinistros do imaginário infantil como palhaços de cara triste, ursinhos de pelúcia monstruosos e esqueletos dourados, muito mais para o mundo de Chucky do que para conto de fadas. Aos 31 anos, McQueen já deixou claro quais são suas assinaturas no mundo da moda: alfaiataria impecável (agora com forte apelo militar – com direito à caveirinha no quepe oficial -, ou numa releitura black-tie dos smokings femininos), calças de cintura mais do que baixa, vestidos ultrafemininos de jérsei de seda, cetim ou de couro recortado como renda e, agora, muita pena de pavão. Na 1ª fila, um espectador muito atento: Domenico de Sole, presidente do grupo Gucci, que já tem planos para abrir lojas McQueen nas principais capitais do mundo (hoje há apenas uma em Londres).
Julien McDonald, que apresenta um desfile em SP no mês de maio, e Clements Ribeiro, do casal anglo-brasileiro Suzanne Clements e Inácio Ribeiro, eram os nomes que concorriam com McQueen ao prêmio de melhor estilista do ano. Julien, de 28 anos, é uma espécie de novo Versace, afeito ao mundo de luxo e glamour, da mulher muito mas muito rica mesmo, com intrincados bordados, vestidos de cetim com recorte de maiô engana-papai e muito casaco de pele, com toque de El Matador. Clements Ribeiro sabe sintetizar as tendências que devem se firmar na próxima estação. Em seu desfile é possível ver microcoleções inspiradas basicamente nos anos 80 e no militarismo, ilustrando as várias fases de estilo do ícone David Bowie. Destaque para os sapatos e acessórios feitos em couro de porco com efeito de vidro.
Matthew Williamson aplicou sua leveza colorida e feminina ao mundo de “Alice no País das Maravilhas“, mas ao contrário de McQueen, o clima era light, longe da máxima “cortem-lhe a cabeça”. Flores de couro ou feitas com cartas de baralho salpicam roupas de crochê ou de renda, fios de pérola colorida criam listras sobre a blusa preta. Já o alemão Markus Lupfer mostra uma coleção mais racional em sala montada num campo de críquete – esporte que os ingleses adoram. Lupfer domina o tricô e a mistura de cores fortes, com muito amarelo e vermelho.
De toda esta nova geração, o desfile que vai ficar mesmo na memória é o de Sophia Kokosalaki. Grega, ela vai fundo em suas raízes e apresenta desde a temporada passada um trabalho primoroso de drapeado tornando contemporâneo o estilo das túnicas gregas da Antiguidade. Surpreende o jogo de dobraduras em sensuais vestidos de jérsei vinho, em faixas militares que se cruzam pelo corpo ou em preto gótico. Até a alfaiataria de Kokosalaki é fresh: o tailleur vem com bolso canguru e a pureza da camisa branca é quebrada por retalhos de tule. Kokosalaki é um nome pra ser seguido de perto.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
Desfiles masculinos encerram o SPFW Outono-Inverno 2001
O lançamento das coleções masculinas para o outono-inverno 2001 encerrou a São Paulo Fashion Week, segunda-feira, no prédio da Bienal. As gravatas estreitas são o novo statement para os homens, não importa se seu perfil é de estudante, caubói ou executivo. O evento, antes chamado de MorumbiFashion Brasil, reuniu 24 desfiles durante seis dias, e recebeu em média 10 mil pessoas por dia, segundo os organizadores.
Quatro grifes apresentaram separadamente seu masculino: Alexandre Herchcovitch, Fause Haten, Ellus e Ricardo Almeida. Mas já é hora de outras aderirem, como Forum e Zoomp, endossando o projeto de Paulo Borges de ter mais desfiles a cada temporada, até chegar a 50 em 2004.
Alexandre Herchcovitch abusa do pink mais fluo num casting andrógino, de meninos maquiados e bem penteados. Ele subverte a imagem de caubói – referência desta coleção – e cria o anti-caubói, o caubói pink, que não abre mão dessa cor nem nas botas western.
Alguns vêm com saia no jeans vichy sobre calça de vinil preto e camiseta de tela preta sobreposta à de malha branca. O blazer (de cetim pink ou de jacquard de bolas) tem ombreira marcada, mas a peça preferida aqui é a jaqueta. A calça seca pode ser de adamascado preto ou de jeans com bordado floral na lateral.
Enquanto o homem Herchcovitch é gêmeo da mulher Herchcovitch, o de Fause Haten é bem mais jovem do que sua mulher. Um homem que se veste para a noite e gosta de chamar atenção. É assim que Fause define sua coleção masculina. As cores são exuberantes (vermelho, roxo, verde), o cinto tem fivela oval toda de cristais. Cristais grandes formam a faixa lateral dos joggings e retângulos de paetês estampam a barra das calças. Camisetas de cores diferentes vêm sobrepostas com apenas uma manga arregaçada. Bom o jeans manchado e respingado de dourado com barra cortada. Fause não perde a oportunidade de bordar sua nova logomarca (um H com F invertido) em jeans e camisetas. Ternos monocromáticos vêm com sapatos coloridos, de estampa floral tipo Liberty. O homem Fause quer se divertir e não está nem aí para a opinião alheia.
O desfile masculino da Ellus foi muito mais acertado do que o feminino. O clima de colégio americano, numa coleção bem preppy, foi literalmente cercado por telas de arame de quadras de esporte. Pedro Falcão, novo garoto-propaganda da marca, entra jogando basquete. A partir daí a coleção traz todos os elementos do uniforme desse estudante, dos cangurus de moletom aos pulôvers de lã. Até o terno é cinza-escola com pulôver marinho sobre camisa branca com gravatinha. As camisetas com “University Ellus” e números também fazem parte da rotina, até mesmo em versão metalizada. O tartan em preto/vermelho/amarelo aparece em calças e bermudas combinadas com a boina.
2 pontos altos são garantidos pelos jeans: a versão black com pesponto vermelho ou em estilo alfaiate, com bolso faca na frente. Esse último vem com jaquetinha igual, camisa branca e gravatinha, quando todos entram comemorando o final, numa farra tipo festa de formatura.
Para compensar a overdose de celebridades na passarela da estação passada, Ricardo Almeida radicalizou: cobriu de preto o rosto dos modelos colocando na passarela o prezado cliente anônimo. Ótima idéia. Mas fora isso, tudo era meio difícil: a luz intermitente, as bainha curtas descombinadas com a meia e o sapato, a cartela de cores (marrons e verde-azeitona), a mistura de padrões entre o paletó e a calça, como listras e xadrez por exemplo. O resultado foi um cruzamento de “O Máscara” com Mário Fofoca (personagem interpretado por Luís Gustavo em novela da Globo).
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)
SPFW Outono-Inverno 2001
O último dia de coleção feminina da São Paulo Fashion Week, domingo no prédio da Bienal, teve a estréia das marcas Carlota Joaquina e Trosman Churba, ao lado da apresentação concisa e consistente de Walter Rodrigues e dos fofos bebês crescidos de Marcelo Sommer.
O inverno de Walter Rodrigues é calcado na alfaiataria masculina a quem ele empresta elementos marcantes de sua trajetória, como a influência japonesa nas mangas e nos volumes das costas - apesar de o release alegar que a inspiração é peruana. Predomina o preto riscado de branco, com flashes de limão, pele e cinza. Para quebrar a suposta austeridade dos novos ternos, Rodrigues usa camisetas tatuadas, que tem versão glam salpicada de cristais, e aposta em broches femininos.
Saias rodadas, bem anos 50, vêm em risca de giz ou espinha-de-peixe sobre camadas de tule limão. A camisa, também preta, tem bordado de flores na pala – aqui um crossover do desejo de Peru do estilista com a demanda western da temporada. Bom o total look listrado em preto-e-branco.
Carlota Joaquina, desenhada por Carla Fincato, é a marca jovem da G de Gloria Coelho. Sua 1ª coleção na SPFW é urbana, moderna e conectada com o que está acontecendo no mundo. Tem como pano de fundo o personagem do livro “O Pequeno Príncipe“, com sua echarpe comprida e as estrelinhas do céu. Um telão projeta becos grafitados no bairro de Pinheiros, em SP, em textura granulada. No chão, faixas de trânsito desordenadas se cruzam obrigando os modelos a andarem num zigue-zague maluco.
A melhor estampa é justamente a de um muro pichado, criada pelo famoso grafiteiro Speto, seja em calças jeans ou em camisetas básicas que ganham personalidade quando cortam uma manga e fazem franzir o ombro com uma argola de verniz. Franjas e tranças de malha também pontuam camisetas e vestidos, como os justinhos do final, construídos em tiras tipo bandagem. Os acessórios são um capítulo à parte: “sticker” de verniz preto faz a maquiagem dos olhos ou vira tatuagem nos pés, e tornozeleiras e braceletes vêm aos pares, à la Diana Vreeland.
Sommer fez um ótimo trabalho ao transpor o mundo dos bebês para o mundo da moda, numa coleção muito fofa. O melhor resultado ficou com o redesign das calças Levi’s, da linha Engineered, que ganham botões e pespontos coloridos (pink, laranja, vermelho, turquesa) em recortes que mimetizam o abotoamento dos macacões Tip-top. O outro jeans traz trevos em jacquard.
Cada detalhe infantil é aproveitado pelo estilista. A trilha mistura Laurie Anderson com historinhas de fábulas (de discos originais de Mari Stockler, que assina a direção artística). O cobertor de berço estampado vira mantô, o lençol vira camisa com golinha redonda. Irônica, a legging de Sommer é de tricô de lã e já vem com pezinho. De repente, entra uma enorme fralda-saia e no final a gente vê que o bebê cresceu e a mãe esqueceu de lhe dar uma calça nova, do tamanho de sua perna.
Jessica Trosman e Martin Churba são 2 estilistas argentinos que estão juntos há 4 anos e pela primeira vez fazem desfile no Brasil – o mesmo que farão na temporada de NY, onde já vendem suas peças na Barney’s e na Hedra Prue, em Nolita: “A 1ª é uma meca da moda e a 2ª é superalternativa. Aqui pretendemos conquistar espaços como a Daslu, o MorumbiShopping e o Mercado Mundo Mix“, afirma Churba.
O melhor são as composições de faixas com xadrez, como a da saia de seda com top tartan bordado na frente – tudo em preto, branco e vermelho. Os plissados soltos recebem tecidos prensados e até o bordado de bolinhas depois é repintado por cima. Mas a estréia foi sofrível, prejudicada principalmente pela edição. 15 looks a menos (como o horrendo tomara-que-caia plissado) e teria ficado um boa impressão, uma vez que há uma cuidadosa e elaborada pesquisa de materiais no trabalho desta dupla que forma a grife Trosman Churba.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)
SPFW Outono-Inverno 2001
Entre o assédio às celebridades e os indefectíveis atrasos, os desfiles do segundo dia da SPFW mostraram como as grifes brasileiras estão evoluindo para um patamar cada vez melhor. Teve Thiago Lacerda, Letícia Spiller, Marcelinho Carioca, Mariana Ximenez, Luiza Brunet, Bruna Lombardi, Adriane Galisteu. Mas nada disso roubou a cena principal, da moda na passarela. Os desfiles das coleções femininas para o outono-inverno 2001 terminam amanhã, no prédio da Bienal, e segunda acontecem os desfiles das coleções masculinas, encerrando o evento que é aberto apenas para convidados.
A estréia do mineiro Ronaldo Fraga na SPFW veio com a autenticidade que caracteriza a carreira do estilista, que está em sua 11ª coleção. Fraga é o nosso Hussein Chalayan: apresentações teatrais sustentam seu trabalho autoral mas falta um back-up financeiro para impulsionar sua marca. Como todo mineiro, ele sabe contar uma boa história. E a camisa branca perfurada por um tiro certeiro que faz o sangue escorrer é momento de pura emoção para o dramático desfecho de sua história.
Os modelos saem do muro das lamentações para a passarela do milagre dos pães. A cristã Rute usa vestidos pretos pela canela e seu amor, o judeu ortodoxo Salomão, vem com camisa cru franjada na barra (os fios tricotados pelos judeus nos porões do navios criaram o chamado “bordado de abrolhos“, ou seja, o bordado do sofrimento e das dificuldades) sob veste e calça preta curta. Camisas femininas de algodão, decotadas de gola redonda, vêm com nervuras ou estampa de pães e de tiros. O preto e o cru vão se encontrando em listras, dublagens, chevrons e estampas de nomes. “Para mim, o tecido é como a fala e a estampa é a escrita”, diz Fraga.
Com trilha de música ídiche mesclada à orquestra dos anos 30/40, a cartela vai acrescentando tons de marrom e verde. Esta contrição cromática parece o oposto de sua colorida coleção de verão. “É como se eu quisesse ir direto ao assunto”, diz. E assim foi a estréia de Fraga na SPFW.
Com styling de Carine Roitfeld, uma das mais influentes da moda internacional, a Zoomp soube impor a tão procurada “nova sensualidade”, marcando seu look com cabelos crespos e mais curtos. Joggings esportivos – com elástico no tornozelo e malha-punho nas jaquetas – se transformam em roupas de noite, em versão de cetim preto ou de látex pele. A alfaiataria é um ponto alto, seja no robe-mantô, na veste sem acabamento ou nos terninhos de couro. Dos novos jeans da coleção, como a versão anarruga, o mais incrível é o mesclado a fios de lurex com acabamento rústico, além do jeans com paetê e do paetê-jeans.
Os novos patchworks da estação têm na Zoomp um modelo exemplar, como o da saia curta construída em faixas de jeans, paetê, pelúcia e outros materiais. A renda marinho ou preta seduz com sua transparência e com os babados enviesados. A capa de chuva de renda emborrachada promete ser um “must have” da temporada.
A Patachou abriu sua coleção desvendando sua passarela que, em vez de ser plana como qualquer outra, formava duas ondas que ora escondiam ora revelavam seus modelos. Para Terezinha Santos, responsável pela grife, essas ondas refletem “os altos e baixos dos estados de espírito da alma feminina”. Mas enquanto o cenário sugeria essa vulnerabilidade, a coleção mostra uma mulher segura e vigorosa. Pisando firme em botas pretas de bico fino, ela vem com cintos largos marcando a cintura, muito à vontade com o que melhor sabe usar: os tricôs, acompanhados de leggings e pantalonas (peças-tendência).
O destaque no canelado é o mosaico de listras. A atitude sexy fica nos ombros caídos e nos tricôs pretos com decotes assimétricos formado por tiras. Segundo Terezinha, “o melhor dessas peças é que a mobilidade das tiras permite a cada um fazer seu próprio decote”. Grafismos geométricos vêm em preto, marinho e cru.
A Iódice buscou inspiração nas danças de salão e soube dar continuidade à linguagem da última coleção. O ponto alto são as listras (amarelo e pistache, preto e branco) que formam vários grafismos, mudando o efeito conforme a construção da roupa. No feminino, tudo é muito fluido e o vestido é peça-mestra. Bodies de alcinha são a base para vaporosos vestidos de chifom, numa leitura chic das roupas de balé moderno. Alguns looks vêm amparados pela praticidade das carteiras presas na cintura. Fora da dança, a mulher Iódice traz bons tailleurs de couro e jeans agarrado com faixas de lurex. Boas proporções e tecidos fazem a coleção masculina, onde predominam bege, marinho e preto.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)
SPFW Outono-Inverno 2001
A chegada da prefeita Marta Suplicy, que sempre prestigiou os desfiles, deu o tom oficial de abertura da São Paulo Fashion Week, quarta-feira, no pavilhão da Bienal. O primeiro dia já exemplifica uma das fortes tendências para o outono-inverno 2001: novos terninhos e tailleurs. O look que marcou o “power dressing” dos anos 80 chega suavizado ao terceiro milênio e em materiais inusitados como o jeans (Ellus) e o vinil (Alexandre Herchcovitch).
Herchcovitch, aliás, se sobressai não só por seu talento como por ter se apresentado num dia de marcas mais comerciais. Os fotógrafos foram colocados atrás da boca de cena, padronizando as imagens do desfile com uma paisagem ao fundo. A coleção é toda cowboy-glow, misto de Madonna hoje com Comme des Garçons de dois anos atrás. Os vestidos finais são o grande destaque do inverno, misturando drapeados, tecidos, bordados (de linha, cristais e canutilho) e franjas de vinil numa construção sofisticada e exuberante, sempre com meia-calça sob meia soquete coloridas.
Os paetês refletivos redondos deste verão – que mereceram citação na “Vogue” América como revolução tecnológica – ganham versão folha, em efeito cascata, em doce verde-grama ou em prata furta-cor. Mas abusado mesmo são os intensos tons de pink, que vêm em mantô de lã, na camisa de tricoline com seda ou nas saias de jacquard. Os terninhos tem variações do tailleur Chanel (veste com decote careca, saia levemente evasê com aplicações de flor refletiva) à jaquetas western e casaquinhas que já vêm com colete, passando pelas versões no suave jeans tramado em vichy. As golas sob as vestes são imponentes mas não são golas. São lencinhos que se afivelam no pescoço e dão um efeito incrível.
A Ellus, que já havia lançado sua pré-coleção em novembro, pretendia um desdobramento de School Girl para School Glam. Mas o desfile teve poucos momentos tanto de uma quanto de outra, ressaltando mais uma garota debochada que brinca de luxo com tailleur – desde que seja de jeans. Os paletós revezaram com as jaquetas perfecto, aviador e de marinheiro. Os destaques são os modelos com plissado nas costas e os trench-coats de jeans – talvez a peça que faltava para nossa insaciável vontade de denim.
Microshorts e minissaias de jeans vêm com camisa e gravata, enquanto as peças de jérsei preferem fluidez e inscrições metalizadas – seja com afiados poemas do multimídia Arnaldo Antunes, que assistia tudo na platéia, ou com o nome da marca. Mais uma vez, a meia-calça é colorida, tão colorida quanto os tons da coleção: roxo, vermelho, verde-bandeira e preto.
Faltou alguém avisar a Carlos Miele, da M. Officer, que estamos nos lançamentos de inverno. Apesar dos apelos explícitos, com mãe-de-santo e seu séquito na passarela, imagens de orixás e música da candomblé comandada ao vivo por Carlinhos Brown, a coleção deixou todo mundo com cara de interrogação. Por mais que a marca persiga uma imagem de sensualidade, é preciso ter mais coerência com as estações climáticas.
Sai verão, entra inverno, e estão lá, firmes, as frente-únicas e os tomara-que-caia. Os materiais são sempre bacanas, como o couro preto picotado a laser (que forma uma renda), o couro vinho com acabamento stretch, o crochê azulão com aros pendurados, o jeans com frufru e a malha de alumínio em degradê (azul ou vinho). Ah sim, e havia um único e bom casaco de gabardine cru. Mas isso só ainda não basta.
A Equilíbrio partiu de peças clássicas da moda para criar seu inverno 2001. Urban-chic, ela aposta em terninhos, saias evasês e mantôzinhos com novas texturas como a estampa de paetês texturizados ou foscos, formando um camuflado. O tom militar aparece também nos casacos 7/8 e jaquetas, assim como nos acessórios (cintos, pulseiras e bolsas de carteiro), que estarão à venda na loja. “A nossa cliente reclama se não estiver absolutamente tudo a seu alcance”, diz Márcia Gimenez. O contraste leve/pesado ficou na mistura de peças de tricô, couro, seda, lã e georgete, em tons de marinho, preto, roxo, vinho, amarelo e bronze.
Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo
(Colaborou Emanuela Carvalho)



