29.06.2001 às 5:25

SPFW Primavera-Verão 2001/02

Hoje e amanhã teremos 8 desfiles para o verão 2002 na São Paulo Fashion Week que acontece na Fundação Bienal até terça-feira, dia que terá a moda praia para a conclusão da temporada. O 1º dia de coleções femininas começou com a calmaria da Equilíbrio, com sua silhueta leve em chifom arrematado por detalhes de frufru, costurado à peça ou caindo solto e esvoaçante.

A Ellus é quem traduz melhor o lado mais trendy da moda hoje. Mistura de Christian Dior com Imitation of Christ (a performance da grife americana pode ser vista até amanhã no Carlton Arts), ela pontua a coleção com peças garimpadas em brechós americanos e customizadas por sua equipe de estilo, formada em grande parte por talentos saídos da Faculdade Santa Marcelina. “São praticamente peças únicas, que estarão à venda apenas na loja da rua Oscar Freire”, avisa Nelson Alvarenga, que comemora 30 anos de Ellus em 2002.

O bom humor começa pelo convite: um sapato caindo do pé – referência ao desfile de inverno que foi um festival de sapatos caindo na passarela. Depois do furor provocado pela presença de Rodrigo Santoro na platéia, o desfile começa com as meninas de calcinha e sutiã dando risada num vestiário. Dali, elas saem livres e ingênuas prontas para brincar e realizar seus sonhos. Essas bonecas adoram tule em microssaias de babados, em blusas franzidas ou em manguinhas bufantes, com muito branco, rosa, laranja e azul. Elas misturam camisas militares com renda e brincam de pintar a perna igual à meia listrada que usam com o sapato de salto baixo ou stiletto (ufa, desta vez todos os sapatos entraram e saíram devidamente calçados). Os acessórios são importantes: dos brincos de fitas coloridas de 1m de comprimento às faixas de smoking e aos papagaios de paetê.

Alvarenga agora quer capitalizar e exportar a imagem da marca como bom fabricante de jeans e anuncia isso até nas estampas com “ellusjeansdeluxe”. O jeans em si vem escuro ou com faixas tão lavadas que ficam quase brancas. A jaquetinha de manga 7/8, a legging e a calcinha são hits. No final, acredite, aquela menina tão livre e desencanada mostra que seus sonhos são os mesmos da vovozinha: casar e ser feliz. Só que seu vestido de noiva é customizado, influenciado por Courtney Love, Madonna e Cindy Lauper. Ela descobre uma saiona de tule no baú e a veste com a calcinha e a jaqueta jeans que tinha no armário.

A M. Officer armou um cenário incrível com elementos de uma aldeia indígena. Do chão de palha, saíram os músicos do grupo de Marlui Miranda, que cantou ao vivo mantras tribais que ela conhece tão bem. A imagem era linda. Mas é uma imagem roubada, cujo valor e riqueza estética cabem unicamente aos índios que, mais uma vez, foram usados pelo homem branco cheio de “boas intenções”.

Apesar do discurso de Carlos Miele, dono da M. Officer, ser corretíssimo, a prática não se sustenta e não consegue estabelecer a ponte que ele pretendia entre a cultura indígena e a européia. Pelo contrário, só evidencia a distância e as diferenças entre as duas. Até a senhora de 91 anos, de origem indígena e avó de Suyane (a garota-propaganda da marca), ficou ali deslocada, com seu próprio vestido de domingo, sentada como um adereço na frente do pit dos fotógrafos. E a coleção em si não tinha nenhum link com a cultura indígena explorada em cena. As roupas eram o clássico da M. Officer, agora mais bem-acabadas: sensuais vestidos assimétricos de costas nuas em tecidos de última geração como o couro stretch (agora em versão avestruz), o couro-rendado a laser e a malha metálica, e também as rendas rebordadas. Tops-corset estruturam a silhueta.

Os convidados da G tinham que vestir capas pretas, como as de barbeiro, para entrar no desfile, o que causou bastante tumulto e ficou sem sentido no contexto do desfile – todos saíram se perguntando qual era a função da platéia uniformizada. Na passarela, os looks vieram numa harmônica e forte composição de camadas históricas. A base é uma segunda pele com estampa cibernética. Depois vêm os volumes fartamente franzidos do século 19 em tecidos nobres como o georgete. E por último os acessórios de origem punk dos anos 70, em cintos e faixas arrematados com peças de metal como colchetes, tachas e botões. O efeito é muito contemporâneo, arrematado por minimochilas de neoprene.

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@ No urucum – A fórmula da pintura indígena vermelha do desfile da M. Officer pode ser encontrada em qualquer loja de produtos de beleza. Trata-se de um bom pancake vermelho.

@ Carioca-belga – Com o novo padrao de beleza, quem está com a bola toda é a carioca Mayana, 18 anos, que acaba de chegar da temporada de desfiles internacionais e vai aparecer em 18 desfiles da SPFW. Descoberta por Serginho Mattos, da Mega, ela nem desfilou na última temporada daqui, mas já fazia sucesso com seu estilo punk-rock nos tops customizados por ela – os mesmos que Carolina Dickmann usou para as fotos da revista “VIP“. Apadrinhada por Mario Testino, ela acaba de fazer a campanha da Chanel com Karl Lagerfeld e a de Salvatore Ferragamo com o próprio Testino, além de ser um dos destaques da edição brasileira da revista “V“.

@ Quem abriu a coleção feminina da Ellus, inspirada numa ninfeta sonhando uma vida de mulher, foi Cintia Dicker, com apenas 14 anos. Ela é a garota da campanha da Melissa e da do último inverno da G. Até hoje só fez
editorial para as revistas “Mundo Mix” e “Querida” e confessa que gelou na hora de ser a primeira a entrar: “Gelei e minha perna tremeu, mas só antes da passarela. Depois passou, acho que os 10 pai-nosso que rezei ajudou”. Ela
é da Marilyn.

@ A coleção de Carlota Joaquina para o verão 2001/02 que tem o alvo como símbolo, é inspirada na artista plástica japonesa Yayoi Kusama, aquela que faz instalações com bolas, bolas e mais bolas. Portanto podemos esperar muito grafismo e o universo de bolas da artista que acaba de expôr em Paris na casa do Japão. Lembra da estrela do inverno? Agora serão bolas.

@ Alguns assesssores de imprensa ainda não acertaram na hora de sentar as pessoas. Mapas confusos que muitas vezes não batem com os cartões magnéticos, sentam você e depois pedem para você sair e trocar de lugar, num evento para convidados, onde a grande maioria está trabalhando. Quem não teve paciência num troca-troca desses foi Marcelo Sommer, que no desfile da Ellus, depois de sair da primeira fila, não conseguir sentar no chão e ser mandado lá para trás, simplesmente pegou sua turma e foi embora.

@ E comprador internacional também briga por lugar bom. Os compradores da inglesa Kokonto Zai, das lojas de Paris e de Londres (Robin Schulié e Liliana Sanguino, respectivamente), da Onward, em Paris (Pascal Reveau) e da L’eclaireur também em Paris (Alix Maia), ficaram surpresos com a fileira F para o desfile de Carlota Joaquina. Aborrecidos, ponderavam se valeria a pena ir: “Para comprar, tem que olhar”, um deles reclamou.

@ A Anhembi Morumbi tem sido mais uma peça nessa engrenagem que está fazendo a moda brasileira crescer. Além dos cursos de moda já programados, algumas novidades estão aparecendo por aqui. Um dos cursos de setembro é de visual merchandising, tema que merece 4 anos de faculdade na América, como na FIT (Fashion Institute of Technology), por exemplo. o assunto é antigo para sociedades mais desenvolvidas e visuais, novo aqui onde a cultura de moda ainda está começando. Por isso, a faculdade montou uma aula aberta e gratuita para apresentar a aula, explicar melhor mais essa vertente do mercado. Essa aula será no dia 9/08, às 9h da manhã.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

28.06.2001 às 6:33

SPFW Primavera-Verão 2001/02

Ao contrário das dez temporadas anteriores, a São Paulo Fashion Week abriu os lançamentos para primavera-verão 2001/2002 com o desfile das coleções masculinas. O dia masculino foi cool, sem o frisson histérico de outras vezes, quando o evento mais parecia um poleiro de celebridades do que uma passarela de moda. Sim, o star system faz parte do negócio, mas ele não pode tirar o foco do principal, que é a roupa! É claro que precisamos de estrelas, e elas estavam lá: Gugu Liberato e Raul Cortez, por exemplo, assistiram ao desfile de Ricardo Almeida.

Alexandre Herchcovitch abriu a temporada com a coleção mais “realista” do dia. Mostrou a roupa que a gente vê de fato nas ruas, com o twist que sua criatividade sabe explorar numa cartela de cores concisa e forte (amarelo, magenta, verde-água, marinho e branco). Foi um respiro depois do excesso country-punk da coleção de inverno. Patrocinado por uma marca de celular, ele colocou todos os modelos usando um fone de ouvido conectado a este novo aparelho que vem com rádio. Tudo é bem urbano, em formas amplas e confortáveis, que podem ser “ajustadas” por tiras de elástico – as mesmas que arrematam sua nova linha de underwear masculino produzida pela Zorba. As tiras punk-utilitárias podem ser no mais castiço branco e brincam de suspensório, colete e tapa-sexo.

O cabelo ondulado e a trilha foram homenagem a Joey Ramone, dos Ramones, morto recentemente. No meio do look andrógino, Herchcovitch soltou três meninas (entre elas Cristine Fontanari) mostrando que entre os jovens tanto faz se a roupa é masculina ou feminina. O que eles querem mesmo é camiseta e calça jeans. O jeans, aliás, evolui em novas padronagens. O vichy vem menorzinho e o jeans pode formar faixas laterais ou quadradinhos, brincando de negativo-positivo. Na alfaiataria, jaquetas de tecido tipo papel, que vai amassando conforme o uso.

As camisas de cambraia de Fause Haten também vieram amassadas. Antes de vesti-las, o estilista as deixou bem enroladas para dar o efeito desejado. “Depois de uma entrevista que eu dei para o programa ‘GNT Fashion‘, sobre tecidos que dispensam o ferro elétrico para colaborar com o apagão, resolvi amassar toda a coleção”, disse Haten. O surfista chic de Haten desfila ao som de um quarteto de cordas e transpõe sua estampa de hibiscos do dia-a-dia para a noite, em bordados de vidrilho branco sobre branco. Também à noite, esse surfista troca suas camisetas de nuvens por calças com faixa de smoking de couro. Tudo com sandália havaiana e colares de orquídea natural. Boas as listras-pijama, em branco, vermelho e azul.

Ricardo Almeida, que está na SPFW desde o início, quando era o único a desfilar coleção masculina, trouxe uma silhueta sequinha, bem mod inglês, para uma passarela em preto e branco, que são suas cores preferidas para o verão. Ele inventa novas riscas-de-giz em deliciosa lã tropical e até seus ternos são para homens sarados, com medidas de modelo. As listras são um ponto alto da coleção, em versão azul/cáqui sobre branco ou vermelho/cinza sobre branco. Ótimas as jaquetas básicas de couro.

Enquanto Ricardo é veterano no evento, Mario Queiroz fez uma boa estréia depois de ter participado do Phytoervas e da Semana de Moda Casa de Criadores. Sua coleção brada a vida nos mares e o deus Netuno, em imagem criada por ele. Seu homem mistura elementos dos surfistas e dos marinheiros, no dia e na noite. Influenciado pela viagem que fez à Lisboa, Queiroz cria barrados inspirados nos azulejos portugueses, seja em estampas ou em bordados de linha ou vidrilho.

Coube a Ellus o título de desfile mais animado e bem editado da estação passada. O desfile era uma festa de formatura. Agora, esses rapazes estão de férias e resolveram andar pelo mundo, com escala certa em portos badalados e no Havaí, é claro. Aqui também os marinheiros são o ideal masculino e é de seus uniformes que saem as roupas da temporada: abotoamento, golas e listras de marinheiro (em versão paetada para a noite), além das insígnias da Marinha (onde aparece mais claro o espírito customizado, de roupa reciclada, da coleção), compõem o guarda-roupa do homem Ellus.

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Maracatu fashion – A bandana que vem com o convite da Blue Man tem estampa de maracatu que o estilista David Azulay descobriu vendo uma matéria sobre Ariano Suassuna.

Day off – A top Caroline Ribeiro embarcou ontem à noite para NY. Passa o dia de hoje fotografando para a “Vogue” América e já desembarca de novo na SP Fashion Week amanhã. Vai desfilar para Ronaldo Fraga, Fause Haten e Forum.

Exportação – Os compradores internacionais que acompanham a SPFW preferiram o desfile de Fause Haten entre as coleções masculinas que abriram o evento. Segundo Alik Maia, da loja francesa L’Eclaireur, “os outros estavam muito simples”. “Ele soube brincar com o estereótipo do surfista”, disse Liliana Sanguino, da Kokonto Zai de Londres.

Jeans na Oca – Hoje à noite, na Oca do Ibirapuera, tem performance dirigida por José Possi Neto, com cenografia de Felipe Crescenti. Várias marcas fazem uma releitura da história do jeans. O tema é Blue Night.

Vai ser boa – Entre as marcas que preferiram música ao vivo nesta temporada, a Forum coloca amanhã Cláudio Zoli para tocar no desfile. Conforme indica o refrão impresso no convite, “a noite vai ser boa, de tudo vai rolar…”

Jóias novas – Primeiro foi Alexandre Herchcovitch. Depois Fause Haten. Agora é a vez de Ricardo Almeida lançar uma linha de jóias, que ele chama de acessórios masculinos. Há três peças de ouro-amarelo: uma abotoadura-palito, um anel duplo para segurar o nó da gravata e uma leve gargantilha.

Boliche e tênisMarcelo Sommer lança com a Le Coq Sportif um modelo de tênis inspirado no boliche e outro com versão chinelo (aberto no calcanhar). Já a Diadora, parceira do nosso campeão Guga, faz para a Cavalera uma versão fashion de tênis para tênis. Em ambos os modelos, o prata dá o tom.

London, London – Antes de sair de férias para a Inglaterra e Espanha, a apresentadora Fernanda Lima foi conferir a temporada de verão 2002. Assistiu apenas o desfile de Ricardo Almeida.

Mesa-redonda – Amanhã, às 11h, a Amni pretende reunir representantes das principais semanas de moda do mundo (Nova York, Londres, Milão e Paris) para debater os calendários de lançamento e seu impacto no varejo. A coordenação é de Paulo Borges, da SPFW.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

26.06.2001 às 5:40

Ocimar Versolato na Casa de Criadores

Entre sábado e segunda no Estádio do Pacaembu, 13 desfiles primavera-verão 2001/2002 marcaram a nova fase da Semana de Moda – Casa de Criadores, que passa a lançar as coleções de jovens estilistas antes da São Paulo Fashion Week. Com a antecipação, os novos estilistas têm mais chance de comercializar seus modelos e de se viabilizar como negócio já que no início da temporada o budget dos compradores ainda não está comprometido com as marcas maiores. Até os novíssimos do projeto Lab, que se apresentaram na sexta, passam a ter mais chance no mercado – aliás, eles merecem.

A participação de um estilista veterano como Ocimar Versolato, que foi o 1º brasileiro a participar do calendário de moda de Paris e agora voltou a morar no Brasil, deu o que falar. No 1º dia, falar mal, já que o estilista começou o desfile da linha O. V., de jeanswear, com 3 horas de atraso e uma coleção instável, com entradas de gosto duvidoso. No último dia, falar bem, pois foi a vez de Ocimar mostrar sua coleção couture, com o trabalho de tecidos fluidos que ele sabe construir tão bem, como o vestido estruturado em formas de losango. Suas 30 roupas de festa vieram basicamente em preto, em organza, chifom e cetim, assimétricos e esvoaçantes. Um quadrado vazado de ouro foi o link para juntar tecidos diferentes na mesma peça e também as 2 coleções. Na O . V., o quadrado arremata bolsos-cargo das calças jeans, que vêm em cores novas como marrom e furta-cor. A proposta de jeans de cintura alta vazada no quadril, que insiste em revelar as estrias até dos modelos, não funciona nem estética nem estruturalmente. Na O . V., Ocimar se sai bem quando trabalha cores suaves e tops de malhas leves, como o usado por Mariana Weickert. Mas esqueça os homens. Eles parecem bofinhos nouveau riche sem classe.

Apesar de ter se prejudicado com o atraso de Ocimar no sábado, Mareu Nitschke conseguiu arrancar aplausos da platéia à meia-noite. Sua mulher é uma guerreira de sonho, fetichista light. Vestidos em camadas de musseline branca, com franzidos estratégicos, são mapeados por grandes argolas de metal e cristais. Acessórios de inspiração sadomasô trocam o couro pela madeira e ganham outro look. O streetwear entra no clima de alta-costura nos jeans desbotados e corselets.

Lorenzo Merlino, que nas últimas temporadas fazia desfile independente, fez uma ótima rentrée na Semana. A coleção está mais feminina, a silhueta é seca e tudo é bem curtinho: as saias, os macaquinhos, os shorts e até os blazers, que viram minivestidos. Imagens figurativas saem do universo de Elsa Schiaparelli (grande nome da moda, principalmente nos anos 30) para se transformarem em bordados e estampas, como o sol e os insetos. Bom o trompe l’oeil da saia de cintura baixa sobre body com cinto alto.

A grande revelação é o jovem Eduardo Inagaki, de 22 anos, formado pela Santa Marcelina e ex-assistente de Walter Rodrigues. Inagaki também buscou inspiração em Schiaparelli. Fez mãozinhas de acrílico divertidas interferindo na roupa e uma de suas melhores estampas é a versão gestáltica de seu signo, Gêmeos. Suas formas são volumosas e não economizam tecido (apesar de ele não ter nenhum patrocinador ainda) em franzidos fartos.

Jotta Sybbalena cresce nesta estação. As referências heavy metal continuam (as estampas de bandas como Iron Maiden, por exemplo), mas ele tirou um peso de sua coleção, dando aos modelos mais frescor e alegria de viver. Tudo está mais suave e com acabamento melhor: das roupas de couro até as labaredas, que são sua marca registrada, passando pelos tops de pluminha. Os sapatos mantêm o estilo Jotta mas passam a ter cara de sapatos feitos para andar e não só para serem vistos.

Inspirado no projeto “Êxodos”, do fotógrafo Sebastião Salgado, Jum Nakao transforma seus modelos em andarilhos chics de atitude quase protestante. O desfile começa com marrom e rosa, passa pelo preto avermelhado e chega ao que ele chama de “pureza do branco”. Com camisaria e alfaiataria impecáveis (como os blazers-cartucheira, vazados), em bom padrão risca de giz, Jum traz um coleção consistente, comercial e conceitualmente.

Gisele Nasser foi outro destaque. Marlene Dietrich no filme “Expresso de Shangai” é sua musa inspiradora, o que se traduz em tops transpassados, como o das chinesas, de recortes circulares com acabamento em rolotê. A forma se desdobra e chega ao Ocidente, em versão século 21, no top de tiras onduladas usado sobre body preto, com calça comprida, sempre evidenciando a cintura. Maruzia Fernandes leva nosso olhar para o oceano e seus habitantes. Dentro desse universo, ela cria estampas, texturas e efeitos holográficos que remetem a escamas, espinhas de peixe e ondas do mar. Sua mulher brinca de sereia, sensual e longilínea, em tons de azul, verde, vermelho e prata – como suas jóias. Marcelo Quadros veio com modelos para moças debutantes que começam a freqüentar jantares e coquetéis. Elegeu o rosa e o vermelho para seus vestidos de seda e cetim. Já a Viva La Raza, de Fernando Sommer, passeia com seu espírito étnico pelo Mongólia e pela Índia.

Apenas 2 estilistas se concentram em coleções masculinas e ambos se saem muito bem. Rodrigo Fraga, irmão do Ronaldo, bota seus cachorros para fora em mil versões pop de estampas, numa roupa descontraída e bem feita. Já Giuliano Menegazzo troca o streetwear que fazia para a Slam (que ele vendeu) pela alfaiataria de sua nova Giuliano, misturando a rebeldia punk com clássicos colegiais e smokings sofisticados, num mix contemporâneo. Se o sonho de Giuliano é fazer alta-costura masculina, ótimo. O espaço existe e talento, ele tem.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

25.06.2001 às 6:27

Tudo o que vai acontecer no SPFW de primavera-verão 2001/02

A Fundação Bienal, no Ibirapuera, concentra a partir de hoje os lançamentos para primavera-verão 2002. Serão 30 desfiles até dia 3, terça, organizados pela São Paulo Fashion Week. A temporada começa com a apresentação das coleções masculinas a partir das 15h, com desfile de Alexandre Herchcovitch (que lança uma linha de underwear masculina), e termina com as coleções de moda praia, com Gisele Bündchen e Ana Hickmann na passarela da Cia. Marítima. Apesar de começar só hoje o calendário oficial, o mundo da moda não parou na última semana: lançamentos dos jovens estilistas da Semana de Moda, performances e instalações do Carlton Arts e muitas festas, como a de lançamento da incrível coleção de jóias dos irmãos Campana para a H.Stern e a festa da revista “Vogue“, ontem, na Oca do Ibirapuera.

Aos poucos, de fato, a SP Fashion Week vai atraindo os olhos do mundo, mesmo passados a febre e o oba-oba iniciais – sinal de que, além da festa, da sensualidade e da simpatia que os gringos tanto admiram, há conteúdo por aqui. Vamos ter compradores e jornalistas internacionais de peso – entre eles o especialista em história da moda Colin McDowell, autor de vários livros como as biografias de John Galliano e Ralph Lauren e o mais recente “Fashion Today”. Mas desta vez teremos também modelos internacionais. O bom é que elas não vêm como divas absolutas – ainda cabe à Gisele este privilégio, com o cachê devidamente proporcional (US$ 80 mil pelo desfile).

A americana Frankie Ryder desfila ao lado de Gisele para Cia. Marítima. A belga Hanelore, que já foi a garota Prada, cancelou sua vinda no último minuto mas está prometida para a próxima campanha publicitária da Iódice. E suas compatriotas Kim Peers (da campanha YSL Rive Gauche) e Ann Catherine Lacroix (nova contratada da Chanel) também estarão por aqui. Mas nossas estrelas também vão comparecer. Fernanda Tavares vem exclusiva para a Zoomp – que encerra nesta temporada a era Testino em suas campanhas publicitárias. Caroline Ribeiro, talvez a brasileira de maior projeção mundial hoje depois de Gisele, fará vários desfiles e será a musa do estreante André Lima, que é do Pará como ela.

Para fazer um contraponto com as beldades locais, a M. Officer coloca na passarela uma índia de 91 anos, que é avó de Suyane, a garota-propaganda da grife. Intitulado “Peças de Altar”, o desfile terá participação ao vivo da cantora Marlui Miranda. Já o pianista e arranjador Cláudio Dausberg assina a trilha da grife mineira Patachou. A Cavalera, que sai da Semana de Moda para estrear na SPFW, contará evidentemente com Igor Cavalera, da banda Sepultura, em sua trilha.

Nas passarelas, vai predominar o colorido, que é sempre bem-vindo no calor. Com as cores, vêm uma valorização das estampas, geralmente gráficas ou figurativas – como as da Rosa Chá, que trabalham elementos de glamour e sonhos do universo feminino (de jóias e batons até a boneca Barbie). A era eduardiana e o filme “Moulin Rouge”, que estréia no Brasil em agosto, serão influência forte do próximo verão.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo

20.06.2001 às 5:32

O inicío do verão 2002

Os primeiros calores do verão 2002 começam a ser sentidos hoje no desfile de novíssimos talentos dentro do chamado projeto Lab, que vai mostrar as minicoleções de André Camacho, Estúdio MC2 (Christiana Braconnot e Mariana Machado), Karlla Girotto, Marcos Nasci (Superonic), Mg5 (Christophe e Érika Le Roux) e Simone Nunes em uma sala montada nas quadras de tênis do Estádio do Pacaembu. Amanhã, no mesmo local, é a vez da Semana de Moda/Casa dos Criadores reunir até segunda-feira os lançamentos de 13 jovens estilistas, com exceção do veterano Ocimar Versolato – que, quem diria, acabou trocando Paris pela Semana de Moda.

Mas este fim de semana é só aperitivo para o que vem por aí. De quarta-feira, dia 27, até terça-feira, dia 3/07, será realizada a São Paulo Fashion Week, maior evento da moda brasileira, que terá 30 desfiles no Pavilhão da Bienal, no parque do Ibirapuera. Abre o primeiro dia com 5 grifes masculinas, depois vêm as coleções femininas durante 5 dias, até o encerramento do evento com os lançamentos de moda praia e uma festa da edição especial da revista americana “V” sobre o Brasil.

Caio Gobbi e V. Rom ficam de fora nesta temporada dos 2 grandes eventos. Já A Mulher do Padre preferiu apresentar uma instalação na Semana de Moda, em vez de fazer um desfile. Vinicius Campion, seu estilista, está montando cabines com camas para que a gente assista a mais um de seus trash-movies, sempre bem-vindos. Lorenzo Merlino, que desfilava autônomo até a temporada passada, volta a se enquadrar num esquema coletivo, já que a Semana de Moda, em sua 10ª edição, acontece pela 1ª vez antes da Fashion Week. Ou seja, com as novas datas, primeiro se dá vez aos jovens e depois aos estabelecidos (é assim que funciona lá fora). Dos participantes da Semana, vale a pena observar melhor Marúzia Fernandes, Giuliano Menegazzo (que deixou a Slam para lançar a grife com seu nome), Jum Nakao e o estreante Eduardo Inagaki, que trabalhou como assistente de Walter Rodrigues.

Já Ocimar Versolato tem que se a ver com uma situação delicada. Depois de ter sido o primeiro brasileiro a participar da semana de moda de Paris, hoje ele está sem norte. Por força das circunstâncias, teve que voltar a morar no Brasil e é aqui que ele precisa se estabelecer como profissional agora. Mas sua estratégia local começa em retrocesso: se ele é o criador que pretende, o que o leva a se juntar a nomes novos que até então ele desprezava? O mais grave é que, nessa história, a Semana de Moda também sai perdendo, porque foge de seu conceito original e se porta como se fosse a casa da sogra.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo