04.07.2001 às 6:12

SPFW Primavera-Verão 2001/02

Depois de uma semana de acampamento na Fundação Bienal, terminou a temporada de lançamentos primavera-verão 2001/02, que reuniu 30 desfiles na São Paulo Fashion Week. Dois foram os destaque do última dia, dedicado à moda praia: a presença de Gisele Bündchen e o desfile da Rosa Chá.

A participação de Gisele no desfile da Cia Marítima provocou o maior tumulto da temporada. Até a própria Gisele ficou aflita com o assédio, principalmente antes do desfile, quando recebeu a imprensa para uma entrevista coletiva. Desde que Gisele ameaçou o mundo da moda dizendo que não faria mais desfiles, sua presença passou a ser ainda mais especial – e ela sabe se dar o valor. Para desfilar com três roupas, seu cachê teria sido de US$ 80 mil. Mas cada tostão valeu a pena, pois sem ela o desfile não teria a visibilidade que conseguiu.

Já a contratação da americana Frankie Ryder foi inútil. Meiga mas com as medidas bem acima do padrão, ela parecia um pato fora d’água. Ana Hickmann, a nova garota-propaganda da Cia., estava muito mais exuberante e merecia ter entrado em seu lugar com Gisele Bündchen e Benny Rosset, o dono da marca, ao final.

O verão da Cia Marítima se inspira na cultura americana, incluindo seus índios – a foto sépia de um cacique é principal estampa da coleção e estava na canga usada por Gisele em sua última entrada. Foi a única vez que Gisele revelou, rapidamente, seu bumbum. “Resolvi tirar um pouquinho a canga para provar que estava tudo em cima, mas não gosto e nem preciso mais ficar mostrando minha bunda”, disse ao Estado com exclusividade.

Gisele usou também um biquíni com micro-canga azul com a estampa Exotic Princess e um microvestido marrom, franzido com estampa de penas. Já Ana Hickmann veio mais abusada, com camiseta Go Go Girl ou top de tela preto e calcinha-biquíni. Seguindo a tradição da marca, que vende peças avulsas nas lojas, a coleção vem pronta para ser coordenada em lisos e estampados. Além dos clássicos asa-delta e cortininha, as modelagens trazem sunkini com cintinho, um ombro só, alças cruzadas na frente, tomara-que-caia, meia-taça e bustiê. Esta variedade de modelos aparece em todas as coleções de moda praia e os próprios estilistas não estão apostando em nenhum modelo específico para ser hit do verão. Vale tudo.

A Rosa Chá investe em uma moda praia mais sofisticada que se diferencia das outras marcas. O refinamento começa no cenário – o lobby de um hotel-butique, tipo o novo Emiliano, em clima de jet set internacional. Sob o tema Sonhos de Mulher, ela elege cinco musas e seus objetos de desejo: Audrey Hepburn, Sophia Loren, Marilyn Monroe, Brigitte Bardot e Madonna, revisitando assim os últimos 50 anos. A combinação começa clássica com marinho, vermelho e branco. Depois vêm outras cores e o preto, que dá a base para estampas como o sapato de Audrey, o perfume de Marilyn (Chanel No. 5 vira Rosa Chá No. 2) e os crucifixos de Madonna (só o top usado por Ana Beatriz tinha 126 cruzes de vidro bordadas à mão), incrementadas ainda com pérolas e cristais. Macacões retos, franzidos com látex ou vazados na cintura (tipo maiô) permeiam os biquínis, reforçando o investimento da Rosa Chá numa coleção de roupas pós-praia. No final, o rosto das cinco divas da Rosa Chá aparece em estampas salpicadas com quadrados de espelho. Um trabalho elaborado e de alto nível.

Mais uma vez David Azulay traz para a passarela da Blue Man o bom humor e a bossa carioca. O filme preto-e-branco “Os Cariocas“, do editor de moda Fernando de Barros, é o fundo da passarela. Dezoito salva-vidas entram cantando seu hino, passando a mensagem da Blue Man, que quer ver a praia feliz e não com meganhas repressores. Da parceria com o cartunista Ique vem a estampa em clima “Mad” com personagens da praia: o próprio Azulay, seu cachorro e a modelo Ana Cláudia, que veste top com seu rosto. Listras e bolas em tons de azul e vermelho fazem par nos biquínis que vêm amarradinhos nas laterais.

A Rygy, que também é carioca, se inspira em “etnias com toques de romantismo”. Tem estampa floral-jungle ou tipo Liberty, laise e piquê, com leves babadinhos e lacinhos estratégicos ou detalhes de búzios e pedra turquesa, que vai ser forte no verão.

FASHIONET

Mão dupla – Não é só modelo brasileira que desfila fora. Nesta estação vieram três modelos para cá, mas só uma aconteceu. Tradução doce do novo estereótipo de beleza, a belga Anne Catherine Lacroix, de 22 anos, fez seis desfiles, entre eles Reinaldo Lourenço, Forum, Triton e Iódice. Branquinha de olhos azuis, circulou com o namorado pela Bienal. Anne estuda Ciências Políticas na Bélgica, trabalha como modelo há três anos e acaba de ser contratada para fazer a próxima campanha da Chanel com Karl Lagerfeld. Depois de cinco dias em SP, onde veio para a abertura da agência Vision no Brasil, ela voou para os desfiles de alta-costura em Paris.

Contrapartida – Já sua compatriota Kim Peers, que estrela a campanha de Saint Laurent por Tom Ford, não teve a mesma sorte. Kim não fez o menor sucesso e Lino Villaventura chegou a dispensá-la na hora do desfile. A moça saiu chorando.

Internacional – Não são só as namoradas modelos que fazem sucesso lá fora. Henrique Gendre, fotógrafo e namorado de Luciana Curtis (o rosto de US$ 1 milhão das novas campanhas da Revlon), está com projetos engatilhados. E o cabeleireiro e maquiador Daniel Hernandez, namorado de Ana Claudia Michels, acaba de fazer editoriais para as revistas americanas “Jane” e “W“. Depois da SPFW, ele voltou correndo para Nova York. Foi fazer mais um editorial para a revista italiana “D Magazine“.

Promessa – Depois de fazer um curso de formação de modelos em Foz do Iguaçu, sua cidade natal, Emanuele Furlan, de 14 anos, veio a São Paulo em março e foi contratada pela Mega. Jogadora de futebol desde pequena, ela está adorando deixar a bola de lado para investir na carreira, mas sente em ter de fazer o mesmo com os estudos. Nesta temporada, desfilou para Lorenzo Merlino e Ocimar Versolato, na Semana de Moda, e para a Ellus, na SPFW. E promete.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

03.07.2001 às 6:04

SPFW Primavera-Verão 2001/02

Todo tailleur Chanel tem um segredo escondido na bainha do casaco. É uma corrente, que garante ao modelo um caimento impecável. Partindo desse princípio, Alexandre Herchcovitch embutiu correntes em todos os seus modelos femininos, mas só que do lado de fora da roupa: da bainha dos vestidos amplos aos frisos intercalados nas listras de crepe georgete colorido. Seu desfile de primavera-verão 2001/02 foi o destaque do último dia de coleções femininas desta 11a. São Paulo Fashion Week, que terminou ontem na Fundação Bienal, no parque do Ibirapuera, com os lançamentos de moda praia.
A mulher de Herchcovitch vem com peruca grisalha, cobrindo levemente os olhos, com vestidos longos que parecem robes-de-chambre vaporosos. O recurso das correntes provoca nas roupas novos volumes: físicos (a roupa de amplas proporções acaba ficando próxima ao corpo) e também sonoros, já que as correntes fazem barulho conforme o corpo se movimenta. Mas o resultado é delicado. O desfile na passarela espelhada começa com uma série de modelos em preto com duas ou três flores de metal aplicadas, e sempre com a corrente em algum lugar. Ela faz a gola mole cair drapeada no top ou no decote do vestido verde-água, que deixa entrever as costas.
Herchcovitch alterna o uso das correntes com bandagens punk, mais explícitas nas calças (como a prata empapelada) e mais sutis em ombros e cinturas de tops de malha. As calças são sequinhas ou muito amplas. E as salopetes prometem ser hit de verão. A cartela de cores, igual à da coleção masculina, é toda intercambiável e se repete na estampa de flor. Herchcovitch faz mil composições com seu verde-água, amarelo-canário, magenta, uva e preto, inclusive nos sapatos de salto de madeira e ponta redonda.
Herchcovitch também é responsável pelo estilo da Zoomp, que fez o último desfile do dia numa passarela forrada com faixas de espuma colorida. Os sapatos de bico fino revisitam a boa e confortável alpargatas. Nos bastidores, eram objeto de desejo das modelos Lu Curtis, Mariana Weickert e Caroline Ribeiro, mas deram vexame na passarela com os saltos caindo pelo desfile. Uma pena, pois o modelo é realmente bacana.
Com um olhar bem peculiar, que às vezes capricha no prazer de ser cafona, a coleção traz o Havaí para cá. O surfista pega onda nos jeans aerografados, nos vestidinhos franzidos de crepe e no desenho do tricô. O bege-blush é o fio condutor e compõe tops-corset ou se mistura ao jeans claro, criando listras. Outro padrão de listras é a do jogo frente-verso com o próprio jeans. Renato Kherlakian, dono da Zoomp, me disse que estava reeditando a calça clochard (do francês, vagabundo, é aquele modelo bem largo que franze fazendo a cintura parecer uma couve-flor). Mas o que parecia temerário ficou jovem e moderno: trata-se de uma clochard de cintura e cavalo baixos, levemente franzida. Já as fuseaux em total look de lycra, com faixa drapeada no quadril, são de tremer…
Duas grifes estrearam nas coleções femininas: André Lima e Cavalera. A Cavalera também passa pelo Havaí, mas seu personagem principal é King Kong com a mulher-macaco Monga, do Playcenter. “Eles se apaixonaram e foram namorar lá”, conta Thais Losso, estilista da marca que pertence ao deputado estadual Turco Loco e ao músico Igor Cavalera, da banda Sepultura. A coleção é macaquice pura, com estampas de cenas do filme, de macacos lutando, no mar e no Elma Chimps da camiseta, em colorido ou preto-e-branco com efeito gliter ou siliconado. O desfile começa com um King Kong inflando na passarela e de sua boca saem os modelos, como a loira e linda Jéssica (Isabel Zachow).
Todo macaco quer banana e dá-lhe mais estampas, botons e uma divertida banana bag – sem contar o chaveiro, em tamanho natural. O streetwear da Cavalera é bem-humorado, colorido e confortável. No masculino, Thais pega elementos do surfe, como a amarração do calção, e transpõe para a alfaiataria. Assim como na Zoomp, o feminino passa por tules e frufrus das bailarinas usados com body listrado, minimoletons e sandália dourada com flor de tecido igual à do cabelo.

André Lima aproveita sua estréia na SPFW para deixar claro que é um estilista de excessos. A começar pelos convidados de sua platéia: covers do Kiss, de Michael Jackson e de Maria Bethânia – a melhor editora de moda do Brasil, segundo Lima. Ele que adora um vestido de cetim em viés adorna seus modelos com rendas, cintos-ciganos de medalhas de ouro ou cinto-espartilho de couro rendado, numa imagem de personalidade forte e exuberante que funde ciganas e espanholas. Mas o vestido não vem só: é usado com corsários de jeans (linha que ele está lançando) ou com pareô de seda florida. Bem lembrada a imagem de uma foto de Diana Vreeland dos anos 40 (ela sim um grande ícone da moda mundial), com chapéu e flor no cabelo.

FASHIONET

Nova Itália – O historiador e jornalista inglês Colin McDowell, autor de vários livros que são referência na moda, foi ontem para Paris, depois de assistir alguns desfiles da São Paulo Fashion Week. Mas ele volta para ver as coleções do BarraShopping, que acontece no Rio entre os dias 15 e 18, e só então fará seu artigo definitivo sobre moda brasileira para o jornal britânico “Sunday Times“. “A moda aqui é excitante e viva, assim como o Brasil, que é realmente um país jovem”, disse ao Estado. “A Itália demorou 15 anos para estabelecer a sua moda e fazer parte do calendário internacional. Nesse sentido, o Brasil deve ser a próxima Itália num prazo de dez anos talvez”.

Nova aposta – Mc Dowell, com toda razão, ficou indignado com os atrasos dos desfiles. “Em Paris a gente vê 15 desfiles num só dia”. Mas foi embora bem impressionado com pelo menos quatro estilistas: Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura, Fause Haten e Walter Rodrigues. Ele diz que aposta em um estilista do Brasil, mas isso ele só vai revelar quando fizer o artigo para o Sunday Times em agosto.

Novo evento – Muita gente está se mexendo para que a previsão de Colin McDowell, de que “em dez anos o Brasil seja um grande pólo de moda”, realmente se concretize. Paulo Borges, organizador da SPFW, e Beto Lago, do Mercado Mundo Mix, idealizaram o Hot Spot Fashion Mix, que pretende dar suporte à novas gerações de profissionais ligados à moda, como estilistas, diretores de arte, fotógrafos, modelos, maquiadores, cabeleireiros e DJs. O evento será em agosto e foram selecionados nomes de todo o País. Com patrocínio do Amni Rhodia, o projeto pretende acompanhar esses artistas em todas as etapas do processo, durante dois ou três anos.

Novo talento – Um dos talentos do Hot Spot é o gaúcho Marcelo Bohrer, estlista da marca Visgo. Ele é o careca lindo que circulou pela SPFW com óculos-máscaras que dão um de extra-terrestre. Seu discurso é “cyber organic” e as roupas, futuristas e coloridas, saídas de um desenho japonês. Você pode matar sua curiosidade entrando no site do rapaz: www.visgo.com.br

Tudo novo – Depois de seis campanhas com o fotógrafo peruano Mario Testino, a Zoomp parte para um novo conceito. Selecionou uma equipe de novíssimos talentos da moda para criar o catálogo e a campanha do próximo verão: duas fotógrafas, um videomaker, um ilustrador e uma modelo. Eles farão um making of de todo o processo de lançamento da coleção sob a direção conceitual de Alexandre Herchcovitch e direção de arte de Rogerio Hideki. Mas Testino continua por aqui. E foi o centro de uma grande festa segunda-feira que teve Gisele Bündchen se divertindo entre modelos e modernos. A noite era fechadíssima e a única câmera em ação era a do próprio.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

02.07.2001 às 5:55

SPFW Primavera-Verão 2001/02

Termina hoje a maratona primavera-verão 2001/2002 da São Paulo Fashion Week com as coleções de quatro grifes de moda praia. Durante uma semana, 30 desfiles mostraram os lançamentos para a próxima estação na Fundação Bienal, no parque Ibirapuera. O destaque do dia deve ser a presença de Gisele Bündchen de biquíni na passarela.

O “house barroco” do estilista Marcelo Sommer fez a alegria dos desfiles de domingo, dia em que completou 34 anos com direito a bolo no camarim em forma da nave, que é sua logomarca. A passarela era um jardim de castelo com portão de néon e pinheiros de espelho. A coleção já veio sob medida para o casting diversficado do estilista, que gosta de colocar seus amigos desfilando, não importa se são altos, baixos, gordos ou magros. Desta vez, até a princesa Paola de Orleans e Bragança estava lá, fazendo uma dancinha na frente dos fotógrafos. As roupas são ajustáveis e alargáveis por meio de fios que franzem a cintura dos vestidos ou que se cruzam atrás das saias como espartilho.

O verde é a principal cor de Sommer. Ele aparece nas rendas, malhas, camisas e no jeans com jacquard de folhas e lurex prata, que já vem com bolso para a garrafinha de água da balada, e também no tênis com prata. Tudo com muito bordadinho tipo brechó e cores lavadas, como o gelo, pontuado com vermelho. O globo-disco vira colar de pérolas e bolsa para a festa, chic e divertido.

Com approach bem diferente do de Sommer, a Triton também tem o jovem como alvo. Sua garota roqueira agora pega onda, como indicam o cenário e as estampas de coqueiros, em transfer monocromático ou silk preto-e-branco. Fabiane Nunes abriu o desfile com top listrado preto-e-branco, saia de tule meio Madonna dos anos 80 e cinto de tachas.

Para o verão, a Triton mantém o mesmo estilo com o qual se lançou há quatro estações na SPFW, quando optou por um streetwear mais glamourizado. “Desde o primeiro desfile, buscamos uma cara mais forte para a marca ao mesmo tempo em que sentíamos necessidade de acompanhar o crescimento desta cliente”, diz Tufi Duek, que também é da Forum. A irreverência da roqueira se mistura à referências clássicas de verão, como florais havaianos, listras de marinheiro e muito branco – das leggings-corsário às jaquetinhas de couro. Quem conhece a Califórnia sabe que o surfista de lá tem atitude, anda de skate e gosta de moda. Para proteger dos tombos, a garota Triton amarra joelheiras de jeans sobre a calça ou direto na perna linda, à mostra só com um microshort. Para levar o fundamental, a bolsa em forma de gata-hello-kitty vem presa na cintura.

A coleção de Renato Loureiro é levemente picante, mesclando influências dos anos 20 e 60. O desfile abre com vestidos rendados pretos com cara de camisola fatal, explorando decotes, transparências e o movimento das nesgas. Esse desejo sexy se transporta também para os smokings usados com vestidos de renda e para as peças coloridas, construídas em faixas multicor salpicadas de poás ou flores incrementadas com brilho paetizado. Segundo Loureiro, sua “receita” para o verão é uma mistura de 17 cores buriladas por ele no computador. Com elas, ele cria os patchworks que são sua marca registrada, seja em malha ou tecidos de tear. O homem Loureiro também vem colorido. Em proporções confortáveis, brinca com o vichy nas camisas e mistura calça jeans de bolinha com paletó listrado.

A grife da dupla argentina Trosman Churba fez sua segunda participação na SPFW mostrando que quer encontrar o caminho certo entre o desejo de moda contemporâneo e seu elaborado trabalho de pesquisa de materiais, texturas e estampas. O desfile limpou os excessos da coleção passada, a começar pela contenção no uso de cores. Segundo Martin Churba, a inspiração vem dos vagabundos urbanos, com roupas com cara de gastas. A “estampa-sombra”, que aplica a cor texturizada sobre o tecido amassado ou plissado que quando é aberto revela o não-pintado, aparece em variações de preto, que pontuam a coleção.

FASHIONET

Destino – Isabel Ibsen, carioca de 19 anos, estava prestando vestibular para cinema quando foi acompanhar um amigo numa sessão de fotos. A outra modelo faltou e a sortuda Isabel acabou sendo escolhida pelo fotógrafo, que era nada menos do que Mario Testino. Ele acabou contratando Isabel com exclusividade lá fora até setembro, quando ela se muda para Nova York. Juntos, já fizeram editorial para a Vogue Itália e campanha para a D&G. Aqui na SPFW, a loira descolorida com jeito nada tropical desfilou apenas para o Sommer.

Emoção -  O camarim mais emocionado da estação foi o de Ronaldo Fraga. Convidados, editores e fotógrafos com os olhos cheios d’água e muito óculos escuros para engolir o nó na garganta. Fraga fez um manifesto político lembrando os tempos de AI-5 em homenagem à estilista brasileira já morta Zuzu Angel.

Escola – A Faculdade Anhembi Morumbi tem novidades entre seus cursos de moda. Em setembro, haverá um sobre visual merchandising, tema que merece quatro anos de estudos no Fashion Institute of Technology de Nova York. O tema é familiar em sociedades mais desenvolvidas e visuais, mas é novo aqui onde a cultura de moda está só começando. Dia 9 de agosto, haverá uma aula aberta e gratuita para os interessados.

Gourmet – O povo da moda passou a semana desolado com a falta que o Ritz fez nessa edição da SPFW. Na temporada passada o restaurante, que faz parte da vida paulistana desde 1981, estava lá com seus bolinhos de arroz, seu cardápio, suas caras conhecidas, seu clima.

Ecologia – O jeans reciclado com garrafas de refrigerante pet é uma parceria da Rhodia, Santista e M. Officer com a participação das artesãs da Coopa-Roca, da favela da Rocinha. O resultado é um jeans mais leve e macio, que não amassa, mais apropriado para o clima brasileiro.

Campanhas – Enquanto a Ellus fez festa no hotel Cambridge, no centro, a M. Officer preferiu o maravilhoso mundo do design do novo hotel Emiliano. Sua próxima campanha terá as modelos Suyane e Marcelle Bittar. Já a Ellus optou pelos novos Marcelo Stefanovicks e Tatiane Ranuti, garota de 11 anos da Ford Kids. Os clics de Vavá Ribeiro devem vir com polêmicos ares nabokovianos.

Paixão – Os modelos e namorados Isabeli Fontana e Álvaro Jacomossi só se desgrudam quando um deles têm que entrar na passarela. Até para dar entrevistas e fazer fotos, os dois pedem para ficar juntos porque não querem se separar nem por um segundo, de tanta paixão.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

01.07.2001 às 5:47

SPFW Primavera-Verão 2001/02

Reinaldo Lourenço e Ronaldo Fraga foram os grandes destaques dos desfiles do final de semana da São Paulo Fashion Week, evento que lança 30 coleções para primavera-verão 2001/2002 até amanhã na Fundação Bienal, parque do Ibirapuera. Reinaldo se sobressai pelo primor com que executou peças superelaboradas e de forte impacto. Ronaldo, pelo seu desfile politizado que casou tão bem sua indignação com seu estilo.

Reinaldo chama a coleção de Tribal Époque, o que significa uma mistura de etnias com o período Belle Époque e um leve perfume de anos 70. O desfile abre com uma continuidade da coleção de inverno: a modelo Marcelle Bittar toda de couro preto. Mas agora a manga bufante sai da cava baixa e a calça vem com minissaia kilt. O mesmo look vale também para o novo homem de Reinaldo, que volta a fazer coleção masculina. O resultado, entretanto, não é a androginia óbvia. Curiosamente, esse look muda de cara quando passa da mulher para o homem. Reinaldo pretende mostrar que o homem tem direito a desejos fashion, traduzidos agora por ele como babados, plissados e volumes franzidos em smok (que hoje é associado a vestidinhos infantis, mas originalmente era usado pelos camponeses da Inglaterra). “Eu adoro moda e nunca encontro a roupa que eu quero usar, então resolvi produzir eu mesmo uma coleção”, conta.

O smok é o fio condutor que cria proporções e desenhos variados ao longo do desfile. As formas do smok se desdobram nos bordados com placas de metal coloridas (azulão, amarelo, vermelho, branco e preto), resultando em motivos tribais. Segundo Reinaldo, o desenvolvimento de 30 formas diferentes de placas só foi possível graças à sua parceria com o fabricante, a Eberle. Além das cores fortes, ele aposta em cores falsas: marrom e marinho que parecem preto, rosa e o azul que parecem branco (usados em casacos eduardianos com delicadas flores de linha vermelha e franjinha de pompons na barra).

Já o mineiro Ronaldo Fraga faz um tributo à estilista Zuzu Angel, que lutou contra a ditadura militar (e a denunciou numa coleção apresentada nos Estados Unidos), teve seu filho morto nas salas de tortura e foi ela mesma assassinada em condições misteriosas. Na passarela, um pau-de-arara com bonecos de pano torturados. Na trilha, marchinhas de Carnaval, lembrando que o povo precisava se distrair. A filha de Zuzu, a colunista social carioca Hildegard Angel, assistiu emocionada o desfile.

A ironia e a inocência passam pelas modelos com auréola prateada de estrelas, casaquinhos curtos e secos estampados de nuvem e sapatos cor de pele pintados com os dedinhos dos pés. Até o jeans é Angel Blue. A capa plástica do botijão de gás empresta sua forma e seus frufrus a vestidos e camisas, que também pegam dos panos de prato os bordados de casinhas, passarinhos e flores. Na estampa de cataventos verde-e-amarelo, o ufanismo do período da repressão. Ronaldo dá seu recado sem perder o charme e a sedução da moda. É o nosso estilista realmente engajado.

Lino Villaventura surpreendeu. O início de underwear cor da pele, básico e limpo, parecia ser de qualquer outro estilista. Mas as roupas vieram e mostraram que Lino de fato vive um novo momento. Ao se livrar dos elementos rococó (como as cabeças ornamentadas e a maquiagem teatral) que marcaram seus looks ao longo de sua trajetória, ele ressalta o trabalho artesanal da coleção. Acostumado a viver entre rendas labirinto e filé no Ceará, Lino troca a linha pelo canutilho reproduzindo esses desenhos em vestidos e tops delicados, em branco ou preto – e também os imprime em calças jeans.

Mas não é só no ornamental que Lino chama a atenção. Saias de tecido crina-de-cavalo vem com cós fininho ou debrum de lézard. A camisa de linho bege é bordada com micro-aros de cristal vermelho. E as pulseiras pretas com cristal fazem contraponto com os quadrados luminosos da passarela, também preta.

Outro estilista que adotou a máxima “menos é mais” de Mies van der Rohe foi Fause Haten. “Nesta coleção tive vontade de suavizar a exuberância com a qual costumo trabalhar”, diz, evocando a simplicidade de Coco Chanel. O desfile se estrutura como uma exposição na qual as modelos entram, caminham e param estáticas na passarela, compondo uma imagem delicada no final, em que o preto e o branco prevalecem, exceto por meia dúzia de looks em vermelho e rosa. Os vestidos pretos de malha stretch, efeito casca de árvore, contrastam com vestidos-túnica coloridos de georgete esvoaçante.  A calça preta com top branco todo bordado de perolinhas não poderia ser mais Chanel. Mas Saint-Laurent, de ontem e de hoje, também está presente, seja nas saias brancas de babados de penas de ganso, de ráfia ou de musseline, seja nas faixas de smoking feitas de couro. Cintos de penas pretas pontuam os looks, assim como a nova linha de jóias de Fause, que se destacou no crucifixo e na estrela de David de diamantes.

A Forum, de Tufi Duek, também aposta na delicadeza dos vestidos-túnica de cetim que fizeram a alegria do jet-set nos anos 70. Sempre de olho na sensualidade brasileira, Tufi se volta novamente para sua cidade natal, o Rio de Janeiro, e desta vez vai buscar suas musas imaginárias no livroEla é Carioca”, de Ruy Castro. Mas o ponto alto da coleção está na proposta de um novo homem, mais relax e descontraído, que troca o terno almofadinha por calça jeans com camisa listrada e paletó de couro branco. A musa desse novo homem brinca com echarpes, babados suaves e franzidos de látex em vestidos assimétricos de jérsei e cetim, além, é claro, dos modelos-túnica que insistem em revelar os ombros. Cores fortes como vermelho e turquesa se misturam, mas o preto e o branco não saem de cena. As viagens de fim-de-semana ela encara com uma pantalona com veste transpassada e chapéu – tudo em jeans.

Carla Fincato, a estilista da Carlota Joaquina, estava em Paris em março quando visitou a exposição da artista plástica japonesa Yayoi Kusama, que adora bolas. Foi o casamento perfeito para seu desejo de trabalhar com os anos 60 para o verão 2002, influenciada também pelo estilista Rudi Gernreich. Tudo vem em bolas: da maquiagem à estampa da meia-calça, passando pelos acessórios com círculos de alvos e a imagem de Twiggy, modelo-ícone da referida década. O vestido-túnica é vazado em círculos e usado com calça de moletom. O neoprene brinca de dupla-face em vestidos soltos ou estruturados em forma de círculo. Tudo é confortável, como mostra a sapatilha tênis nas deliciosas cores da coleção: cinzas, pele e rosê com verde e rosa flúor.

Na Patachou os círculos também aparecem, mas sua história pretende passar pelo circo, com ginastas da Cia Ana Vitória de Dança Contemporânea fazendo um show à parte ao fundo da passarela. Terezinha Santos se apaixonou pelo que viu no livro sobre o Cirque du Soleil. Malhas vêm com franzidos e babados, que já saem assim da máquina, ou se estruturam em corsets confortáveis. Predomina a composição do branco com vermelho e marinho, que se repete também na coleção da Iódice, de modelos simples mas de bom gosto. Já Walter Rodrigues, na passarela com aroma de canela, quer se livrar do estigma de costureiro de festa. Aposta em confortáveis saias longas para o dia e delicados tops transparentes de tela enervurada – tudo branco. Mas é na festa que ele se destaca, como nos vestidos pretos em que mistura crepe e renda, numa parceria que fez com as rendeiras do Piauí.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo