Escapismo: é a Semana de Moda de Paris primavera-verão 2002
Paris – A temporada de desfiles de prêt-à-porter primavera-verão 2002 terminou com um inusitado calor em pleno outono parisiense, aproximando as novidades das passarelas do clima quente das ruas. Até os franceses, famosos pela pouca cordialidade com que tratam os turistas, estavam mais afáveis, ou seja, mais uma vez a moda soube captar e expressar valores ainda latentes. Paz, amor, inocência, otimismo e escapismo são palavras de ordem para amanhã que já estão no ar hoje. Vale uma pitada camponesa, uma gota de folk e um toque cigano. Muitos estilistas baniram do desfile referências explícitas à onda militar da última temporada. Por isso, foi surpreendente o corner da badalada butique Colette, a mais hypada da cidade, que no meio da semana resolveu expor todo seu estoque de camuflados, despertando a indignação de muitos clientes. Nas passarelas, se deu bem quem cultivou um clima mais ameno e suave, que torne a vida mais fácil de ser levada. Uma coisa entre o neo-hippie e o new-bohemian.
Então, é preciso muita sensibilidade para convencer uma platéia exigente de que um look pós-guerra pode ter sua poesia. E até quando Hussein Chalayan resolve destruir tudo, ele o faz com poesia. Cipriota de origem turca, Chalayan se consagrou em Londres com apresentações memoráveis como a da saia-mesa ou a das mulheres muçulmanas. Falido, ficou uma temporada fora do circuito e agora volta estreando com seu nome em Paris e com um contrato para a Asprey & Garrard, tradicional grife de luxo britânica, para a qual ele lançará sua primeira coleção no ano que vem. A tocante execução de “Mishima“, de Phillip Glass, pelo Ensemble Musique Nouvelle, deu ainda mais emoção ao desfile, e uma sensação do fogo consumindo tudo, manchando tecidos, destruindo vestidos, sobrepondo peças detonadas mas sempre impecáveis, nas cores e nas construções. Nos pés, alpargatas. E no rosto, maquiagem com manchas camufladas em tons de pele. Mas Chalayan declarou que tudo estava preparado antes da queda das torres e que, na verdade, seu intuito era tratar do medo e da insegurança que já afligiam as pessoas. A modelo brasileira Marcelle Bittar, nome forte da temporada, desfilou deslumbrante com o vestido azul entre os totens de acrílico transparente que pontuavam a passarela.
Dois desfiles causaram polêmica por motivos diversos. O primeiro foi o da marca Christian Dior. Sob criação do inglês John Galliano, a Dior apresentou uma coleção chamada Street Chic que não foi bem recebida pela respeitada crítica de moda Suzy Menkes, do “International Herald Tribune“. Por causa da crítica, Suzy foi informada que não seria bem vinda aos desfiles do grupo LVMH, que é o maior conglomerado de luxo do mundo e detém marcas como Louis Vuitton, Givenchy, Kenzo, Lacroix e o próprio Galliano. A notícia teve efeito bomba no mercado. O comentário geral era de solidariedade à crítica e ao seu papel, e de estranhamento diante da reação autoritária vinda supostamente do próprio Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH. Mas 48 horas depois, os envolvidos se entenderam a tempo de Suzy voltar a ocupar seu lugar na primeira fila do desfile da Louis Vuitton. Desenhada com sucesso pelo americano Marc Jacobs, a Vuitton fez um trabalho incrível com o jeans feito a mão e mostrou uma imagem delicada do couro de cobra. Um hippie completamente chic.
Voltando a Dior, a coleção tem de fato um ar agressivo, como observou Suzy, mas dá continuidade à evolução da imagem jovem que a marca tem conquistado pós-Galliano. A estampa Souvenirs de Viagem resume bem o espírito: Galliano faz uma volta ao mundo no guarda-roupa primavera-verão 2002. Vai de motivos mexicanos à saruels do Saara, passa por cassinos de Las Vegas e pelas listras esportivas da Adidas, resvala no hip hop e homenageia Elvis Presley. Depois das camisetas J’Adore Dior (eu adoro Dior), ele assume logo o vício: Dior Addict. Ele também trabalha o couro de cobra, como o da calça metalizada, mas é na sua própria marca que aparece a melhor versão, a dos losangos Argyle estampados em terninhos.
Stella McCartney, filha do beatle Paul que sempre acompanha cada passo de sua passarela, estreou com sua própria grife depois de ter rejuvenescido com sucesso a grife Chloé. Associada ao grupo Gucci, Stella estampou em letras garrafais gírias cockney (inglês das classes trabalhadoras da região leste de Londres) e acabou sendo acusada de cópia pela grife Slang (gíria, em inglês), que usou os mesmos recursos em sua coleção de verão deste ano e tem entre seus clientes nomes pop como Mel B, ex-Spice Girls. Mas o verdadeiro problema de Stella não está na estampa cockney e sim na ausência de sutileza, no refinamento que distingue uma mulher sexy de uma prostituta.
Mas a Gucci teve seu momento de glória com o desfile assinado por Tom Ford para a grife de prêt-à-porter Yves Saint Laurent, a Rive Gauche. Se o look cigana da temporada passada foi reproduzido em toda parte mundo afora, o espírito rainha da selva de pedra desta temporada promete a mesma façanha. Fluida e sexy, a nova mulher YSL recupera a fase safári dos arquivos do mestre Saint Laurent, em cabans de seda e caftans de musseline com estampa de leopardo, misturando um pouco de corselets, maiôs assimétricos engana-papai e uma incrível saia trançada de seda.
Tranças e franjas, aliás, são indispensáveis na próxima temporada. Saem de artigos de decoração – dá-lhe redes do Nordeste - para virar must-have fashion. A dupla Suzanne Clements e Inácio Ribeiro, da Clements Ribeiro, trabalhou muito bem esta imagem e suas sandálias e bolsas franjadas devem fazer a alegria dos editoriais de moda das melhores revistas do planeta. Inácio, que é brasileiro radicado em Londres, tem faro apurado para o espírito da estação. Suas borboletas - e as da Vuitton também - e suas sedas marmorizadas evocam o glamour de Saint Tropez e o hippismo da Swinging London.
A Chanel veio mais jovem e, como sempre, muito chic. O frescor da passarela parece conseqüência direta do novo lay-out de seu estilista, Karl Lagerfeld, que emagreceu 28 kg em nove meses e desfilou seu corpinho de ex-bailarino – mais comentado do que o de qualquer top model - pela passarela em “S” ao lado do casting de 65 modelos. A mulher Chanel da próxima estação veste tanto uma jaqueta de couro de motoqueiro num suave tom de azul quanto vaporosos modelos em preto e branco, com falsas túnicas sobrepostas, e muitas correntes e pérolas, inclusive nos sapatos.
Lilian Pacce para o Estado de S.Paulo
Paris Primavera-Verão 2002
Paris – No final da tarde de domingo, enquanto os Estados Unidos atacavam o Afeganistão, o mundo da moda assistia o manifesto fashion pela paz de Comme des Garçons, a grife da estilista japonesa Rei Kawakubo. O desfile praticamente monocromático em branco e quase-brancos foi realizado no Museu de Arte Moderna de Paris numa sala também branca, com cabelo de papier-marché e make up brancos. Kawakubo, cuja influência no planeta fashion é tão forte e revolucionária quanto a que Chanel teve em sua época, vem leve e confortável, em formas amplas, de macacões-saruels muito soltos. O top franzido no decote remete à tendência camponesa que vem com tudo, mas a mão de Kawakubo é especial o bastante para personalizá-la e urbanizá-la. Sobre essas roupas, ela amarra golas gigantes, saias e vestidos pela metade, de preferência plissados e drapeados, ampliando o volume poético da coleção.
A notícia da reação americana veio em seguida, abalando o esforço otimista de quem se arriscou a vir a Paris para acompanhar a semana de prêt-à-porter que apresenta as coleções para a primavera-verão 2002. O evento é o mais importante do circuito internacional e reúne o lançamento de 120 grifes até o próximo sábado. Se o clima já não era de festa, ficou evidente o temor e o baixo astral no olhar de cada um de nós. Mas o dia ainda não havia acabado e o dever nos chamava para ver a coleção de Martine Sitbon e do jovem Bernhard Willhelm, alemão formado pela escola belga da Antuérpia. Bernhard criou um jardim de luminárias de neon para mostrar uma roupa jovem, de vestido de moletom extra-grande, com muitas referências atuais como a estampa dourada dos dedos em paz e amor, o capuz terrorista que cobre o rosto e o foguete USA. Esse espírito engajado aparece um boa parte das coleções, que procuram de alguma maneira expressar uma mensagem.
Já Martine Sitbon vem bem feminina, com uma coleção que sai do baú de lingerie da vovó, com sua seda em tons de bege e rosê, rendas e bordados, e um pouco do espírito vitoriano nas pequenas vestes. Mas o branco também é tudo para a dupla holandesa Viktor & Rolf que na coleção passada trabalhou sobre sombras e preto. Ao som de um órgão de igreja, as modelos passavam serenas e decididas. Umas a caminho da cerimônia de primeira comunhão, outras do casamento. Chemises de renda e terninhos com botões gigantes mais básicos vão crescendo com laços desestruturados recortados na própria manga ou engomados na gola. Correntes gigantescas de metal com crucifixo cruzam o modelo usado pela brasileira Ana Claudia Michels. A calça de couro é toda recortada com corações e a mensagem que a dupla pretende passar é de bondade.
Outro grande momento foi o desfile do japonês Junya Watanabe, que desde a coleção passada fez uma parceria com a Levi´s. Num clima total de paz e amor, com os fotógrafos cantando em coro o hit de Chicago “If You Leave Me Now” e as modelos com boca dourada, Junya é puro vintage romântico: desde o jeans lavado/empoeirado em vestidos de babados e muitos recortes pespontados até a mistura de estampas florais tipo Liberty, tudo com carinha de brechó do século 21. No cinto de couro marrom, a mensagem: “Love is Power“.
Outra parceria de sucesso entre um verdadeiro criador e uma marca de grande difusão é a de Yohji Yamamoto com a Adidas. O espírito esportivo que Yohji despertou na coleção passada tem agora toques de boxeur em modelos de cetim usados com tênis tipo babuche com desenhos em relevo. Vestes desestruturadas se abrem nas costas formando tranças do próprio tecido ou formam rolos pesados no decote, forçando para baixo. Saruels são bem-vindos, muitas vezes com coletes tipo quimono. Zen, Yohji estampa mensagens budistas em ideograma japonês para a primavera-verão de 2002.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
A temporada de desfiles pós-atentado
Sexta-feira começam os lançamentos de prêt-à-porter de Paris, que mantém seu posto de capital da moda. O evento, que concentra mais de cem desfiles dos principais criadores do mundo, deve expressar de fato os efeitos que a tragédia pode ter no mercado do luxo. O principal deles já se sabe. Cerca de 30 compradores das mais importantes lojas americanas, como a Saks, Barneys e Bergdorf Goodman, decidiram não atravessar o Atlântico nesse momento tão vulnerável. A cobertura da imprensa internacional também está comprometida e os hotéis, pasme, têm até vaga nesta época do ano.
A expectativa da temporada é grande em todos os sentidos. Como os estilistas esperam ver este “novo mundo” vestido a partir de março de 2002? Como as grifes planejam capitalizar seus investimentos tanto na mídia quanto em vendas? Qual será o retorno real do circo da moda nesse clima instável e pessimista? O prefeito de Paris quer manter a chama da cidade luz acesa e vai promover durante a semana de prêt-à-porter uma festa para 2 mil pessoas – provavelmente a única da temporada.
A Gucci avisou semana passada que seus lucros subiram 7,6% no último ano, o que representa um lucro líquido de US$ 83 milhões, mas a previsão para o próximo ano não é nada otimista. Mais do que uma grife bem-sucedida, Gucci hoje é um poderoso grupo de luxo, que tem sob seu guarda-chuva marcas como Yves Saint Laurent Rive Gauche, Balenciaga, Sergio Rossi, Alexander McQueen e Stella McCartney. Aliás os desfiles de McQueen e McCartney em Paris, agora sob nova gestão, estão sendo chamados de “a estréia dos Big Mcs”. Stella é filha do Beatle Paul McCartney e assinou a coleção da grife francesa Chloé nos últimos anos, até que aceitou a proposta de sociedade com o grupo Gucci, de seu amigo Tom Ford. A assistente de Stella, Phoebe Philo, é a nova estilista da Chloé, que desfila dia 10, enquanto Stella estréia segunda-feira.
Acostumado a desfilar sua própria grife em Londres, o inglês McQueen se apresenta em carreira solo pela primeira vez em Paris, no sábado à tarde. McQueen rompeu com a marca Givenchy, do grupo LVMH, para se associar ao grupo Gucci. Em seu lugar na Givenchy, estréia Julien MacDonald, também britânico. Será sua primeira coleção de prêt-à-porter.
Já a esperada volta de Helmut Lang a Paris não vai mais acontecer. Desde que se mudou de Viena para Nova York em 98, Lang transferiu seu desfile para lá e pela primeira vez queria voltar a Paris, abrindo os desfiles de sábado. “Vou sentir falta de meus amigos da imprensa internacional em Paris, mas estou certo de que todos entenderão que eu tenho que estar em Nova York agora”, avisou Lang em comunicado à imprensa. Além dele, houve poucos cancelamentos como o da Lanvin (agora sem Cristina Ortiz), Cerruti e Féraud, mas o motivo alegado foi a reestruturação dessas marcas. Já a Clements Ribeiro, do brasileiro Inácio Ribeiro e da inglesa Suzanne Clements, acabou transferindo seu desfile de Londres para Paris, aproveitando que também estarão mostrando a nova coleção que assinam para a Cacharel.
Outro cancelamento foi da marca espanhola Loewe, que pertence ao grupo LVMH (o maior conglomerado do luxo no mundo). Ela acaba de dispensar Narciso Rodriguez, que era o estilista preferido de Carolyne Bessette-Kennedy. Em seu lugar, vai entrar José Enrique Ona Selfa, que assinou um contrato de três anos e apresenta sua primeira coleção para a Loewe em março próximo. Ona Selfa é belga de origem espanhola, tem 26 anos e, dizem, tem em Karl Lagerfeld um grande admirador.
A moda pós-atentado
O mundo da moda não é mais o mesmo depois dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Além do fato trágico por si só, o atentado aconteceu justamente durante a Semana de Moda de NY, a 7th on 6th, que obviamente foi interrompida deixando quase 50 estilistas sem o desfile que haviam planejado, entre eles, o brasileiro Amir Slama, da grife Rosa Chá. O custo médio de um desfile em Nova York é de 150 mil dólares, mas agora uma produtora se dispõe a organizar um evento na Times Square no final de outubro, cobrando cerca de US$ 10 mil pelo espaço, a fim de minimizar o prejuízo das grifes.
Em seguida a Nova York, veio a temporada primavera-verão 2002 de Londres, que teve vários cancelamentos de grifes importantes como Burberry, Clements Ribeiro e Paul Smith, mas marcou a estréia de Carlos Miele, da M. Officer, nas passarelas internacionais. Suzy Menkes, uma das mais respeitadas críticas de moda do mundo, disse que Miele é um “aspirante a Versace cuja sexualidade escancarada parece fora de sincronia com a tendência de inocência” que está se firmando nesta temporada. Já a “Vogue” inglesa disse que os jeans com plumas são “horrivelmente reminescentes do estilo Gucci que Tara P-T aposentou dois anos atrás.”
A inocência, aliás, é uma reação ao militarismo e aos camuflados da temporada passada – um espírito bélico que a moda prefere evitar, tanto que nos Estados Unidos essas roupas sumiram das prateleiras e dos desfiles. A estilista inglesa Katherine Hamnett, conhecida por suas camisetas-protesto, não desfilou mas foi rápida no gatilho (ops!) e está lançando três versões de camiseta: “No War”, “Women Agaisnt War” e “Life is Sacred”. Já a segunda grife da Dolce & Gabbana, a D&G, mantém seu approach com a cultura americana. A bandeira americana que aparece nesta estação será substituída por camisetas com a inscrição “I Love New York” na próxima estação.
Na temporada de Milão, que acaba sexta-feira (4 de outubro), nossa Gisele Bündchen continua fiel à Dolce & Gabbana, da dupla de estilistas sicilianos, que é a única grife para quem ela desfila lá fora. “Eles são meus padrinhos fashion”, diz Gisele. Ela abriu e fechou o desfile usando um enorme brinco de ouro com a letra G (Gisele/Gabbana) tanto com o corselet preto com rendas, quanto no look mais casual de camisa transpassada laranja e calça listrada multicolorida, ou ainda com o vestido de chifom magenta tomara-que-caia sobre sutiã rendado preto.
A Prada aposta em brocados de efeito étnico, misturando ouro e prata em calças, vestidos e pijamas, com estampas tipo vintage e cardigãs de cashmere bege. O sapato é tipo Sabrina, de salto alto ou saltinho, afivelado na frente e, em vez de ser aberto atrás, é vazado nas laterais. Na Miu Miu, sua segunda marca, o espírito étnico também é forte e transita entre o Marrocos e as camponesas. A cintura sobe e as bainhas descem, em saiões cheios. Tons de bege e pele se misturam no mesmo look e o desfile acaba em preto. As sandálias têm vertiginosas plataformas de madeira.
Já a Gucci vem mais casual, com calças ultra-largas amarradas por tiras do próprio tecido criando um efeito baggy mais associado à cultura hip hop do que àquele baggy explorado nos anos 80. A coleção de Tom Ford, o diretor criativo da marca italiana, vem com chamois, algodão e cetim em tons neutros e preto. As sandálias presas no tornozelo têm salto stiletto de metal com pequena plataforma recuada, como se a sandália quisesse flutuar. O make é bronzeado com boca nada e óculos de aviador laranja bem grande. O espírito paz e amor que sussura em cada um de nós vem nos corações recortados em mangas e camisetas.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo



