A novela chega à passarela da SPFW
Enquanto “Desejos de Mulher” mostra o mundo da moda às sete da noite, a marca de streetwear Cavalera faz o inverso e leva as novelas para a passarela, homenageando um dos grandes astros da televisão brasileira: Francisco Cuoco, que fez uma participação especial no desfile de anteontem dentro da São Paulo Fashion Week, principal evento de moda do país que termina hoje no prédio da Bienal.
Essencialmente pop, a irreverência sem pretensão da Cavalera (do deputado Turco Louco e do músico Igor Cavalera, do Sepultura) faz com que ela conquiste os fashionistas com seu bom humor. As novelas preferidas da estilista Thaís Losso estavam lá, com logotipo original em estampas divertidas como “A Gata Comeu“, “Plumas e Paetês“, “Pantanal” e o batom Boka Loka (da novela “Ti-ti-ti“) sobre a “colour bar” da televisão. O desfile parecia um break comercial do mundo da moda, ao mesmo tempo que quebrou o padrão vigente até então na SPFW ao personalizar sua primeira fila com poltronas e sofás de brechó – um recurso bastante usado lá fora por criadores como John Galliano.
Os anos 70 pontuam a coleção com peças como batas, túnicas, caftãs e vestidos longos de moletom, que ela propõe para o dia, além da linda mini-pelerine. Cores elétricas como pink e verde se misturam ao branco e preto. O jeans hi-tech vem com cianinhas e as mangas são em forma de sino.
Já Walter Rodrigues abriu o dia com desfile mais denso, se preparando para estrear em Paris na semana de prêt-à-porter em março. Os samurais e a influência do Japão, tão presente no estilo de Rodrigues, se encontram com o futurismo proposto nos anos 60 por criadores como Andre Courrèges e Pierre Cardin. O cabelo é a melhor síntese desse mix assim como os cinco vestidos do final com sutis dobraduras em organza preta sob o colar-armadura vermelho, mais a bota de cetim que vai até a virilha, todinha amarrada como corselet. Outros destaques: a veste vitoriana com uma manga quimono em jacquard vermelho e preto e os tailleurs de jeans debruado de couro. A camiseta com o rosto de um samurai bordado é obra-prima que consumiu 22 mil cristais e foi desenvolvida na Áustria.
A Patachou também leva seu inverno para o Japão e China, olhando para os monges e as artes marciais, mas imprime nele um espírito folk-latino. O styling cuidadoso valorizou a pesquisa tecnológica e artesanal que tecem as peças da Patachou, mostrando uma mulher mais segura, que não tem medo de se destacar na multidão. Assim, ela cria sobreposições misturando peças em preto, marrom, vinho, pinceladas de branco, açafrão e chumbo. Tecidos hi-tech recebem bordados manuais de fitas de algodão ou de linhas pespontadas como os uniformes marciais. Saias vêm por cima de leggings de tricô amarradas na perna e os acessórios apostam em colares afro e brincos gigantes, dando um ar de Frida Khalo – a artista mexicana que foi casada com Diogo Rivera cujo filme biográfico vai ser lançado este ano no Brasil e tem Salma Hayek no papel principal.
A Forum parece mais contida, assimilando que os tempos não estão para vender a sensualidade que a marca costuma propagar. Sua mulher para o inverno busca uma elegância clean que depura elementos dos anos 70, como as túnicas, calças palazzo e saias franzidas – veja a saia camponesa-psicodélica com estampa floral em rosê, marrom e branco. Cetim, veludo de seda e musseline dão fluidez a tops e vestidos ombro a ombro, de manga comprida, sustentados por fiozinhos. Boa a estampa de oncinha em azul e rosa e as calças justas com boca franzida a partir do joelho.
A Iódice segue a tendência da temporada: anos 70, estampas de árvores e folhas, veludo cotelê, cores outonais (marrom, bege, rose) com preto e vermelho e jeans, é claro. Bom o tailleur 70’s de jeans.
Renato Loureiro deixou a platéia em silêncio absoluto na apresentação de sua coleção vampiresca-vitoriana. A alfaiataria austera, com a cintura no lugar, se combina a tricôs e georgete drapeados, ou capas de Drácula. Tudo em preto, vermelho e um pouco de roxo e branco. A delicada manga teia-de aranha do longo básico preto é um dos raros momentos de leveza do desfile.
Modabytes
@ Makes de destaque até agora: o olho listradinho, igual à colour bar da televisão, no desfile da Cavalera; a serenidade com adesivinhos de saturno e lua na coleção rococó-tech da G; e o olho-asa de sombra marrom da Zoomp.
@ Acertos dessa São Paulo Fashion Week: os atrasos estão bem menores e já mostram um controle da organização em busca de um timing civilizado, mesmo tendo mais desfiles por dia. Boa a idéia dos eucaliptos no chão dos banheiros inóspitos da Bienal – e tem até sabonete desta vez. Problemas: deu tilt o computadorizado sistema de catracas, que dá acesso às salas através do cartão magnético. Na entrada da Forum, a catraca recusava vários cartões como se eles já tivessem sido usados.
@ O modelo Tiago Gass aparece de vez em quando na SPFW, mas só na platéia. Seu contrato de exclusividade com a Christian Dior masculina, desenhada por Hedi Slimane, é mundial e vale para todo o ano. Nada de desfiles nem fotos para outras grifes.
@ Gafe? Thaís Losso, estilista da Cavalera, entrou sozinha ao final de seu divertido desfile para a Cavalera. Perdeu a boa oportunidade de agradecer a presença do astro Francisco Cuoco em sua passarela.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
Filmes inspiram coleção rococó-tech de Glória Coelho
O melhor desfile do 1º dia feminino da São Paulo Fashion Week – e forte candidato ao da temporada que termina amanhã no prédio da Bienal – foi o da estilista Gloria Coelho. Cinéfila apaixonada, Gloria faz uma colagem de seus filmes preferidos para o outono-inverno 2002. Os camisões brancos franzidos, que consomem 3 metros de algodão, saíram de “Entrevista com o Vampiro”. Sobre eles, vêm faixas-cintos ou pequenos casacos acinturados moldando o corpo com graça e elegância. Os jabôs e as calças justas, que alongam a perna, são tomados dos meninos de “Laranja Mecânica”, enquanto os modelos mais streetwear, com faixas amarradas, vêm da heroína virtual Laura Croft. O resultado final, segundo Gloria, é um mix de “Orlando” com a banda virtual Gorillaz e o artesanato escandinavo – um rococó-tech.
Sobre esta base street, Gloria propõe saias com quatros pregas triplas que, de tão pesadas, são seguradas internamente por um cinto. “São roupas versáteis com tecidos de alta tecnologia, que aguentam desde a caminhada matinal até a festa à noite – basta acrescentar uma peça”, diz Gloria em entrevista exclusiva ao Estado. Casacos 4-em-1 mostram um profundo estudo de zíperes, que criam faixa removíveis. Ou seja, de um casaco até o joelho pode-se fazer blazer, jaqueta, saia, compondo até um tailleur hi-tech. Laços e bordados arrematam os sapatos de sola medieval e também as meias ¾ usadas com novas corsários. O bordado consome 2.500 cristais e metais minúsculos por par de sapato.
No backstage, Gloria mostrava seu painel com referências de quadros do século 18 para as modelos. Dessas imagens do período de Luís 15, cada uma delas escolheu a atitude que tomaria diante dos fotógrafos, dando ao desfile um caráter ainda mais nobre.
Gloria Coelho veio para São Paulo aos 9 anos, depois de estudar num internato em Ilhéus, na Bahia. Aos 13 ela já fazia roupas com as amigas. “Eu acabava criando sempre tubinhos com gola rolê, bem anos 60”, conta. Estudou com artistas plásticos como Luiz Paulo Baravelli e José Rezende no Instituto de Arte e Decoração e tinha o apelido de Salim: “Vendia minhas camisetas lá e já negociava bem”. Seu 1º grande negócio foram camisetas-fralda com estampa de pijaminha de bebê: “Elas fizeram tanto sucesso que em três meses pude comprar um carro”.
Sua grife G, hoje Gloria Coelho, surgiu há 31 anos e é comercializada em 4 lojas em São Paulo, mais de 100 pontos no Brasil e 7 no exterior, em países como França, Itália, Líbano e Kuait. “Descobri que as mulheres árabes que são sustentadas pelos maridos gostam de ostentar, enquanto as que trabalham são como nós: mal têm tempo de pentear o cabelo e querem roupas práticas, que não amassam”, conta. Mas os modelos para o mercado árabe têm que ser adaptados: precisam ser mais compridos e ter a costura de acabamento (apesar de a tendência ser a roupa cortado no fio).
A segunda marca de Glória Coelho é a Carlota Joaquina, desenhada pela estilista Carla Fincato. Voltada para uma cliente mais jovem, com preços mais acessíveis, a Carlota acaba de se mudar para um show-room próprio, longe da “mãe”. O desfile de sua nova coleção é amanhã, fechando a São Paulo Fashion Week, evento que lança o outono-inverno de 21 estilistas e é aberto apenas a convidados.
Jeans com cara envelhecida já é hit do inverno
São as coleções femininas que mais agitam o mercado. Mercado de roupas, de modelos, de beleza, enfim, tudo o que gravita em torno da moda, uma indústria que movimenta no Brasil US$ 22 bilhões por ano, sendo a 2ª maior empregadora do país. E o 1º dia feminino da São Paulo Fashion Week teve um saudável combate de titãs, com 3 grandes marcas de jeanswear desfilando seus looks para o próximo outono-inverno: Zoomp, M. Officer e Ellus. Embora todas invistam numa imagem de prêt-à-porter, o melhor dessas passarelas ficou exatamente no jeans nosso de cada dia.
A Ellus, aliás, é a que melhor explora seu slogan “jeans de luxe”. A passarela de feno com arbustos suspensos de flores de papel vermelho traz meninas com botas jeans sete léguas usadas com microvestido de tricô com lavagem jeans, short jeans com legging paetada, trench-coat longo (com as mangas pra dentro, como uma falsa pelerine num bom truque de styling). Mas tem também a própria pelerine curta ou um ótimo poncho de jeans, com rico bordado de pedraria. Para compor com tanto jeans, valem peças de veludo cotelê largo ou couro marrom, envelhecido ou com desenhos em relevo.
A Zoomp desenvolve um ótimo jeans com cara de banho de lama: em vestidos acinturados, jaquetinhas, calças em A (ótimo o modelo abotoado na lateral) e até no tricô rústico. “Dentro da Zoomp, chamamos essas peças de jeans Nescau”, conta Renato Kherlakhian, proprietário da marca. Mas a proposta de uma coleção que enaltece os prazeres da conquista da caça com a sedução da mulher pássaro não se sustenta com as estampas no jérsei.
Já M. Officer parecia anunciar mais um vez festival pirotécnico de sincretismos ao batizar seu desfile de Mestiçagem. Mas para alívio dos fashionistas brasileiros, a passarela era limpa, no chão, sem nenhum dos inúmeros recursos cênicos que caracterizam as performances de Carlos Miele na passarela para dar mais apelo ao seu produto. No cabelo, trança afro de raiz para todas as meninas – incluindo as 4 modelos eleitas para sua próxima campanha: Caroline Ribeiro, Suyane, Ana Bela e Daniela Lopes. O jeans é a base dos primeiros looks em calças bem justas usadas com tops de búzios ou casaquinhos de fuxico do próprio jeans – uma idéia artesanal que ele tem trabalhado em parceria com a Coopa-Roca, a Cooperativa das Costureiras da favela da Rocinha, no Rio. Mas o jeans também pode ter a cara da estação, ou seja, gasto, sujo e envelhecido, tanto nos tons de oliva empoeirado quanto no novo blue jeans (que é amarronzado) com franjinhas desfiadas.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
SPFW Outono-Inverno 2002
A São Paulo Fashion Week, que vai até sexta-feira no prédio da Bienal, começou com os desfiles masculinos para o outono-inverno 2002. Muitas celebrities foram prestigiar o evento: as atrizes Giovanna Antonelli (que veio para o lançamento do filme “Avassaladoras” na cidade) e Mel Lisboa, a cantora Luciana Mello e o Senador Eduardo Suplicy, entre outros. Mas ninguém causou tanto frisson quanto a modelo inglesa Naomi Campbell, que apareceu (quase) de surpresa na platéia de Ricardo Almeida.
Naomi estava com top de oncinha de musseline, calça jeans e um bom crucifixo de brilhante. Foi ao desfile com o amigo Pedro Paulo Diniz e depois continuaram a noite no L, novo bar de Alex Botelho e João Paulo, irmão do piloto. Ricardo Almeida estava radiante e disse que a presença de Naomi pode ser o início de uma relação profissional patrocinada pela tecelagem Thomas Mason, cujo algodão está nas camisas de Ricardo para o inverno 2002.
Sua coleção masculina foi a mais clássica do dia, focando na elegância contemporânea. Ele opta por tons escuros como preto, marrom, petróleo e azul-marinho, em total look ou combinados entre si e dispensa completamente a camisa branca nos ternos e costumes de lã fria. Seus executivos mais jovens apostam com força no couro, tanto nas calças de proporções mais ajustadas quanto em blazers e jaquetas (que vão de modelos tipo camisa até os de motociclista light). Eles gostam da sobreposição de peças que inclui a camiseta de baixo aparecendo sob o terno completo, usado com a camisa desabotoada, sem gravata, informalizando o traje.
Alexandre Herchcovitch resgata algumas imagens de seu universo e propõe um homem menos streetwear, como o da coleção de verão, e mais fashion, com a cara do cliente de sua marca. Ele se debruça mais uma vez sobre o exercício das calças-saias que o acompanham desde o início de sua carreira. A meia-saia kilt já vem sobre a frente da calça ou ele sobrepõe aventais, saias e camisões às calças. Mistura alfaiataria e sportswear, como nas calças de moletom com padrão espinha de peixe. O resultado é um look romântico-utilitário, arrematado com galochas de lona de cano curto, médio ou até a virilha – aliás, a bota-fetiche 7/8 é um dos modelos preferidos de sua coleção pessoal de sapatos. Fitas refletivas correm pelas roupas, de preferência em intenso verde-limão. O jeans é superdesbotado, em azul ou cinza.
O desfile masculino da Ellus já está virando um clássico de altíssimo astral. Desta vez, a grife de jeanswear monta uma lavanderia self-service, a “Ellus Forever Young”, ao fundo da passarela e o modelo fica apenas de cueca e disc-man enquanto espera seu jeans ficar limpo. A coleção é pontuada por referências de uniformes: desde camisas de aviador até a jardineira cheia de bolsos para ferramentas e acabamos chegando a uma nova calça cargo, que faz todo o sentido. Casual, esse homem mistura veludo, jeans e couro, além de tecidos empapelados – tudo com aspecto envelhecido, gasto, lavado.
Inspirado no “homem que viaja”, Mario Queiroz abriu a 12ª edição do São Paulo Fashion Week fazendo sua 2ª participação no evento. Os modelos tinham cabelo crespo e ondulado, dando um certo ar rebelde. Queiroz aposta em jaquetas diversas (da versão canguru à camisa) e peças de couro natural stretch, além do jeans lavado. Entre as estampas, a caligrafia tirada de seu diário de viagens, com direito a “borrões” no caminho. Âmbar e o marrom predominam e toda a coleção leva o obrigatório “filtro” desgastado que deve dominar o inverno 2002.
Fause Haten diz que quer “levar elegância ao homem”. E elegância para ele são uniformes de inspiração safári-militar em versão de cetim. “É meu novo smoking”, avisa. Mas apesar de o cetim ter sido sucesso em algumas passarelas internacionais, esta é uma proposta difícil de ser assimilada. Sem medo de aparecer, o homem Haten aposta em laranja, amarelo e verde elétricos em sarjas e cotelês – e mostra que é bem nascido quando veste pulôver com o clássico padrão Argyl.
Modabytes
@ Thiago Mann já é o novo modelo mais falado da temporada. O gaúcho louro que já tinha despontado na Semana de Moda Casa de Criadores, na semana passada, foi descoberto quando trabalhava como empacotador de um supermercado de Santo Ângelo, sua cidade natal. Instalado em São Paulo, foi convocado para abrir e encerrar o desfile de Fause Haten mas, de última hora, também acabou indo para o casting de Alexandre Herchcovitch e Ricardo Almeida. E já tem gente de olho nele lá fora.
@ É tudo de bom o playground fashion-concretista criado por Bia Lessa para homenagear Lívio Ragan, que foi um dos grandes incentivadores da moda nos anos 60/70 à frente da Casa Rhodia. Instalado de frente à rampa do prédio da Bienal, ele tem gangorra, escorregador e trepa-trepa – tudo em branco e preto com frases de Ragan. Os pufes em forma de cubo, estampados com fotos da época, viraram objeto do desejo. Todo mundo quer ter um.
@ Está eleito o próximo lugar da noite paulistana: o Rubi, novo empreendimento noturno de Renato De Cara (um dos idealizadores de bons momentos dos últimos anos, como o Cha Cha Cha e o Bar do Hotel) e do arquiteto Arthur de Mattos Casas. O clube abriu com um coquetel para Alexandre Herchcovitch na segunda-feira e ganha soft opening hoje, com o Carlos Soul Slinger, brasileiro radicado em Nova York, nas picapes. Além de DJs variados, o Rubi também vai ter em um palquinho intimista shows de vertentes modernas. O clube fica no Itaim, no antigo Kosushi.
@ A São Paulo Fashion Week ganha pela segunda vez uma trilha sonora oficial, em forma de uma compilação de música eletrônica chamada “SPFW.02”, lançada pela Trama. No 2º volume, que tem capa com 4 opções de cores da bandeira do Brasil, o destaque é o produtor Mad Zoo, um dos maiores talentos do Brasil, que já fez remixes internacionais do Morcheeba e Moloko. Pioneiro do techno, trip hop e drum-‘n-bass, ele assina 5 faixas do disco, sob o nome de Technozoide, todas imperdíveis. Ele vai fazer um set como DJ no lounge da Trama na sexta-feira, às 18h.
@ Daniel Klajmic fotografa no fim de semana a nova campanha da Rosa Chá, que terá a top brasileira Fernanda Tavares. Fernanda não pôde vir para o desfile de hoje de manhã (fora da SPFW) porque está fotografando no Marrocos. A moça desembarca sexta em São Paulo, via Paris.
@ A revista inglesa “Arena Homme Plus” está chegando ao Rio. O editorial vai ser clicado por Mikael Jansson e a carioca Gilda Barbosa é quem cuida da produção executiva.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Guto Barra)
Inverno 2002 deve exaltar a paz
Começa hoje a São Paulo Fashion Week, principal evento de lançamentos do país, mostrando as tendências para a próxima estação
Os homens abrem a porta para o outono-inverno 2002 na São Paulo Fashion Week, que começa hoje no prédio da Bienal no parque do Ibirapuera com 5 coleções masculinas entre os 25 desfiles que serão apresentados até sexta-feira, no evento orçado em R$ 4 milhões. As novas coleções são as 1ªs a terem sido criadas depois dos atentados de 11/09 e devem apontar para um espírito mais romântico e pacificista, que tem no estilo folk-hippie um grande ícone.
Esta edição começa com uma boa notícia. A partir da próxima temporada, além dos desfiles de moda praia, mais dez estilistas estarão presentes ao evento, intensificando a maratona fashion. Os eleitos pela Câmara da Moda – composta por 5 jornalistas, 5 estilistas e Paulo Borges (organizador da SPFW) – são Jorge Kaufmann (por unanimidade), Lorenzo Merlino, Jum Nakao, Caio Gobbi, Vide Bula, Rodrigo Fraga, V.Rom e Poko Pano, além de Icarius de Menezes e do argentino Pablo Ramirez que estão avaliando questões operacionais antes de assumir o novo compromisso.
Outro passo que está sendo discutido é a sincronia entre os desfiles de São Paulo e Rio, que passariam a ser seqüenciais a exemplo do que acontece no circuito internacional. Outra boa notícia é que mais um brasileiro vai estrear em Paris (os outros são Alexandre Herchcovitch e Icarius). O estilista Walter Rodrigues está entre 20 nomes selecionados pela Maison DuPont no mundo todo para desfilar em março na semana de prêt-à-porter.
Quem for a SP Fashion Week, que é aberta apenas a convidados, terá oportunidade de ver, além dos desfiles, uma exposição de sapatos históricos como a chuteira de Pelé no milésimo gol e outra sobre Lívio Ragan (espécie de Paulo Borges dos anos 60, que alavancou a moda nacional com desfiles e eventos para a Casa Rhodia). Entre os patrocinadores, a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) promove um fórum de debates sobre moda, discutindo temas como criação, negócios e comunicação.
AS COLEÇÕES
Na 1ª foto à esquerda, Marcelo Sommer mostra em primeira mão para os leitores do Estado um look de seu desfile. O estilista dá continuidade à bem-recebida coleção house-barroco deste verão e apresenta “roupas de época”. “Várias épocas, com ênfase nos séculos 16 e 18”, diz. Ele adianta que escolheu tecidos de decoração (como os usados em revestimentos de sofás e tapeçaria). Entre as cores, estão o rosa-chiclete, vinho, bege e “um pouco de verde”. “Não consigo fugir do verde”, diz.
Tufi Duek prefere manter suspense sobre a coleção da Forum que ele lança quarta-feira. Mas antecipou para o Estado o inverno 2002 da Triton. Segundo ele, a Triton usa “a inocência e o romantismo do universo infantil” como inspiração para a estação, trabalhando com tons de rosa, roupas de boneca e estampas de bolas, gatos e flores.
Reinaldo Lourenço diz que o filme “Shakespeare Apaixonado” foi sua grande inspiração e que o desfile vai “fugir das cores”. O estilista acaba de fechar contrato para a criação de uma linha de jóias com a Denoir, tradicional fabricante do setor. Gloria Coelho diz ter buscado inspiração em “uma certa camisa branca” que ela trabalha sob influências diversas como a banda inglesa de animação Gorillaz, a estética cyber e o filme “Orlando”. A coleção usa cores como branco, azul, gelo, preto, vinho e bege. Já a Patachou transita por elementos das culturas japonesa e chinesa, mesclando sportswear e artes marciais.
Herchcovitch também não gosta de antecipar detalhes sobre seus desfiles. O estilista, que lança quinta à noite um livro sobre seu trabalho, diz que a tragédia dos atentados de 11/09 afetou seu trabalho. “Comecei a questionar o papel da moda: o meu trabalho é fazer com que as pessoas não deixem de consumir a moda”, diz. “Essa é a minha guerra: mostrar que a moda é importante, que tem um poder maior do que a gente imagina.”
Lilian Pacce para o Estado de S.Paulo (colaborou Guto Barra)
O movimento da moda brasileira
O movimento da engrenagem da moda brasileira fica mais forte a cada estação, com os lançamentos se concentrando dentro de uma única lógica: a do mercado. É muito bom ver jovens estilistas abrindo a temporada outono-inverno 2002, e é melhor ainda ver a moda chegando à televisão com uma cara verdadeira, de indústria forte e pólo criativo, sem caricaturas. Foi assim que começou domingo a nova temporada fashion. Seis jovens estilistas do Projeto Lab mostraram suas coleções com todo o elenco de “Desejos de Mulher“, a nova novela das sete, na primeira fila e algumas atrizes na passarela – afinal, o evento foi o local escolhido para a festa de lançamento da própria novela. Em seguida, durante 3 dias 13 estilistas mostraram suas coleções dentro da Semana de Moda – Casa de Criadores, que comemorou 5 anos nesta edição apresentada em um galpão ao lado da Ceagesp. E segunda-feira começa a São Paulo Fashion Week onde 25 grifes mostram seu inverno 2002 até sexta-feira que vem.
O jeans é vedete entre os jovens estilistas da Semana de Moda – talvez influenciados pela bem-sucedida parceria internacional entre a Levi’s e o criador japonês Junya Watanabe. A última coleção de Junya mostrou um jeans com aspecto vintage, anos 70, de lavagens sujas e envelhecidas, misturado ao espírito alta-costura, em vestidos impecáveis. E no fundo o que a gente mais precisa na vida é de um bom jeans – basta ver o sucesso da calça bordada da Gucci e do modelo desfiado da Dolce & Gabbana nas últimas estações, ambos reproduzidos no mundo todo, sem falar no eterno básico “five pockets”.
Se a moda hoje inspira esse tom vintage (uma boa roupa usada resgatada graças à sua qualidade), a estilista Giselle Nasser, de 24 anos, o interpreta em calças de sarja com cara de couro, em tons desbotados de cinza, verde e berinjela. Os tops podem ser levíssimos, de gaze de algodão com rendinhas aplicadas, ou pesados, como os casaquinhos de patchwork orgânico que misturam lã, cadarço, trança e sutache em fios trabalhados em curvas, em tons de salmão. “Pra mim, as texturas da coleção remetem à ninfas da floresta”, diz Giselle, que se inspirou na Irlanda e na cultura celta. O macramé de fios multicoloridos é outro artesanato valorizado por ela, em vestidos usados sobre calças com casaco jeans pelo joelho. O resultado é romântico e inocente, bem de acordo com a tendência folk-hippie que vai predominar na estação.
Outro jovem que se destacou foi Eduardo Inagaki, de 23 anos, que aplica o que ele define como “conceito unissex” em modelos de costas vazadas e gola marinheiro, usados ou não sobre tops, com saias de tricô pesado de lã, bem artesanais. A cartela de cores é leve e alegre, prometendo um inverno luminoso em pink, amarelo e azul-claro. O perfil em traço – uma estampa que ele trabalhou na temporada passada, quando estreou na Semana – vem agora com bordados e espelhinhos em vestidos-camisetões.
Lorenzo Merlino, que foi um dos estilistas votados pela Câmara da Moda para entrar na próxima São Paulo Fashion Week, aposta no veludo cotelê para criar uma mulher feminina em terninhos secos que podem ter a cintura da calça no mesmo tecido da camisa, misturando marrom, preto e verde. Os sapatos vintage são customizados com bordados de pedrarias. Chic e confortável a estola de couro que vem com bolso embutido.
A grande surpresa da Semana ficou com a A Mulher do Padre, a AMP, que deu um salto em seu processo criativo. Embora suas raízes college-clubber estejam presentes, o estilista Vinícius Campion explora novos caminhos. Ele transforma os franzidos dos sacos de lixo em bons modelos drapeados de couro sintético preto ou de algodão verde-chiclete. Até o vídeo que sempre acompanha seus desfiles, rodado por ele mesmo, vem menos trash procurando mostrar um personagem excluído “que fica de fora da platéia da Semana de Moda e de quase tudo”.
A V. Rom, da dupla Vitor Santos e Rogério Hideki, foi o destaque das coleções masculinas. Ela amplia sua linha e vai do moletom de poliamida ao costume de alfaiataria, com paletó mais curto – tendência no masculino. Pequenos recortes fazem a diferença das calças e o cetim de náilon azulão grita em jaquetas e calças. O visual é fashion sem ser victim, com um pé na realidade que pode ser a da vida noturna ou do homewear de pijama.
A Maria x Madalena, recém-criada por Guilherme Mata, de 39 anos, que foi um dos assistentes de Tufi Duek, estreou na Semana com um delicado trabalho de picotes vazados em forma de losangos, em tecidos molengos como malhas e jérseis, e boa combinação de cores: manteiga, marinho, vermelho-sangue e verde-claro.
No Projeto Lab, a atriz Silvia Pfeiffer participou da apresentação retrô-futurista de Tony Jr., Cris Couto desfilou para a Mg 5 e Mel Lisboa para Simone Nunes, que foi uma das revelações da temporada passada. Para o próximo inverno, Simone sobrepõe referências infantis, como o cavalo dos macacões de bebê, à violência do Holocausto, como as mangas que um dia foram casaco e que vêm amarradas na cintura de Mel Lisboa. Mas o melhor do Projeto Lab é a estilista Karlla Girotto, que trabalha com Reinaldo Lourenço e se destacou mesmo sem ter nenhum global em sua passarela. Sua silhueta se define a partir do pescoço, emoldurado em lãs torcidas, estolas e golas volumosas, de onde descem vestidos amplos em tons de cru, cinza, azul (claro ou royal) e beges. Drama puro a entrada final das 3 pernas de carneiro.
Lilian Pacce para o Estado de S.Paulo



