O utilitário-renascentista de Reinaldo Lourenço
A coleção utilitária-renascentista do estilista Reinaldo Lourenço foi o grande destaque do último dia da São Paulo Fashion Week, que mostrou 25 desfiles para o outono-inverno 2002 durante 5 dias no prédio de Bienal. Reinaldo gosta de ser moderno e o prazer de exercitar sua criatividade rascunhando o futuro transparece em cada look do desfile. Seu inverno dá continuidade ao elaborado trabalho do verão (dos bordados de sutache e das placas de metal sobre calças e vestes de algodão lavado) ao mesmo tempo que mergulha numa pesquisa renascentista que ele funde a elementos utilitários e esportivos.
Reinaldo consegue dar elegância a um enorme mochilão da mesma cor da roupa (cinza-preto, marfim, azul-claro), usado sobre modelos de manga mouton que, seguindo o estilo da época renascentista, pode se soltar da roupa por lacinhos ou botões de pressão. Consegue ser delicado até nos ricos bordados que aplica às golas altas e aos casaquinhos tipo tapeçaria, valorizando o artesanal num novo olhar de luxo que também trabalha malhas hi-tech em formas mais amplas e volumes drapeados.
Ronaldo Fraga inova mais uma vez na forma de apresentar e questionar a moda. Lança sua coleção “Corpo Cru” com convite que vem em bandeja de isopor com uma foto de carne crua. Na passarela, em vez das curvas vivas das modelos, uma estrutura de ferro com roldanas faz passar manequins de madeira com as roupas da coleção. Uma coleção com as cores da pele e da carne – crua, cozida ou torrada –, aplicações e estampas de peitos, células e sangue.
Na platéia, o diretor de teatro Gerald Thomas se deleita com o inusitado. E até quando as roldanas emperram, Fraga dá sorte. A falha cria uma coreografia ruidosa, de vaivém, ao som de um tango argentino. Mas a elaboração das roupas é silenciosa. Modelagens simples, formas evasê e mangas 7/8 que apagam de fato o corpo que pretendem cobrir. A vaidade de Fraga e de sua cliente é intelectual, consciente de que o mundo “não precisa de mais um coleção ou um desfile”, embora saiba que um dos grandes papéis da moda é refletir uma época e é por isso que não vivemos sem ela.
Já André Lima trabalha em outra esfera, a do corpo em si, da mulher sensual que no fundo é uma romântica à moda antiga, que se tranca no quarto para ouvir o que se chamava de música de fossa, como os hits de Roberto Carlos ou Elis. Seus vestidos de cetim trocam o viés pelo corte reto, com babadinhos ou renda, sob casacos de veludo cotelê ou jeans. Boas as flores recortadas sobre os vestidos, a estola-casaco de lã com plumas e a camiseta com a foto da própria Coco Chanel. Já a estampa do colar de pérolas, apesar da alusão à mademoiselle Chanel, hoje é Cacharel demais.
Lino Villaventura continua um craque no trabalho artesanal, seja no tecido com quadradinhos de cristal da calça ampla, seja nos bolerinhos feitos em tear manual, quase sempre em preto ou branco, com um pouco de marrom, vermelho e vinho. Seu estudo de leques – da forma semicircular às dobraduras e nervuras – encontra o equilíbrio nas delicadas camisas transpassadas. Boa a beauty à Frida Khalo.
A jovem Carlota Joaquina vem relaxada, brincando com franzidos oversize em macacões e calças saruel-street, túnicas à Robin Hood, ponchos, pelerines e amarrações sobre botas. Em rosê, cinza e bege, ela aplica pássaros ou borda borboletas em falsos ponchos em tecidos leves que imitam o feltro.
Modabytes
@ Radicado em Nova York, o fotógrafo Vavá Ribeiro assina novamente a próxima campanha da Ellus, que está sendo clicada numa fazenda perto de São Paulo e tem a escritora Fernanda Young como musa. Vavá é um dos nomes que está despontando lá fora e seu trabalho ganhou exposição na badalada Colette, de Paris, no final do ano.
@ Agora em carreira-solo, Carlos Ferreirinha, grande responsável pela bem-sucedida performance da luxuosa Louis Vuitton no Brasil, está articulando projetos com a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) e com o estilista Fause Haten, além de investir na parceria com o estilista carioca Carlos Tufvesson. O trunfo de Ferreirinha é conhecer tão bem o mercado interno quanto o externo.
@ Depois do DJ francês Michel Gaubert, Reinaldo Lourenço desenvolveu a trilha de seu desfile com o produtor musical e DJ Giancarlo Lorenci, da Trama, mixando rock’n'roll e música medieval, com cítaras e instrumentos de época. Outra boa parceria de Reinaldo foi com a vodca Absolut, que criou uma passarela especial de acrílico rosa espelhado.
@ Para não atrapalhar a animação da festa no terraço da Bienal, Alexandre Herchcovitch entregava um cadeado com chave para cada comprador do livro sobre sua trajetória que ele está lançando pela Cosac & Naify. O autógrafo era uma coleção de carimbos com “valores” que ele preza: dinheiro, família, saúde, diversão e muito mais.
@ Assíduo na cobertura dos desfiles internacionais, o fotógrafo Fernando Lousa descontraiu a platéia do desfile de Fause Haten com “avisos” em seu megafone. Em Paris, os italianos são os mais bem-humorados do podium de fotógrafos.
@ A parceria dos estilista com empresas grandes têm rendido bom resultado nas coleções. Prova disso são os brindes da temporada, como o Conga de Ronaldo Fraga, o fio de pérolas de André Lima, a camiseta de Reinaldo Lourenço e a bolsa em jacquard de Marcelo Sommer.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
SPFW Outono-Inverno 2002
Num desfile elaborado, elegante e ao mesmo tempo provocativo, Alexandre Herchcovitch se destacou entre as coleções apresentadas quinta-feira na São Paulo Fashion Week, num dos grandes momentos de sua carreira. Acostumado a cobrir o rosto das modelos, desta vez elas começaram o desfile com a cara limpa que ia ganhando risquinhos até ficar com o rosto totalmente coberto de preto – obra de Celso Kamura, que é também o make-up artist da prefeita Marta Suplicy.
No tablado de madeira em desníveis, as meninas vinham com cabelos levemente desgrenhados pisando em botinhas de gobelin com sola verde-limão, dando a tônica de toda a coleção: a comunhão do novo e do velho, do fausto e da simplicidade.
Herchcovitch trabalha formas pomposas e opulentas – como os saiões sustentados por tule, ou os fraques com cauda interna drapeada – em tecidos de streetwear como o jeans bem lavado, malhas leves, fleece e moletom. Ao mesmo tempo, cria um gobelin (tecido de tapeçaria criado pela família homônima no século 15) com desenho da floresta amazônica, que mistura tucanos e caveira (sua 1ª marca registrada), em jaquetinhas básicas e calças utilitárias. Ou cria um avental-jardineira risca-de-giz usado sobre tutu de tule, legging e camiseta bicolor. Sua astúcia está exatamente na harmonia de tantas sobreposições de cores e peças que resultam num look fresh e forte.
O estilista Marcelo Sommer também vive um bom momento. Seu tradicional casting de não-modelos se soma agora a crianças, para quem ele está lançando uma lúdica e deliciosa coleção de roupas em parceria com a marca de brinquedos Estrela. A fusão de épocas e estilos também aparece aqui, na coleção batizada “De Épocas”. Com muito verde, rosa e marrom, Sommer também recorre à tapeçaria e aos papéis de parede em padronagens de vestidos tomados da história, seja Maria Antonieta ou rainha Vitória, e brinca com motivos de porcelana em cintos e corselets, que mistura a peças de jeans e moletom, com direito a corações aplicados e foto de labrador.
A Triton também recorre ao universo infantil e faz um desfile praticamente monocromático apostando num tom do inverno: o rosê. Sua cliente é uma lolita sapeca e romântica, que adora franzidos e babadinhos, de preferência numa sainha bem curta ou nos decotes de alcinha arrematados com pompom. Até os bodys de lycra e o jeans ficam românticos, com estampa ou aplicação de tulipas.
Fause Haten criou um ambiente de alta-costura em sua sala, decorada com rosas colombianas brancas. Ele usa melhor no feminino sua versão noite dos uniformes militares. Preto e branco predominam, com um pouco de amarelo. Flores gigantes arrematam golas de paletós e camisetas. O cetim vem em peças inteiras ou apenas em babados e lacinhos de vestidos e casacos de veludo, lã ou vinil, mostrando que o foco do estilista é mesmo o mercado de luxo.
Gisele
Passou o trauma de Gisele Bündchen. Depois de anunciar que não queria mais desfilar nas temporadas de prêt-à-porter, a gaúcha Gisele volta ao circuito internacional dia 13 durante a 7th on 6th, a semana de moda de Nova York que, aliás, é propriedade de sua agência, a IMG. Vai prestigiar a estréia nos Estados Unidos da grife Balenciaga – que foi comprada recentemente pelo grupo Gucci e voltou a ser referência fashion desde que passou a ser desenhada por Nicolas Ghesquière – e vai fotografar um editorial especial para a revista inglesa “The Face“.
No final do mês ela viaja para Milão onde, além de desfilar para seus “padrinhos da moda”, a dupla Dolce & Gabbana, deve fazer também Missoni e Versace. Dali, segue finalmente para Paris onde pensa em voltar à passarela de Christian Dior, para quem ela estrela a campanha de publicidade. Gisele também pode ser vista nas campanhas da Victoria’s Secret, cujo contrato vai até 2005, Bulgari e Dolce & Gabbana.
Mas antes de voltar a brilhar com seu andar único, em X, que cruza pé diante de pé, a ubermodel vai aproveitar um único dia da folia de Carnaval nas ruas de Salvador. Afinal, já está 99% certa a renovação de seu contrato com a C&A que, numa pesquisa de mercado, comprovou o que todo mundo já sabia: ela é a única modelo conhecida por 98% dos brasileiros.
Mercado
Esta edição da São Paulo Fashion Week marca um momento delicado para a moda brasileira por dois motivos. Primeiro, dentro do contexto de globalização, sofre as conseqüências econômicas e psicológicas da crise provocada pelos atentados terroristas. Não é por outra razão que roupas com cara envelhecida, desgastada ou suja são tendência (nem pense em sair tinindo como ouro), assim como babados românticos e um pouco da austeridade vitoriana.
Segundo porque, olhando o próprio Brasil, a crise interna continua ao mesmo tempo em que passou a euforia inicial dos estrangeiros causada pelo fenômeno Gisele Bündchen – que, num efeito dominó, estabeleceu uma estética sexy, tão bem representada pelas modelos brasileiras, e despertou curiosidade internacional sobre o País. Jornalistas e compradores vieram para cá ansiosos por descobrir tudo de bom: da moda feita pelos estilistas ao Carnaval e à caipirinha. Seduzidos pelo que encontraram, eles abriram espaço para nós na mídia internacional e o Brasil virou objeto de desejo.
Passada a inércia inicial, chegou o momento de apostar sério e mostrar que a imagem não só é bela como também tem consistência e conceito. Ou seja, no inverno 2002 o desafio da moda brasileira é melhorar sua perfomance para se estabelecer de fato no circuito internacional. Com roupa, sem oba oba.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo



