21.07.2002 às 7:27

Balanço da primavera-verão 2002/03 do SPFW: relax!

Enquanto o Rio dá a largada hoje à sua temporada de desfiles de primavera-verão 2002/2003, São Paulo faz o balanço dos lançamentos que terminaram sábado no prédio da Bienal. Vem aí uma silhueta mais fluida, de proporções mais relaxadas – seja nas calças oversized, quase sempre com muitos bolsos utilitários, seja em túnicas transparentes de georgete e seda, beneficiados sempre com as últimas novidades tecnológicas, usadas de preferência com cigarretes e corsários.

Dos 38 desfiles da temporada, a Cavalera brindou a platéia com o show mais divertido. Com seu humor debochado, a grife do deputado Turco Loco pôs os convidados da primeira fila sentados em frente a mesas alinhadas à passarela, recriando um júri como o dos programas de auditório que fizeram história na televisão brasileira, com nomes como Dercy Gonçalves e Pedro de Lara entre seus jurados.

A Cavalera, desenhada por Thaís Losso, mergulha na cultura black influenciada por uma viagem da estilista a NY, onde visitou pela 1ª vez o bairro Queens com o rapper Ice Blue, dos Racionais MC. Com cabelos rastafári ou black power e muitos acessórios dourados, os modelos trazem estampas de Diana Ross, Grace Jones e das mulatas de Sargentelli, além da brincadeira com o personagem Mussum em tons de verde, pink, laranja fluo e azul-royal. As meninas gostam de minissaias à Tina Turner ou calças oversized presas no tornozelo, que ficam bufantes como o jeans claro manchado de rosa. É roupa sem pretensão, exaltando mais uma característica da terra brasilis neste momento de ufanismo fashion: as raízes negras.

Lino Villaventura faz a coleção mais etérea, em vestidos vaporosos e sensuais delicadamente bordados, em cambraias e sedas. Inspirado na obra do artista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e sua musa Emilie Floge, Lino explora os vestidos soltos do início do século 20, quando acabou a ditadura do corselet, tornando-os abusados em decotes generosos e recortes reveladores.

Na Carlota Joaquina, os anos 80 continuam a ser referência forte. Só não ficou completamente repetitivo graças à vibrante apresentação ao vivo da banda punk-rock 7 Magníficos, do multimídia Tomas Spicolli, namorado de Carla Fincato, a estilista da marca. Jaquetas e camisetas se transformam em microvestidos retos, com recortes e patchworks nas cores da coleção: amarelo claro, laranja, azul, uva e cinzas. A estampa e os acessórios trazem sempre um avião que, ao contrário de que se poderia imaginar, não tem nada a ver com os atentados do 11/09 nos EUA há quase um ano. É que Carla teve seu showroom em Moema nos últimos meses e ficou traumatizada com o tráfego de aviões.

Coube ao estilista Marcelo Sommer, agora sócio do empresário João Paulo Diniz do grupo Pão de Açúcar, o último desfile da SPFW. Sua primeira fila se sentou em mesas redondas ao longo da passarela, como se fosse um baile no salão de piso quadriculado colorido, com luminárias idem e estampas ibidem. Com o tema Cama, Mesa e Banho, ele explora jacquards e piquês em calças secas afuniladas ou microvestidos-trompete, misturando estampas figurativas, como a vaquinha desfilada pela apresentadora Fernanda Lima.

Fause Haten, único estilista a desfilar fora da Bienal, rejuvenesce sua marca ao misturar o universo das garotas skatistas, incluindo a participação da new face Savana em manobras discretas, ao mundo da lingerie, em sutiãs de bojo dos anos 50 e tons de pele. Materiais nobres como o cetim vão parar em peças esportivas, como uma bermuda dourada tipo cargo, enquanto o georgete aparece misturado com jeans em saias de comprimento pelo joelho. Pequenos blazers, de cobra ou dourados, lembram a exuberância que marca o estilista.

Depois do hiato de uma temporada, a marca argentina Trosman Churba, única não-brasileira a participar do evento, volta com uma moda bem mais acertada. O tom minimalista aparece no bom trabalho de couro amassado branco em paletós e vestidos curtos (desfiados na barra), com faixas na cintura e blazers relax, e nas bolinhas fundidas sobre o tecido. Muito preto, cáqui e branco.

A 1ª vez

Saído da cena club paulistana, Caio Gobbi se destacou em eventos alternativos por seu trabalho com jeans. Nesta estréia na SPFW mostra um bom domínio do material na coleção inspirada na cantora Gwen Stefani, do grupo pop californiano No Doubt. Premiada por seu estilo, a contribuição de Stefani para a moda é como a de Madonna no início da carreira – a adoção de peças baratas do dia-a-dia, como regatas de telinha e tops de biquínis. O jeans nervurado aparece em blazer-colete com zíper frontal, jaquetas com manga desfiada, corselets bem moldados e calças de proporções folgadas. Uma das peças mais criativas é a parte de cima de uma jardineira que, destacada da parte debaixo, se transforma em colete-mochila. As garotas ganham também t-shirts pink ou laranja flúor com longas franjas que, no final, viram um poncho no look desfilado por Adriana Lima, nas cores do cabelo da musa Gwen Stefani.

A Vida Bula foi a única marca nova no segmento jeanswear. E em sua estréia a marca mineira demarca claramente seu território: uma moda comercial e mais teen do que a de seus grandes concorrentes. Uma rua com postes de madeira de luz, bem interiorano, é o cenário para jeans manchados, tops de crochê em tons degradês de jeans e camisetas com coqueiros e motivos religiosos, rebordadas com paetês dourados.

Também em sua primeira vez na SPFW, a Poko Pano segue a tendência de unir trabalhos manuais e alta tecnologia em seus biquínis e maiôs de estampas africanas, que têm a cantora Lauryn Hill como musa, na trilha e no look das modelos. A novidade são os tecidos com aplicação de Teflon, o mesmo das panelas. O resultado é que os biquínis parecem lisos quando estão secos, mas revelam estampas quando molhados. Ao diminuir o atrito com a água, o Teflon também é boa notícia para nadadores.

A apresentação masculina da Forum foi bem mais contida e discreta do que a festa carnavalesca da coleção feminina. O Carnaval fica restrito a uma ou outra estampa temática e, em uma referência de época, às camisas brancas de cambraia com paetês bicolores. O homem da marca é casual na maior parte do tempo e, como o viajante cosmopolita que ele se define, carrega sempre uma grande bolsa.

Reinaldo Lourenço traz um homem feminino, maquiado e com cabelo de chapinha, que disfarça sua identidade sob o boné bordado de cristais. A calça de gancho largo vem com paletó seco sobre a regata (básica ou bordada com plaquinhas de metal, paetês ou cristais). É uma proposta contemporânea e também ideal para o clima dos trópicos. No final, o estilista incorpora a irreverência de John Galliano e interpreta caras e bicos na boca de cena.

Rodrigo Fraga, outro estreante da SPFW, mostra a coleção masculina “Liberdade” exaltando as formas oversized. A mesma modelagem aparece também em um macacão tipo frentista de posto de gasolina e calças inspiradas tanto no skatewear quanto no sportswear, como as de náilon preto com tela sobre o amarelo.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Guto Barra)

19.07.2002 às 5:11

SPFW primavera-verão 2002/03: momento ufanista

Alexandre Herchcovitch, Forum e Gloria Coelho fizeram da quinta-feira na São Paulo Fashion Week um dia de imagens fortes. A emoção toca diferentes partes do corpo e as imagens corroboram ainda mais para este momento ufanista da moda brasileira. Essa sensação foi seguida por André Lima, Renato Loureiro e Fause Haten, além da comercial moda praia da Água Doce, cujo ponto alto foi a presença da top tcheca Karolina Kurkova na passarela. O evento, que lança 38 coleções para a primavera-verão 2002/2003, termina hoje no prédio da Bienal.

O leve perfume de universo infantil – ou seja, alegria e inocência – da estação passada (Chapeuzinho Vermelho), vira 100% referência na coleção de Herchcovitch, um estilista que adora parques de diversão. As peças são absurdamente coloridas. Os tons saem de desenhos como “Meu Pequeno Pônei”, “Ursinhos Carinhosos” e “Teletubbies”: rosa, roxo, verde e azul manchados em tie-dye, combinados em patchwork de new-pierrôs ou em cascatas frufrus, misturados a marrom, cinza e preto e, finalmente, arrematados por faixas de arco-íris. Às vezes fica hippie, às vezes, Carnaval (Rio ou Veneza), mas a imagem é sempre fresca, como os alvos coloridos pintados sobre o chão branco onde, ao final, ele e as modelos brincam de roda.

O sutiã do biquíni, desleixadamente solto sobre tops, remete tanto a uma brincadeira infantil como a uma abusada noite de farra. Na alfaiataria impecável, como o terninho branco, o blazer é vazado nas laterais e as jaquetas têm acabamento elástico. Junto com as calças de sarja ou algodão, o conjunto tem forte espírito sportswear, com bolsos utilitários e tiras afiveladas na perna.

Se Herchcovitch diz que não pensou em Carnaval, Tufi Duek da Forum consegue momentos de apoteose em sua passarela, que terminou com a bateria da Viradouro acompanhando a top Adriana Lima como musa de escola de samba. Com cenário de Joãosinho Trinta, as modelos vêm em altas plataformas douradas e muitos adereços criados em parceria com Henrique Filho – é o sambódromo mostrando sua habilidade couture de fazer inveja a Lésage, mestre francês na arte do bordado.

Tirando as plumas e paetês, ficam vestidos de cetim de seda com mangas-asas plissadas, as calças de sarja sequinhas e baixas, os tops amarrados por fitinhas-fetiche nas costas, macaquinhos e bustiês. Ao final, Tufi e Joãosinho Trinta comemoravam o sucesso da simbiose passarela do samba/passarela da moda.

Depois de tanta festa e samba no pé, parecia difícil que o último desfile do dia fosse capaz de impressionar. Mas a G de Gloria Coelho soltou uma corredora pela passarela e abriu o desfile com sua nova linha fitness, de microfibra stretch e sem costura, que tem como acessório desdobramentos do cinto-trapézio de velejadores. A peça de tiras se transforma em tops, mochilas, barrigueiras, num ar bem esporte-utilitário com papetes pontudas medievais.

Com o corpo em forma, a mulher G parte para o romance e se enfronha de Brumas de Avalon. Pendura dezenas de laços na saia mais curta de náilon de seda, usa gargantilha de rosas, bloomer de algodão com linhas (des)bordadas. Ecléticas, as casaquinhas shakespeareanas têm manguinha bufante removível e corte impecável. Cores: branco, bege e pretos (verde-preto, marinho-preto, marrom-preto).

Renato Loureiro, por sua vez, mistura anos 40/50 com 80 em uma coleção que propõe “um novo olhar sobre o velho”. O estilista mineiro, apaixonado por formas japonesas, desenvolve uma identidade mais brasileira ao fazer patchworks de tecidos artesanais e tecnológicos, sempre envelhecidos por meio de tingimento com chá e banhos de jatos de areia, com cara de lingerie antiga, manchada pelo tempo em que ficou mofando na gaveta.

Ao som de big bands, mostra um verão em tons de bege e dourado que tem peças de espírito conservador e releitura moderna. O top com manguinha bufante tem acabamento destruído, enquanto o chemisier mistura estampas ou bordados de paetê de inspiração mexicana que produzem efeito fresco, principalmente nos tecidos de tear. Neste trabalho consistente, sintozinado com o desejo global pelo vintage, as proporções são classicamente femininas, com cintura sempre marcada. Tudo com muitas jóias de ouro.

André Lima mostrou uma boa evolução em relação a seus desfiles anteriores no SPFW, mas podia ter dispensado o túnel preto no meio da passarela. Inspirando-se nos anos 70 e 80 e em personagens como Sônia Braga e Secos & Molhados, o estilista fez um desfile de excessos recheado de frente-únicas, túnicas, ponchos e pantalonas.
Sua moda, sem dúvida, é para mulheres que querem estar em evidência. As estampas são enormes e coloridas. As cores vão do violeta ao alaranjado, passando por açaí, cru e marrom. Algumas das peças vêm “envelhecidas”, como manda a temporada. O melhor são as camisetas pretas desbotadas com a estampa de Maria Bethânia misturadas a sedosos vestidos de noite e peças de macramé franjadas.

Único estilista a se apresentar fora da Bienal, Fause Haten mostrou uma coleção masculina muito mais casual do que a de inverno, em uma apresentação ao ar livre no vão do MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) prejudicada pelo frio e garoa. Ao som do pop-rock pesado do Foo Fighters, o estilista trabalhou bem a variedade de calças, que vão desde o jeans rasgado e manchado, tipo sujo, ou em versão delavê, até os siliconados em prata e dourado, passando por modelos tipo cargo. As bermudas, que aparecem em modelos esportivos, de proporções relaxadas, ou em versões urbanas mais secas, têm o comprimento sempre abaixo do joelho.

Para complementar, t-shirts de telinha, camisas com estampas coloridíssimas com ilustrações gigantes ou cardigã de manga curta. Para o cliente mais arrumado, ele aposta em paletós e jaquetas de jeans delavê e camisas tipo smoking. Investindo no co-branding, ele lança as Havaianas Trekking (com tira regulável no calcanhar), cuecas Zorba e dá continuidade aos óculos com a Fotoptica. Em setembro, Fause vai realizar seu 1º desfile em Milão, na semana de prêt-à-porter feminino.

Lilian Pacce

18.07.2002 às 7:05

SPFW primavera-verão 2002/03: biquíni-jóia e vestido-bijoux

Biquíni-jóia e vestidos-bijoux. Estes foram alguns dos destaques do 3º dia da SPFW, que lança 38 coleções primavera-verão 2002/2003 até amanhã na Bienal, só para convidados. A Rosa Chá colocou a top Adriana Lima com um biquíni fio-dental de ouro branco, cravejado com 900 minidiamantes azuis, entre os modelos que fazem uma releitura fashion dos elementos do Carnaval. E Walter Rodrigues abriu o dia surpreendendo com uma coleção sexy e refinada, apoiada em leves drapeados e bijoux étnicas: Primitive Couture.

Segundo Walter, a sensualidade da coleção reflete uma volta às suas origens e uma necessidade do mercado internacional, onde ele se lançou em março estreando com desfile em Paris. Assim, o estilista deixa de lado a forte influência japonista que marcou seu trabalho nos últimos anos e retorna de fato à fluidez em ótimas construções com drapeados, num desfile sintético em tons de areia, laranja e marrom-claro.

Correntes sustentam as peças ou vêm sobre elas, moedas e medalhões aparecem em pontos estratégicos, seguindo uma pesquisa de Walter sobre os chakras e sua proteção. As bijoux, que também viraram estampas em relevo, estarão à venda a partir de setembro, assim como a nova linha de tricô e sandálias – todas trabalhadas em prata, com o espírito bijoux.

A Rosa Chá confirma a estratégia já mostrada em temporadas anteriores de que está de olho no mercado internacional. A marca paulistana foi a mais fashion e elaborada entre as de moda praia desta edição da SPFW, com uma coleção de peças sofisticadas e modernas prontas para fazer sucesso na Europa e nos Estados Unidos, onde desfila em setembro. Amir Slama, proprietário da grife, também está diversificando sua linha. Lança para o verão a água mineral Rosa Chá até as jóias em ouro branco – que tiveram como chamariz o biquíni e a minissaia de ouro branco.

O desfile, cuja boca de cena era uma cortina d’água pela qual alguns dos modelos homens atravessavam, começou com a top Isabeli Fontana (que acaba de saber que está grávida) e uma série de maiôs e biquínis cor-da-pele. Com estampas inspiradas em motivos tribais, a modelagem brinca com recortes inusitados em posições tão estratégicas quanto indiscretas, além de um malicioso jogo de transparências.

A valorização do Brasil e suas riquezas dá o tom da coleção, apoiada no trabalho da carnavalesca Rosa Magalhães, da Imperatriz Leopoldinense. A trilha mistura Villa Lobos, Hino Nacional tecno e Elis Regina cantando “o Brasil não conhece o Brasil” – é, mas nessa temporada, a moda pelo visto resolveu enfrentar esse gigante pela própria natureza. Vários estilistas entenderam que o Carnaval é um ótimo valor a ser agregado na moda nacional, principalmente junto à gringolândia – ufa!nismo!

Entre os principais motivos da coleção, índios em pose de Adão e Eva no paraíso lembram estampas de lenços de seda. Para os homens, uma nova versão de tanga, mais comportada. Folhagens, estrelas do mar e cavalos marinhos extrapolam as estampas e ultrapassam em relevo o limite dos biquínis e maiôs. Na coleção passada, musas como Marilyn Monroe e Sophia Loren viraram ícones da Rosa Chá. Agora é a foto das próprias modelos – brasileiras, é claro – que se transformam em estampa, cada uma com sua própria imagem. Mais personalizado impossível.

A Zoomp, de Renato Kherlakian, apresenta um verão refinado, tendo como inspiração viagens pela Costa francesa e a vida dos bon-vivants de berço, à beira da piscina. Destacam-se elementos esportivos em calças de formas confortáveis para os homens e vestidinhos de tênis retrô para as mulheres. Listras variadas pontuam a coleção, desde a versão tênis até o padrão rugby, passando pela risca-de-giz, ícone de estações mais frias, que aparece em short-saias e macacões para as mulheres e nas calças com detalhes esportivos no cós para os homens. Bons os jeans larguinhos femininos usados com pólo sem manga de tricô e a jaquetinha masculina bicolor, de inspiração golfe.

A noite ganha algumas transparências e um bom vestido de índigo manchado, com amarrações por meio de argolas. A técnica também é usada em calças multiuso, cuja proporção muda da pantalona para a mais sequinha com apenas um ajuste. O preto e o branco predominam com leveza, quebrados por suaves azuis e verde. Um verão acertado e cheio de boas idéias.

Já na passarela da Triton, a marca jovem de Tufi Duek, predominou a exuberância psicodélica dos anos 60/70, com estampas tipo flower-power e Submarino Amarelo, além do ambíguo 69 sob o arco-íris que o público vai adorar. O styling veio com boinas e muita corrente dourada, numa alusão ao movimento black-power, que é outra referência forte da temporada. Entre pantalonas de georgete e cigarretes justíssimas listradas, de cintura bem baixa, surgem pequenos tops de crochê e regatinhas bordadas com paetês. Tudo colorido lisergicamente sobre o branco.

No único desfile masculino do dia, Mario Queiroz usou uma inspiração literal de Andy Warhol para sua coleção, incluindo estampa com foto do próprio papa do pop quando jovem e de símbolos como a lata de sopa Campbell. Na padronagem, há também muito jogo de listras. Calças de couro e camisas de algodão recebem tecnológicos recortes a laser ou vêm na tradicional laise. A proporção tende a ser mais solta e confortável, com toques de pink e laranja flúor entre muitos tons neutros.

O estilista Lorenzo Merlino estreou aparentando um bom controle de cena. Assumiu as picapes do próprio desfile e pôde assistir de camarote a própria estréia na SPFW.  Entre os bons momentos, a cigarrete rosê com bom top xadrez azul/branco, as camisetas bordadas com lentes de óculos e a brincadeira do vestido Pantone, mix de Vik Muniz com Paco Rabanne.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo

17.07.2002 às 6:56

SPFW primavera-verão 2002/03: utilitarismo domina!

Se depender das principais tendências mostradas até agora na SPFW para o próximo verão, a bolsa vai se tornar um acessório obsoleto, tamanha a profusão de bolsos em modelos utilitários, sejam calças, saias, casacos ou coletes. Já vimos o utilitário austero, o romântico e até o sexy, e outras interpretações ainda vão surgir nos desfiles que terminam sábado na Bienal, para convidados.

Reinaldo Lourenço prossegue em seu meticuloso trabalho de sobreposições de peças e volumes e no refinado uso de plaquinhas de metal e bordados. Abre o desfile com looks inspirados na moda utilitária (calças e coletes pretos de algodão resinado cheios de zíperes, fechos e grandes bolsos) e em Lee Miller, modelo e fotógrafa da Segunda Guerra. Mini-aventais com efeito de minissaias sobre calças e jardineiras (usadas com sutiã) formam um bloco mais “hardcore” que não deixa de ser feminino.

Para contrastar, um delicado vestido curto de algodão plissado, em degradê de verde-cana, com enorme fenda lateral. A tonalidade exclusiva prossegue em delicados tops franzidos pontuados por ilhoses e usados com calça sobreposta por minissaia. A coleção tem ainda calças de algodão com cavalo baixíssimo e comprimento na canela, algumas usadas com jaquetas com aplicações em metal.

Tops, saias e vestidos em amarelo canário, laranja, cinza e preto vêm com pétalas vazadas, arrematadas com bordados, extraídas das casas do bairro carioca de Santa Teresa, outra inspiração da coleção. O mix das aberturas com as aplicações de metal e cristais resultam em looks que são ao mesmo tempo sexy e modernos.

Nesta temporada, a Ellus de Nelson Alvarenga comemora 30 anos e brindou com banho de champanhe ao final do desfile, reunindo na passarela modelos, compradores, vips e imprensa. Em se tratando de moda no Brasil, 30 anos é grande coisa e a Ellus tem vivido ótimos momentos recentemente – o que inclui seu projeto 2nd Floor, um espaço de manifestação jovem no segundo andar da loja da rua Oscar Freire, que expõe e comercializa trabalhos de jovens estilistas, fotógrafos, artistas plásticos e designers de jóias, promovendo noites com DJs e lançamentos alternativos.

Na coleção feminina, a imagem do pirata ficou bem melhor do que na masculina, com modelos de atitude fetiche em looks que misturam túnicas transparentes com corsários utilitários e tiras de bolsos removíveis, para serem penduradas em todas as peças. Entre os devaneios fashion da passarela, fica a imagem de Marcelle Bittar abrindo o desfile com lenço preto no cabelo, shorts jeans e top cinza-envelhecido bordado em ouro.

A Patachou vem mais sexy no próximo verão. Decotes ousados se misturam ao hit da temporada: calças ou shorts utilitários. Entre tons lavados de cinza e bege, a seda colorida é ponto forte da coleção, assim como as calças curtas e sequinhas, trabalhadas com nervuras. As estampas com ar psicodélico são na verdade desenhos das crianças carentes da instituição Aviva, de Belo Horizonte.

Em sua estréia na SPFW, a marca V.ROM fez uma precisa síntese da linguagem do homem moderno internacional. A dupla Rogério Hideki e Vitor Santos mostra que domina uma estética cool e evita a armadilha da caricatura – já vista em outras tentativas de modernidade jovem na moda brasileira.

Eles usam uma boa variedade de tecidos tecnológicos e acertam nas proporções sempre secas, sem ficar justas demais. T-shirts e camisas podem ter comprimentos assimétricos ou encurtados, enquanto o jeans aparece na altura da canela, emprestando o look do streetwear. Destaque também para as bermudas de algodão com modelagem de roupa de montaria, para os terninhos esportivos em cetim de náilon e para as estampas de silicone coloridas, de efeito plastificado. Enfim, o homem brasileiro antenado com o mundo pode contar com uma roupa moderna, sem ter que estar inserido a gueto nenhum.

Esperta, a Iódice aposta nos astros e signos do zodíaco garantindo um apelo comercial para sua coleção. Os símbolos aparecem tanto em estampas quanto em pingentes aplicados na própria roupa ou em cordão no pescoço. As mulheres vêm com vestidos e túnicas em crepe e georgete, amarelo aceso ou azul suave, com proporções amplas e caimento fluido. Para os homens, um tempero dos anos 80 principalmente no jeans delavé folgado com enormes bolsos utilitários.

A Água de Coco foi a 1ª grife no segmento de moda praia a estrear nesta SPFW. Olhando pra suas raízes no Ceará, ela explora sem pretensão os horizontes locais, com estampas de jangadas ao som das Velas do Mucuripe. Tem também estampa de folha de carnaúba, como o engana-papai assimétrico mostrado por Camila Espinosa, e as listras rebordadas das cadeiras de praia. Na modelagem predominam os cortininhas. As amarrações laterais aparecem em calcinhas estreitas ou largas e os tops amarram entre os seios.

Lilian Pacce para O Estado de  S.Paulo (colaborou Guto Barra)

16.07.2002 às 6:44

SPFW primavera-verão 2002/03: frenesi com Gisele; Cordeiro de Deus com Ronaldo

Frenesi e histeria marcam sempre a passagem de Gisele Bündchen por aqui. E em seu único desfile nesta temporada da SPFW não foi diferente. Pela 3ª vez, a supermodelo desfilou de biquíni para a Cia. Marítima garantindo as atenções para a marca de moda praia no 1º dia de lançamentos para a primavera-verão 2002/2003, que segue até sábado com 38 desfiles no prédio da Bienal, Ibirapuera, somente para convidados.

Gisele continua em ótima forma e preferiu aparecer com modelos de calcinhas mais largas ou microssaia de rumba em suas quatro entradas na passarela. No final, levantou a bandeira de Cuba com a estampa do líder Che Guevara em tons de azul. Depois do desfile, tinha ainda dois compromissos: o jantar de aniversário de sua empresária Mônica Monteiro e a festa de Carlos Carrasco, um de seus maquiadores preferidos.

A coleção inspirada na cultura latina traz também frases da artista Frida Khalo e faz da praia um grande jardim, com muitas estampas e bordados florais, de preferência com tops de bojo que empurram o peito para frente e para cima, bem sexy. Mas o principal modelo foi usado pela top Adriana Lima: o biquíni sem costura, leve e anatômico, que é lançamento mundial segundo o proprietário Benny Rosset.

O estilista mineiro Ronaldo Fraga abriu o primeiro dia da SPFW com a coleção batizada Cordeiro de Deus, inspirada no cotidiano dos presidiários apaixonados que esperam uma visita da amada – mesmo que a briga tenha sido feia e deixado fortes hematomas no rosto.

Ronaldo mostra como é rico esse universo iconográfico: além da estampa de cordeiros em relevo, explora tudo, das tatuagens corpulentas aos grafites das paredes, dos patuás dos orixás ao Sagrado Coração de Jesus, passando pelos espelhinhos baratos de moldura laranja, que aqui ganham ares high tech.

O estilista, que sabe explorar com uma sensibilidade rara elementos tão genuínos de um Brasil triste e miserável, faz um pingue-pongue romântico entre o mundo dentro da cela e o mundo que circunda os portões do lado de fora. A popular javanesa dos vestidos que vão à penitenciária no domingo fica chic em modelos de cetim e seda que trabalham formas fluídas, com drapeados, detalhes plissados e um ótimo trabalho de tressê, forte também no jeans. As moças misturam pink, turquesa, verde e vermelho, mas podem ser discretas em rosê e cinza.

No masculino, conjuntos de calça e camisa, tipo pijama, propõem uma alternativa aos ternos sisudos. Faz parte da brincadeira o efeito shorts sobre calça – esta quase sempre oversize, beirando o saruel – e os desfiados de peças tecnologicamente puídas, além dos tops esburacados no tricô.

Ente os novos nomes desta edição, o estilista Jum Nakao faz uma boa estréia trabalhando com o conceito de que “a idéia do tempo deve ser esquecida”. Ele mistura referências e detalhes dos anos 20 e 30 com elementos hi-tech, como as estampas computadorizadas em 3-D, na coleção chamada Future Kitsch. Casaquinhos de tricô e crochê vêm sobre vestidos de cintura baixa e saia plissada, com saiote. Ao contrário do austeridade japonista das últimas coleções, Jum cria um delicioso contraste entre tons desbotados e vibrantes cores fluo.

Enquanto um top azul plissado leva a coleção para um lado mais sofisticado, o jeans de inspiração streetwear, mas com proporções mais justas, garante o lado jovem. Nas estampas, pássaros coloridos se misturam a linhas de construção de ilustrações computadorizadas em 3-D, que depois se materializam em tops de redinha branca – como aquelas que envolvem a maçã em feiras públicas.

Os masculinos

As coleções masculinas predominaram no 1º dia da SPFW. Alexandre Herchcovitch traz o homem mais sensível e contemporâneo do dia, Ricardo Almeida confirma seu target de homem impecável e correto, e a Ellus propõe um pirata urbano que, na verdade, parece meio perdido na cidade.

Alexandre Herchcovitch partiu de uma curiosidade pelo guarda-roupa clássico masculino (em especial acessórios como a liga de meia, o suspensório e o chapéu) e desenvolveu uma mistura fresca de elementos de alfaiataria, streetwear e roupas esportivas numa coleção que toda a mulher vai querer usar – conseguindo, neste sentido, o feito do estilista Heidi Slimane para a Dior masculina, de atingir ambos os públicos de uma vez só.

Blazers e jaquetas bem sequinhos vêm com calças idem ou de inspiração punk-militar, com vários bolsos e amarração na perna. Vale o moletom goiaba, o tropical xadrez cinza/rosê/azul, a sarja tie-dye marrom/preto. Em outra versão, o blazer tem bolso canguru e ombros levemente mais amplos, usados sobre moletom esportivo. Ótimas também as calças de silhueta oversized no quadril e justas na parte inferior da perna. E depois de estações restrita apenas às camisetas da linha comercial, as caveirinhas do Alê estão de volta, na alfaiataria e nos tênis – que devem se tornar hit entre os garotos modernos.

A Ellus também aposta em caveiras para seu homem, um pouco chocho pra quem se pretende pirata. Elas vêm aplicadas em farto paetê colorido sobre camisetas. As regatas-arrastão sobrepostas dão bom efeito moiré e o melhor são os patchworks das calças jeans.

Encerrando a programação do 1º dia, Ricardo Almeida inaugurou sua era jeans com o estilo impecável e elegante que ele cultiva para seu homem, que agora vem com sapato branco. Para o público mais jovem, jaquetas variadas, em jeans ou algodão, e calças com proporção relaxada e cintura baixa. Os ternos vão dos tradicionais quatro botões até modelos mais despojados, de um botão –  como sempre, em ótimo Super 100.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Guto Barra)

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