26.01.2005 às 4:36

Balanço do inverno 2005: romantismo, ciganismo…

Depois de 25 desfiles no Fashion Rio e 47 no São Paulo Fashion Week, a cara do inverno ganha contornos claros. E depois da imersão fashion no prédio da Bienal ao longo desta semana, aí vai um balanço dos melhores momentos da temporada.

Romantismo -
A tendência das saias rodadas se enraíza no inverno 2005 vinda dos anos 50 e cria uma febre couture entre os estilistas: a maioria quis se mostrar fazendo roupa de luxo, como nos grandes ateliês da época. Até as modelos adotaram a pose de açucareiro, com as mãos na cintura. A roda da saia chega a ter 35 metros de pano (para armar o vestido de Marcelle Bittar no desfile do Sommer). Pode ser molenga, como a floral de Isabela Capeto, ou estruturada, como os modelos de Lino Villaventura. As nesgas ajudam a ganhar volume. São monocromáticas na Huis Clos ou de patchwork na Cavalera. Os tecidos vão da mais nobre musseline de seda à pop malha de algodão. Idem para os volumes balonês, que apareceram até em bermuda jeans (Zoomp).

Ciganas – Os looks vêm com um monte de panos, sobreposições e babados, de preferência de patchwork. É o espírito nômade. Vem daqui o novo comprimento que é longo – mas não se preocupe que continuam OK o míni e o pelo joelho. O longo começa a entrar na vida cotidiana. Vai até o supermercado com um chinelo ou tênis, vai para um jantar social com um belo sapato. O folk entra em ação em bons resultados na Cori, André Lima e Patachou, e na etnia da Neon. Entre um babado e outro, muita rendinha, como na Ellus. A amplidão acolhe o corpo em megaponchos de tricô de André Lima, nos caftãs da Neon, nos casacões arredondados da Zoomp, Patachou e Raia de Goeye. E até nos mantôs de Glória Coelho. Na coleção de Gloria, aliás, o longo não tem nada de folk nem cigano, mas é a proposta mais antenada da estação: luxuoso na construção, no material e na forma, ele é usado com jaqueta ou casacão amarrado na cintura e uma ótima galocha.

Viagem – Os estilistas realmente viajaram a trabalho. Islândia, Polônia, Sevilha (Espanha), Japão, Patagônia e Bahia foram alguns destinos que eles trouxeram para a passarela. A Cavalera abriu o livro de história do Brasil para criar sua imagem vintage-romântica. E Ronaldo Fraga imprimiu o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Cortinas – Ganharam os desfiles que aconteceram em lugares que falam por si só, como o da Raia de Goeye no teatro Municipal e o da Neon no teatro Oficina. A influência teatral tomou conta das apresentações. Em vez do entra e sai de modelos, os estilistas criaram grandes tableaux vivants na passarela: Renato Loureiro, Sommer, Reinaldo Lourenço, Isabela Capeto, Lorenzo Merlino e Érika Ikezili. Em média, os estilistas mostraram 30 looks por desfile, sem troca de roupa entre os modelos. O veludo das cortinas e poltronas chega às roupas da Forum, Raia de Goeye, Gisele Nasser e Reinaldo Lourenço, entre outros. Do clássico vermelho ao verde oliva, em drapeados, franzidos e muitos pingentes, como os acessórios que o inglês Judy Blame desenvolveu para Reinaldo. Na Patachou, as cortinas se transformam em preciosos bordados de correntes de ouro aplicadas em camisetas de crepe de tricô. Uma camiseta chega a ter 550 g de ouro 24 quilates. Ou seja, cerca de R$ 30 mil só de ouro bruto, sem contar nenhuma mão-de-obra.

Chave-mestra – O vestido é a peça central e atende a todos os estilos, especialmente o desejo do antigo e usado, isto é, do personalizado. A maioria tem cara de camisolinha antiga, com nervurinhas, ponto smock, rendinhas e brilho de pedrinhas e bordados. Na Triton, é solto e curtinho. Gisele Nasser gosta dos esvoaçantes. A Forum, do recorte Império. E Alexandre Herchcovitch resume o momento escapista no vestido de látex transparente com flores e pássaros.

Zumbido – A saúva virou mascote da temporada em bordados suntuosos de Fause Haten e da Cavalera. Tem também aranha, besouro, libélula, borboleta, pingüim e paisagens de neve (Osklen, Triton, Sommer). Uma estação natureza que traz flores até para os homens, como na jaqueta jeans da Vide Bula ou nos buquês da V. Rom.

Uniforme – Jaquetas e cores militaristas quebram o romantismo na Ellus. A figura do Smile bordada com botões quebra a sisudez incômoda dos milicos da British Colony, que traz também camuflados tropicais. Para Alexandre Herchcovitch, o camuflado é leve como as nuvens de um céu azul no trench-coat de laise impermeável. Galões dourados ganham a alfaiataria de lã de Eduardo Suppes e o jeans da Triton.

Calças – Não são peça importante, mas ninguém pode viver sem. Vêm sequinhas e justas até para os homens (Osklen, Ricardo Almeida, Sommer, V.Rom, Herchcovitch). Vale moletom, lã, jeans e stretchs de última geração. Vão bem dentro da bota dele e dela. O contraponto sai dos saruels, com cavalos baixos e fofos, afunilando embaixo.

Beleza – Para a mulher, o destaque é o cabelo com volume natural, meio bagunçado ou com trança desmanchando. Chapinha fica melhor nos homens – como o ruivo Constantin.

Cores – Verdes, marrons, roses e berinjela são as principais. Teoricamente, o preto está tão baixo quanto as temperaturas que os estilistas estão esperando para vender suas criações mais quentes, como os tricôs manuais, rústicos, bem grossos.

Tops e new faces – Além das roupas, os fashionistas gostam de apostar em modelos. Se a temporada passada consagrou Carol Trentini, desta vez a gauchinha Jéssica Pauleto, de apenas 14 anos, bateu o recorde da estação: participou de 31 dos 47 desfiles em SP e de 20 dos 25 do Rio. Modelo há apenas sete meses, é a mais nova candidata a top. Outro destaque é Amanda Lopes, 16 anos, que chama atenção por ter um rosto mais exótico e nariz forte. Moderna, segura a onda de um desfile mais fashion como Fábia Bercsek ou Alexandre Herchcovitch, mas também faz bonito nas passarelas mais clássicas como a Cori. Fez 16 desfiles. Quem também está em ótima forma é a morena Juliana Imai, de 20 anos. Gaúcha de ascendência japonesa, ela apareceu na edição de verão 2004 do Fashion Rio, que rolou em julho de 2003, e desfilou grávida de quatro meses para Carlos Tufvesson. Na última temporada internacional, desfilou para Alexander McQueen, Dolce & Gabbana e Dior, entre outras. Aqui ela finalmente “apareceu” e fechou maravilhosamente bem o desfile da Neon, entre outros. Carol Francischini está na sua fase mais linda. Com apenas 15 anos, anda com leveza e um frescor. Bruna Erhardt chegou perto de Jéssica no número de desfiles. Esteve em 30 deles. Bruna tem 16 anos e vem de Imbituba (SC). Juliana, Carol e Bruna, entre outras, viajam agora para Nova York para os castings da temporada internacional. Entre os meninos, destacam-se Felipe Brescovice e Fernando Johann, da IMG. Felipe, de 16 anos, é de Bento Gonçalves (RS) e estreou com tudo nesta temporada: pegou 20 desfiles. Nunca saiu do Brasil nem conhecia SP. Ainda está se acostumando com a nova vida. Fernando é mais tarimbado. Mais velho do que a média, com 26 anos, ele foi descoberto em Chapecó, em Santa Catarina. Ano passado, trabalhou para a marca Hermès e em fevereiro embarca para o Japão. E o ruivo Constantin Lubbe? Um dos rostos quentes da agência Ford, ele encantou a equipe da Calvin Klein, onde fechou exclusividade para o desfile da marca. Já fotografou também para a revistaV Man“.

Lilian Pacce (colaborou Camila Yahn)

24.01.2005 às 4:06

O último dia de SPFW outono-inverno 2005: regressão?

Babados e rendinhas com cara de velhinho e desbotado, mas cheiro de novo. Desejo de ser nômade e livre como os hippies e ciganos, ou de viajar no inconsciente resgatando o rico imaginário dos contos de fada ou das grandes óperas. Como diria Freud, a moda está vivendo uma fase de regressão. Mas como a vida da rua tem seus percalços, para agüentar o tranco é preciso um pouco de passo firme como só os uniformes militaristas conseguem ter. Num resumo muito breve, esta é a cara da moda que está surgindo nesta 18ª edição da São Paulo Fashion Week, que termina hoje no prédio da Bienal com os desfiles de Marcelo Sommer, Renato Loureiro, Mareu Nitschke, Giselle Nasser, André Lima e Cavalera – que promete dar status de alta-costura à básica camiseta, com alusões à monarquia brasileira tendo uma réplica legítima da coroa imperial como adereço.

Os uniformes também são inspiração para a coleção masculina de Alexandre Herchcovitch. Mas sua luta cotidiana sai dos ringues de boxe e encontra conforto no brilho do cetim matelassado (mesmo que só em preto), nos cinturões de campeão com placa de estrela ou caveirinha, e nas estampas com imagens clássicas do esporte de Mike Tyson. Mas até este lutador suado e de olho roxo, tem seu lado escapista como mostram as estampas de menininho e até os moletons tipo canguru com muito capuz. A calça é mais largada, com boca afunilada, de preferência por dentro da botinha bicolor. Mas a variedade dos sapatos é grande: inclui ainda bico fino de verniz, tênis Converse e muitas botas. Em looks de cores sóbrias, ele concentra a luz nas gravatas-lenço de bolinhas coloridas amarradas por dentro da camisa.

Inspirada no universo do xamanismo, a estilista Fabia Bercsek fez uma ótima estréia ontem à tarde. Fábia representa bem o espírito da temporada: a mistura de referências muitas vezes contraditórias que acabam resultando em imagens novas e instigantes. Depois de se apresentar no evento Hot Spot, voltado para jovens, ela parece subitamente madura nesta coleção que ela chama de Solstício de Inverno, onde foi corajosamente fiel a suas vontades em seu melhor momento até hoje. Num misto de cantora Cher com Pocahontas, ela personifica a imagem de sua mulher: uma guerreira romântica, como a imagem de Ana Claudia Michels de noiva no final.
Esta guerreira é meio índia, meio cowgirl. Usa casaco de couro com franjas e balaio de palha original dos índios xavantes, customizado com flores pintadas pela própria Fábia, uma ilustradora de mão cheia. De trança comprida e muitos colares, ela vive em contato com a natureza como mostram também suas cores de terra, verde e branco sujo combinadas a um suave lilás, amarelo e salmão. Um dos melhores looks veio em Marcelle Bittar: colete de gatinhos sobre camisa de organza lilás com flores aplicadas e calça e jaquetinha da mesma cor, com cachecol e polaina amarelinhos. O tricô manual, uma de suas marcas registradas, faz uma boa jaqueta de tiras onduladas, como se fosse uma cobrinha que vai aparecer também nas estampas desenhadas por ela. Ao final, Cher é invocada mais uma vez na música “I Got You, Babe”.

Outra boa estréia foi de Samuel Cirnansck, que começou na moda como figurinista de teatro e agora, depois de suas participações no Hot Spot, encontra o caminho para uma roupa mais real, mesmo que esta realidade seja a de festas muito glamourosas, quase “couture”. Samuel trabalha o volume da estação, das saias rodadas dos anos 50, com jogo de babados e bordados num material nada habillé e muito pop, o jeans. Consegue ótimos resultados numa silhueta feminina e romântica. É o melhor momento do desfile.

Na Vide Bula, a idéia fantasiosa da história de Alice no País das Maravilhas fica apenas no cenário de cogumelo e chapelão gigante. Para encontrar esta princesa contemporânea, a Vide Bula abusa de acessórios, colocando mais informação do que o necessário: bonés com lenços, pulseiras, colares, blusas amarradas na cintura… Os tricôs são gostosos e rústicos, vêm curtinhos ou em maxipulls. O xadrez e o veludo aparecem tanto em saias rodadas quanto em paletós acinturados. A imagem que mais se aproxima da Alice moderna é a de Larissa Castro, com saia xadrez, avental de veludo marrom e boné, acessório indispensável no inverno desta marca mineira. No masculino, a vontade do rock desaparece também numa avalanche de informações. Caveiras bordadas, jaquetas e parkas complementam os looks de sobreposição no vestuário masculino.

Caio Gobbi volta a desfilar no evento limpando alguns excessos e assumindo uma cliente mais jovem. Sem sair de seu próprio universo, ele continua a trabalhar com cores fortes como o pink e verde. Segue os desejos mais comerciais da temporada, apostando em saias balonês e mínis justinhas com barra de babado, no veludo cotelê, nas malhas e no jeans. A estampa floral conversa com o momento atual e ele radicaliza no look de Luciana Curtis de vestido e meia-calça da mesma estampa.

A estilista Lourdinha Noyama faz sua estréia oficialmente, depois de ter feito uma apresentação extra um ano atrás. De Recife, ela desenvolve um trabalho bem artesanal voltado para roupas de noite e escolhe a invasão holandesa e as pinturas de Franz Post para ilustrar o espírito de sua coleção. Infelizmente, peca pelo excesso de referências literais, desde as estampas até a escolha do casting, com beauty carregado. Faltou um bom stylist.

Lilian Pacce (colaborou Camila Yahn)

23.01.2005 às 3:51

Neon e Érika Ikezili, as estreias do SPFW outono-inverno 2005

Duas marcas novas, Neon e Érika Ikezili, estrearam este fim de semana no São Paulo Fashion Week, que termina amanhã após a apresentação de 47 desfiles em salas montadas no Pavilhão da Bienal. Os corredores do prédio de Oscar Niemeyer transbordavam de gente no fim-de-semana e os desfiles chegaram a atrasar uma hora. Ontem de manhã, a nova Neon trouxe seu frescor para o evento, em desfile fora do Ibirapuera. Os fashionistas se deslocaram até o centro da cidade, no teatro Oficina, o templo de José Celso Martinez. Cacá Ribeiro, o novo sócio da marca, disse que a locação tem o mesmo espírito libertário da grife. E o desfile mostrou isso.

A dupla Dudu Bertholini e Rita Comparato faz da Neon uma luz mesmo na moda. Uma luz forte que irradia laranja, turquesa, verde-bandeira, vermelho. Tudo tem uma graça: as modelos passeando pelas arquibancadas do teatro, as modelos rodopiando, à Saint Laurent nos anos 80, levantando a roda da saia. Graça também nos tops e vestidos tomara-que-caia que deixam a silhueta um balãozinho. Graça nos brincos de nozes. E até nas plataformas, um ícone anti-elegância por natureza, que eles conseguem sofisticar na forma e na estampa de bananeira ou palmeira.

A coleção tem um ar marinheiro no azul do vestido incrível (com tira de oncinha amarrada na cintura) ou na calça de cintura alta. Mas é a estética africana que a Neon tanto domina que se sobressai tanto nas estampas quanto nos caftãs – como o de Juliana Imai encarnando o próprio Zé Celso no final.

No sábado foi a vez de Érika Ikezili, que veio do Amni Hot Spot (celeiro de jovens criadores). Sua chegada à SPFW acontece num bom momento para ela: tanto a moda agora quanto ela desde antes buscam referência no universo infantil. Ela começa com um bom jeans, de modelagem sequinha, com costuras que formam um losango. Losango que vai se impondo ao longo do desfile até chegar ao clássico Argyle em leggings e blusas, como a camiseta rodada em tons pastel. Lindo o frente-única que trabalha o losango em tridimensão.

Mas é bom que esses jovens possam olhar para veteranos do mercado como a Huis Clos. A estilista Clô Orozco é uma lição de sofisticação pra nova geração. A sofisticação que Chanel aprendeu com seu nobre namorado inglês: o verdadeiro luxo é aquele que não se vê. A coleção de Clô é assim: rica nos tecidos e formas, mas silenciosa e discreta no resultado, tanto na roda gigante de seus godês quanto nos macacões retos, amarrados na lateral. Marrom, marinho e off-white tão o tom.

Mas tanto a Clos quanto Lino Villaventura perderam com o formato da apresentação: ao deixar as modelos andando na passarela, o desfile ficou literalmente repetitivo. No caso de Lino, quase monótono no masculino onde, aliás, o look que se salva é o de new face Felipe Brescowice, de camisa militarista amassada e manchada. Mas quando Letícia Birkheuer entra, abrindo o desfile feminino, a imagem muda completamente. Sem cabelo nem carão, com make todo bege, incluindo as lentes de contato, é grande a evolução de sua mulher. O longo creme-café com saia rodada mostra um primoroso trabalho de tecidos picotados que vão vir a preencher a coleção. Os picotes ganham saias de volume anos 50 que vão bem com as blusas de alcinha leves e bordadas, ou no vestido cinza com laço realçando a cintura. A predominância dos tons claros é outra boa escolha, embora o preto e o vermelho revelem a dramaticidade sempre cara ao estilista.

Antes de Lino, a V.Rom mostrou coleção inspirada no filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, um clássico infantil, e no universo das compulsões. O estilo de seu personagem principal, Willy Wonka, aparece nos meninos de cartola, terno e bengala, mas com o fresco olhar de Vitor Santos e Rogério Hideki, estilistas da marca. O styling de Thiago Ferraz mistura materiais, estampas e texturas de forma apurada e moderna. Os looks trazem sempre muita informação, como a sobreposição da mesma estampa na camisa e no paletó ou jaqueta. O trabalho nas calças é destaque, com forma de moletom e elástico no tornozelo. Aliás, o moletom surpreende em tratamentos novos, como o das jaquetas emborrachadas com estampa de chocolate derretido ou de sangue da paixão. A calça pode ser bem sequinha, com o cavalo baixo, bolsos localizados e barra franzida dentro das botas de motocross ou dos tênis grandões de basquete, hit entre os skatistas de hoje.

Justiça seja feita, o sucesso do desfile da Raia de Goeye se deve em grande medida à cenografia criada por Alberto Renault. O diretor colocou a platéia numa arquibancada montada em pleno palco do teatro Municipal e estendeu a passarela sobre a platéia. As estilistas Paula e Fernanda evoluem no seu jeito Chloé de ser, com microvestidos de estampas geométricas sobrepostas e sensual decote ampulheta. Os casacos vêm arredondados e roubam a modelagem das batas que são febre deste verão. O mais lindo é o tom sobre tom dos looks do final, onde o verde do vestido de veludo drapeado dialoga com o verde das paredes e do veludo das poltronas.

O feminino de Fause Haten parece um conto de carochinha. Ele faz um trabalho de formiga nas estampas, mas cai na teia de aranha do luxo no bolerinho bordado de canutilho. Suas libélulas ficam melhor quando o cetim é menos, como no longo vinho com maximoletom cinza. Mas o zumbido dos insetos provoca tontura no conceito de elegância. E Ana Hickmann é a própria viúva negra na entrada final.

Pela 2ª vez no SPFW, o carioca Carlos Tufvesson (estilista do vestido de noiva da apresentadora Angélica) apresentou um olhar mais fresco e jovem. Ele acerta quando trabalha com simplicidade nos vestidos lisos e curtinhos do começo, como o rosinha de Jeísa Chiminazzo. Desta vez, passa bem pelo jeans justo e chega a lindos vestidos-coluna, como o branco e preto de Letícia Birkheuer.

Por conta do atraso de uma hora do sábado, a platéia já estava cansada quando Lorenzo Merlino soltou todas as modelos de uma vez na passarela. Num misto de dança das cadeiras com a brincadeira de estátua, elas paravam junto com a música, para sair em seguida. O formato é corajoso, mas ficou cansativo. Merlino costuma trabalhar uma sensualidade velada e sóbria, com jogo de assimetria, e desta vez não foi diferente. Entre os looks mais legais está o trench-coat magenta usado com uma grossa meia de lã cinza e escarpin. E o vestido preto do início em Eliana Weirich, com elásticos embaixo, por onde entram as pernas. A novidade são as roupas-acessório, como a blusa-pulseira ou a blusa-brinco com alça na orelha. E o vestido todo bordado com correntes, usado por Ives Kolling.

O mineiro Eduardo Suppes vem mais leve, com beleza mais suave e formas menos exuberantes. Melhor assim. O estilista interpreta com estilo próprio duas tendências fortes da temporada: babados fluidos das ciganas e uniformes militaristas. Bons os roses com bege (lisos ou com estampa de cashmere) do primeiro tema e os casaquinhos espinha-de-peixe com galão dourado do segundo. Mas o bloco final, em preto, tem um quê de coleção passada.

A Alphorria comemora 20 anos de mercado numa passarela com backlights com fotos de suas campanhas com modelos como Luciana Curtis e Alessandra Berriel, que estavam na platéia, e até uma jovem Gisele Bündchen. O make carregado entrega esta mulher exagerada em sua sensualidade e exuberância, em modelos de cintura marcada tanto nos tecidos fluidos quanto na lã pesada. E já que o domingo chegou ao fim na Bienal, a passarela se transforma em festa com muito champanhe e as modelos dançando.

A Uma segue um caminho menos utilitário, inspirada na cultura oriental e seus quimonos. O obi (faixa da cintura) de paetê com bolsinho embutido é boa proposta, principalmente no maximoletom cinza – tom que predomina no início. Depois a cartela ganha tons de verde, vinho e vermelho, sempre com perfume étnico, tanto nas listras quanto na estampa.

O inverno da masculina VR é inspirado na Escócia. Um grupo de músicos entra na passarela tocando a tradicional música daquele país, com gaita de fole. E são justamente os elementos escoceses que se sobressaem, com o ótimo xadrez das calças camelo/cinza e dos tênis. Bom também o trabalho de envelhecimento do tricô e do veludo liso. Mas é entendiante a série de looks clássicos que tenta se modernizar na passarela, quando na verdade ela é apenas reflexo fiel da necessidade comercial da marca.

Mario Queiroz se inspira na diversidade de culturas e povos tendo o saguão do aeroporto como ponto de encontro. Trabalhando sarja, jeans e malha numa cartela de cores em tons fechados de cinza, preto, azul e verde, Queiroz mistura calças sociais, túnicas e ponchos, num resultado infeliz onde faltam elementos esportivos indispensáveis a um bom viajante.

Lilian Pacce (colaborou Camila Yahn)

22.01.2005 às 1:08

Gloria Coelho e mais do SPFW outono-inverno 2005

Hoje de manhã a moda para o inverno 2005 chega ao teatro Municipal. Em 10 anos de SPFW, esta é a 1ª vez que uma marca, a Raia de Goeye, desfila ali sua coleção. Pena que a numeração das belas poltronas de veludo não vai ser aproveitada para organizar os convidados. É que nesta edição, a SPFW resolveu abolir a numeração dos lugares/convites. Há indicação apenas do setor e tudo acaba ficando na base do “senta quem chega primeiro”. E quem chega primeiro não são os profissionais que acompanham todos os desfiles. Ou seja, com a sala já cheia, os profissionais encontram seu lugar ocupado e, a exemplo dos desfiles da Ellus e da Triton, muita gente importante acaba indo pro chão. Isto somado ao fato de que agora há ingressos à venda, o resultado é de retrocesso numa organização que funcionava tão bem.

Ontem o dia começou com Gloria Coelho trazendo a Idade Média para festas chiques e ruas cosmopolitas muito descoladas. A estética medieval se sobressai nos longos vestidos e casacos (trenchs, mantôs etc.), com misterioso capuz à “O Nome da Rosa“. Gloria trabalha extremos: vestido de cetim bordado com paetês, pedrarias e flores, jaquetas megautilitárias amarradas na cintura e, no pé, galochinhas de jardineiro. Shorts e calças vêm com preguinhas, as saias são fluidas. As cores escuras predominam: marinho, preto, marrom e oliva, com camelo e a luz do longo vermelho do final.

Em seguida, Reinaldo Lourenço deslocou o público para o prédio da Faap, onde mostrou sua coleção de inverno inspirada nos grandes teatros de ópera, de Manaus a Paris, segundo ele. Um ar rock impõe uma atitude mais forte e jovem no cenário inspirado no filmeDogville”, de Lars Von Trier, com perfume de Marcel Duchamp. Em veludo de seda, ele franze as cortinas do teatro em saias dramáticas e pendura seus pingentes em todo lugar: do vestido rosê de festa às calças masculinas pretas, de cavalo baixo.

Alexandre Herchcovitch repete o sucesso nesta temporada à frente do desfile da Cori. Blocos de gelo de oito toneladas viraram totens ao centro da passarela, num desfile inspirado no leste europeu, com releitura fresca de trajes típicos da Polônia, terra de seus avós. A marca vem mais jovem, com saias curtinhas e muito godê, até no trench-coat bordado. O preto serve de base pras estampas de flores, melhor ainda quando paetadas. Os vestidos longos, como o preto de cetim de Marcelle Bittar ou o de chamois com tricô multicor de Carol Ribeiro, devem chamar atenção nas noites mais glamourosas, enquanto as bermudas com jaquetinha perfecto devem agradar às mais jovens.

Se depender da Forum, o inverno não será nada rigoroso, com vestidos sem manga, leves e confortáveis. Com styling da descolada Camille Bidault Waddington, Tufi Duek mostra uma mulher com uma sensualidade mais suave, o que é bom, num equilíbrio de charme e elegância. O longo é a tendência nova da estação, mas os vestidos pelo joelho têm um ar mais romântico, em georgete ou jérsei de seda. Jaquetas, cardigãs e coletes fazem um papel coadjuvante, como se a mulher tivesse tomado emprestado do namorado naquela madrugada fria depois da festa.

Se a maior parte dos estilistas aposta em um inverno mais sóbrio, investindo em tons escuros, a Patachou, marca da estilista Terezinha Santos, tem no azul seu ponto de partida e nos bordados de correntes de ouro de 24 quilates o ponto alto. Destaque para os crepes de tricô e os cashmeres – novos na coleção.

A British Colony, do carioca Maxime Perelmuter, abre o desfile com uma imagem de impacto que chega a incomodar: seu homem veste uniforme militar com o ícone Smile bordado de botões ou silkado. Seus milicos fashion misturam a rigidez do uniforme (que passa também pelo navy como o trench marinho e vermelho do final) ao tropicalismo dos camuflados florais, e ele acaba criando a imagem de um novo safári. Apesar de tantas sarjas e lãs, o moletom continua peça forte, como nos casacos com capuz.

Com o tema Velocidade Sensual, a Iódice abre com vestidos azul-carbono fluidos que se desdobram em outras cores e estampas ao longo do desfile. Sua mulher tem pressa e pode pegar carona num jipe militar, como o look oliva de perfecto blusê com calça seca por dentro da bota alta. O couro é destaque, assim como os looks masculinos que inovam mais a imagem da marca.

A Zoomp começou sua apresentação com a roupa masculina, numa coleção aconchegante e confortável, sem deixar de lado uma estética atual. A cartela de cores é feliz em tons de cinza, rosa, menta e azul - leves e lavados, assim como o jeans. Entre os destaques, a calça cinza soltinha, usada com sobreposição de regatas e camisão cinza bem molinho jogado por cima. Mais glamourosa, a coleção feminina não abre mão da fluidez e do brilho dos bordados e paetês. Mas o resultado é de conforto e não de uma sensualidade explícita e ostensiva. O balonê molengo, quase desestruturado, pontua desde o megacasaco de malha até as bermudas e saias, que são a coqueluche com seu balanço malemolente. A modelo Michelle Alves, que viajou ontem pra temporada de alta-costura de Paris, era uma das mais lindas.

Já na Ellus predomina a estética vintage-nômade, que transita entre o hippie e o cigano, com muita sobreposição: de estampas e cores diferentes nos muitos babados, e também de peças antes desconexas como o vestido de renda bem brechó com maxicanguru esportivo de malha e jaqueta militar de sarja – tudo junto. Aqui o jeans é escuro e pode brincar de patchwork camuflado em ótimos casacos. Entre florais e tons de rosê, verde, marrom e off-white, a coleção interpreta bem uma tendência forte que agrada em cheio a mocinhas como Daniella Cicarelli, a noiva de Ronaldinho, que é a estrela da Ellus.

Quem não conhece, estranha que um menino de 14 anos possa ter skill profissional de um adulto. Mas a prova da vocação inerente de Pedro Lourenço começa pelo poderoso time de modelos que desfilou para ele na recém-inaugurada galeria Leme: Isabeli Fontana, Jeísa Chiminazzo e Carol Trentini – todas com look bem natural, de cara lavada, exalando o mesmo frescor que Pedro pode proporcionar se mergulhar mais profundamente em seu próprio universo. Além de seu DNA fashion, herança genética dos pais Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço, Pedro se alinha com a vanguarda hype da moda internacional, tendo Nicolas Ghesquière como norte. Influências à parte, ele impressiona pelo domínio da execução das peças e do desfile em si. Destacam-se as jaquetas de couro com amarração tipo corselet e os vestidos, como o sensual modelo azul com o qual Jeísa fechou o desfile.

A Rosa Chá procurou ver o inverno do ponto de vista de uma academia de ginástica: leggings e regatas de tela sobrepostos em looks multicoloridos. Já que faz frio, o top dos biquínis fica maior e o poncho de favo vira saída de praia com capuz. Mas a sensação final é a de que faltou suar um pouco mais a camisa e mostrar a roupa pós-malhação.

Para apresentar sua coleção masculina, Fause Haten desconstrói o smoking. O  look é mais jovem e desencanado, misturando jeans e moletom com elementos do black tie. A cintura é baixa e o cavalo, solto. Os looks têm o ar relaxado do fim de uma festa. A modelo Ana Hickmann faz uma entrada surpresa vestindo um terno preto com calça mais larguinha. O lado do glamour que Fause tanto gosta fica explícito na enorme cortina prata ao fundo da sala.

Jefferson Kulig quer questionar a estética e as tendências da moda e se inspirou no futurismo dos ciborgues para criar sua coleção. As meninas apáticas e a música hipnotizante tira a atenção de boas peças desta coleção como o casaco marrom.

Lilian Pacce - colaborou Camila Yahn

20.01.2005 às 12:57

Isabela Capeto, Herchcovitch e mais no 1º dia de SPFW outono-inverno 2005

Apesar dos apagões intermitentes e do calor intenso no prédio da Bienal, a São Paulo Fashion Week começou bem sua temporada de lançamentos para o outono-inverno 2005 que segue até terça-feira. O conteúdo das passarelas compensou também o tumulto causado pela liberação de entrada de não profissionais do setor, que agora podem comprar ingressos e ter acesso aos corredores do evento. Mas essas pessoas acabam furando o cerco e entram nas salas dos desfiles mesmo sem convite. Resultado: as salas nunca estiveram tão lotadas.

Bem fez Isabela Capeto, a carioca que é uma das maiores promessas do made in Brazil. Seu desfile foi logo cedo, ontem de manhã, evitando a presença desses “penetras fashion”. Isabela traz sua visão de um novo luxo. O luxo supertrabalhado de peças de patchwork de paetês e estampas que ficam ainda melhor quando “escondidas” sob um vestidinho de tule rosa ou uma camiseta meio “podrinha”. Nesta mistura do brilho e do sujo, entram os contos de fadas com a figura das Princesas ou uma historinha de terror com caveira floral. Nas blusas, nervuras e casinhas de abelha bem delicadas, com corte Império. O sapatinho pode ser de princesa, em camurça pastel, ou bota caubói metalizada com detalhe de camurça.

Num desfile emocionante, Alexandre Herchcovitch faz uma serenata para cada look da coleção. Samba, rock, rap, jazz entram juntos na passarela (cada modelo vem acompanhada de seus músicos) numa orquestração tão moderna e instigante quanto sua interpretação do rococó neste século 21. Babadinhos em profusão e anquinhas invadem as peças. Os grandes hits são o trench-coat de laise impermeável com um incrível camuflado de nuvens e as peças de látex transparente com pássaros e flores – um verdadeiro encanto.

A Triton recupera a forma nesta estação. Interpreta o zeitgeist da juventude que quer vestidinhos brecholentos com brilhinhos novos, exatamente do jeito que Gisele Bündchen desfilou, em três versões (bege-pele, berinjela e lilás). Jaquetinhas de pele de carneiro, tops de rendinha, moletons e tricôs vêm com calça jeans muito justa dentro da bota, como manda o figurino do inverno.

Mineiro como ele, Ronaldo Fraga busca inspiração na poesia de Carlos Drummond de Andrade e imprime desde a cédula de 50 cruzados novos (moeda do final dos anos 80) com sua efígie até seus bilhetes e cartas. Poesia à parte, o maior avanço de Fraga está na coleção masculina, em proporções mais contemporâneas.

Ao entrar na sala de Ricardo Almeida, a platéia já encontrava os modelos na passarela, envolta em cortina preta transparente. Almeida dispensou a presença de vips e celebridades e focou na roupa. O resultado foi evidente:
seu homem ganha mais informação de moda e modernidade. Em tons escuros, a silhueta seca e justa com bolsinhos utilitários desperta desejo de compra até das mulheres – a exemplo da Dior Homme, criada por Hedi Slimane, que tem Madonna e modelos entre suas clientes.

Na Zapping, o casamento do espetáculo no gelo Holiday on Ice com o movimento beatnik deixou a desejar, apesar do bom humor e do espírito escapista característicos da estilista Thais Losso estarem presentes. O melhor são os jeans com muito brilho e as minissaias teen, de preferência na malha listrada de preto-e-branco.

Como sempre acontece, a Osklen se inspira em lugares bacanas para passar as férias, como a aventureira Patagônia e seu inverno austral. As leggings confortáveis ficam surpreendentemente boas nos homens, pontuando uma silhueta justa em baixo com casacões de tricô rústico – um look ótimo para noites na montanha em frente à lareira.

Lilian Pacce (colaborou Camila Yahn)

12