SPFW primavera-verão 2005/06 – Terceiro Dia
Estamos chegando à metade da temporada de lançamentos para a primavera-verão 2005/06 no São Paulo Fashion Week. Ontem o dia terminou com a feminilidade ocupando o lugar da sensualidade na Forum. E começou cedo na Bienal, com o desfile masculino de Fause Haten. Depois os fashionistas se deslocaram até uma galeria no Jardim Europa para ver o desfile de Pedro Lourenço, o estilista de 14 anos que acaba de ser tema de reportagem da Pop, a cobiçada revista inglesa de moda, uma das melhores do mundo.
Nosso Mozart da moda domina um vocabulário de vanguarda e, astutamente, propõe uma coleção mais autoral do que as tendências comerciais que dominarão a próxima temporada. “Acho que é um momento Chanel, de voltar para a alta-costura de uma outra forma, um novo olhar”, afirma Pedro com maturidade no discurso e na roupa, numa referência clara à exposição que homenageia a estilista Coco Chanel em Nova York, e respirando os ares couture que sopraram na última temporada internacional. O desfile tem basicamente três momentos. Num belo trabalho em couro preto debruado de branco, ou vice-versa, ele traz macacões e vestidos anatômicos com recortes e adereços utilitários, como a ótima manga que já vem com bolsinhas, como a dos jogadores de golfe. Depois entram os vestidos fluidos, de musseline rosinha ou azul-bebê, drapeados como cortina, ou de estampa floral com aplicação de flores do mesmo tecido. E termina com vestidos tomara-que-caia rosinha tipo corselet, amarrados de cima abaixo, que fariam Chanel revirar no túmulo (foi ela que pregou a libertação feminina desta peça tão tirana), mas causariam a admiração de Mr. Pearl, o famoso corseleteiro internacional. Na contramão dos volumes, Pedro quer tudo justo, sexy, com apenas uma pitada de romantismo.
As cores da bandeira brasileira ganham tom elegante no verão 2006 da Forum, que aposta cada vez mais no segmento feminino, distanciando-se do jeans que a consagrou. Tufi Duek revitaliza o inverno que deu certo em vestidos drapeados misturando jérsei de seda e georgete, em modelos que levam a cintura para cima, valorizando o busto. O verde, azul e amarelo se misturam ao preto para a noite. As saias tulipa vão bem, como no modelo de algodão cru de Jeísa no início. Para completar esta brasilidade refinada, o toque da renda branca em molengo top drapeado de jérsei branco.
“Para mim hoje, novo é o homem arrumado”, diz o estilista Fause Haten sobre sua coleção masculina. A afirmação faz sentido na primeira parte do desfile, de camisas e paletós com a clássica calça. Depois se contradiz, trocando a calça por bodys de mergulho ou bordando o clássico paletó com muitas tachas de metal. Hummm…
Já o homem da British Colony é um surfista urbano, com cabelo oxigenado e bermuda de mergulho de leve neoprene usada com casaco ou bermudão de plástico transparente. Ou seja, dá pra trazer a roupa de mergulho para a rua… A estampa principal tem poás sobre listras coloridas e o saruel mantém seu lugar garantido neste armário. Os colares criam um novo estilo havaiano, misturando vários materiais, sem medo de aparecer.
A mineira Vide Bula fez uma passarela incrível de madeira machetada, onde entre os muitos desenhos, havia a frase “Protect me from what I want”. Nada mais jovem do que isso, e que bom que a marca mantém sua despretensão bem-informada. “A jogada é a liberdade de tudo, sem preconceitos”, resume Giácomo Lombardi, dono da marca. O jeans é o foco principal – das calças ao longo frente-única. A estampa é basicamente psicodélica, para ele e para ela, para paletós e bermudas, bolsas e batas. Os meninos usam calça à hip hop que vem com nova pochete pendurada atrás. Mas em vez da cueca branca, exibem sungas em tons fluorescentes. A mulher usa vestidos de linho com índigo e bota caubói colorida com cobra ou sandália rasteira. “Se eu pudesse só faria cor, isso é o Brasil. Aí quando chega o inverno é aquela chatice de marrom, cinza, preto…”, lamenta Lombardi, avisando que não vai entrar na nova onda do preto. “Vou colocar cor no próximo inverno, temos quase mil peças por coleção e há espaço para tudo.”
Na marca Uma, Raquel Davidowicz deixa de lado a influência dos esportes e roupas utilitárias para focar numa estética minimalista que transita entre os anos 80 e os 90. Até a passarela era clean, em forma de caixote branco, para mostrar uma cartela de cores de beges e cinzas com muito branco e pontos de verde e laranja. Num clima de androginia light, ela aposta em paletós desestruturados, regatas cavadas e sobrepostas, calças que voltam a ter preguinha e bermudas duplas, com bainha virada. “Quis fazer uma coleção que agrada tanto o homem quanto a mulher. É uma alfaiataria para o dia-a-dia”, conta Raquel, que também elegeu o algodão como base de seus looks para o verão.
Os biquínis da Água de Coco fazem um mergulho no fundo do mar, em ótima estampa turquesa sobre marinho, com música ao vivo de Vanessa da Mata, numa verdadeira reencarnação de Gal Costa, direto dos anos 60 para o século 21.
Além de peixes e conchas, há modelos com algas e estrela-do-mar, como o biquíni de crochê. Há ainda listras navy (marinho e branco) ou coloridas, paisagem de praia do Nordeste (com jangadas e palmeiras). A estampa de palha é delicada e contrasta com a praticidade dos biquínis de jeans, que já vem com bolsinho para as necessidades mínimas da praia. Tudo com muitas pulseiras e colares – os acessórios estão em ascensão total.
Separado de seu ex-sócio, Lorenzo Merlino procura rever suas origens resgatando cores (ouro claro, lilás) e formas de seu acervo. Precisa se aprofundar mais porque o resultado ficou com gosto de déjà vu. O melhor são os biquínis e maiôs – um bom filão para o futuro.
Lilian Pacce (colaboraram Jade Augusto Gola e Ailton Pimentel)
SPFW primavera-verão 2005/06 – Segundo dia
Em mais uma homenagem nesta temporada de lançamentos para o verão 2006, o mineiro Ronaldo Fraga coloca a costureira Nilza em primeiro plano em seu desfile no São Paulo Fashion Week, que vai até segunda-feira na Bienal, no parque do Ibirapuera. Fraga está mais leve sem abandonar os volumes que sempre caracterizaram seu trabalho. É linda a imagem de abertura com a top Carol Trentini usando longo de seda rosa e verde, em tons esmaecidos, entre as máquinas de costura do cenário. A maioria dos vestidos é evasê, de preferência levemente acinturada na frente e solta atrás. O paletozinho de laise branca é vestido do avesso, com seus debruns impecáveis, mostrando que d. Nilza sabe trabalhar bem o acabamento das peças.
O volume godê aparece mais nas saias, com aplicações de flores de tecido ou muitos corações. Entre os muitos bordados, impressiona o resultado das flores metalizadas feitas de latinha reciclada como o vestido verde do final. Na cabeça e nas sandálias, um porta-alfinetes de veludo vermelho. Um bom momento para Ronaldo.
Emocionante a participação especial do cantor Jamelão, de 92 anos, mangueirense tradicional, no final do desfile da Poko Pano. Com o espírito de customização, a estilista Paola Robba tirou a poeira dos biquínis da vovó e fez um desfile inspirado em modelagens dos anos 50 e 60. Mas o resultado não é retrô, e sim delicado, com lacinhos e calcinhas altas, e muita valorização de trabalhos manuais, como o ótimo modelo de crochê turquesa usado por Juliana Imai, ou o uso de cianinhas coloridas em biquínis e maiôs.
Os garotos investem no sungão. “Não tem como fugir, o sungão já é algo já estabelecido”, diz Paola. Pulseirinhas de bolas coloridas e munhequeiras de crochê são os acessórios da marca, que desfilou sua coleção em meio a 6 mil pratos de porcelana e o vozeirão de Jamelão.
O revival dos anos 70 e do flower power é inspiração de muitos estilistas para a próxima temporada. O carioca Carlos Tufvensson entrou de cabeça no psicodelismo e começou bem, explorando tons de pink e amarelo em longos fluidos de seda com top de lástex e manga sino. Linda a nova top Cíntia Dicker com coroa flores naturais em seu cabelo ruivo – enquanto girassóis esperavam os convidados em cada lugar da pacífica sala 4, toda branca, no último andar da Bienal. “O verão brasileiro é isso, cor e alegria”, diz o estilista, que explora também degradês de laranja e lilás. Mas infelizmente entre uma estampa floral e um patchwork de tiras de cetim, as modelagens ficam repetitivas e acabam brecando o que podia ser de fato um avanço.
Na Sais, segunda marca da festejada Rosa Chá, tudo é bem simplificado. Na trilha do dj Zé Pedro, só músicas com a palavra “flores” e a margarida foi a escolhida, em estampas ou vazados nos biquínis. Segundo Riva Slama, mulher de Amir, o romantismo dos laços pontua a coleção desde o início, com a onipresente Isabeli Fontana num biquíni de laço gigantesco. As cores são fortes e as estampas quase infantis, como o arco-íris ou a borboletinha aplicada. Aqui, como na maioria dos desfiles de moda praia até agora, a calcinha larga, tipo sunguinha, tem destaque. Parece que as meninas de hoje querem mais é conforto na hora de ir para a praia. Os modelos pequenininhos, como os da Cia. Marítima, ficam para as mais velhas.
Com Rappin’ Hood ao vivo, a Ellus fechou a noite de terça-feira reunindo seu masculino e feminino num mesmo desfile em nome de seu produto principal: o jeans, que aqui ganha o aposto deluxe – na trilha dos jeans premium que conquistam o mundo. As calças apostam na modelagem bem justa, com duas
variantes: o jeans escuro, puro, mais tradicional, e o detonado com lavagens e processos manuais, que faz surgir os fios brancos. Tingimentos e lavagens pontuam a coleção também nos tie-dyes de vestidos mais soltos – mas
sensuais- e camisetas podrinhas, como pedem esses tempos. “Ela é romântica sem ser bobinha – e sexy”, define Nelson Avarenga. A cor forte fica para os meninos, em total look limão, azulão, rosa, com bota idem. “É como se tivesse alguém gritando:‘Ei, olha aqui as cores’”, brinca ele que só usa preto, colocando o homem como objeto cenográfico de apoio à sensualidade feminina.
Lilian Pacce (colaboraram (Jade Augusto Gola e Ailton Pimentel)
SPFW primavera-verão 2005/06 – Fechamento Segundo dia
A Zoomp fechou o segundo dia de São Paulo Fashion Week com uma aula de sensualidade quase maquiavélica. Juntou numa única peça dois itens iconográficos do estilo brasileiro: o biquíni e o jeans, num resultado incrível que faz a marca do raio ganhar um novo brilho. A calça jeans superjusta parte da modelagem de um biquíni, com direito à vazado na lateral – páreo para a imbatível calça da Gang numa Isabeli Fontana supersexy. “A Zoomp nasceu do jeans, tem sangue azul mesmo. Nosso primeiro desfile, em 1979, trazia no convite a frase ‘sexy jeans’”, festeja Renato Kherlakian. O maiô também dá a forma aos vestidos de malha de viscose e macacões agarrados ao corpo.
A coleção tão acertada saiu da memória da própria Zoomp, que reativa também a silhueta clochard (calça alta de cintura franzida) mas fica melhor quando traz este volume para o estilo rap, de cintura mais baixa, usada com regata megavazada.
De olho na Londres dos anos 60 – especialmente no estilo Biba e de Zandra Rhodes – a Triton enche sua passarela de tulipas gigantes e brinca de aplica-las de ponta-cabeça em vestidões-bata, como o de Carol Trentini ao final. Essas aplicações florais são o ponto principal e se misturam bem a estampas de girafa. O chapéu romântico na verdade denuncia a malícia do personagem de Jodie Foster no filme Táxi Driver (1976), de Martin Scorsese – mimetizada com perfeição por Jeísa Chiminazzo e sua calça branca de cintura altíssima. O georgete e o voal de algodão dominam os vestidões e as batas, ora soltos ora com lações na cintura. Os shorts bufantes também vêm com cintura marcada. É roupa para meninas muito antenadas…
Em mais uma homenagem nesta temporada, o mineiro Ronaldo Fraga coloca a costureira Nilza em primeiro plano em seu desfile no São Paulo Fashion Week, que vai até segunda-feira na Bienal, no parque do Ibirapuera. Fraga está mais leve sem abandonar os volumes que sempre caracterizaram seu trabalho. É linda a imagem de abertura com a top Carol Trentini usando longo de seda rosa e verde, em tons esmaecidos, entre as máquinas de costura do cenário. A maioria dos vestidos é evasê, de preferência levemente acinturada na frente e solta atrás. O paletozinho de laise branca é vestido do avesso, com seus debruns impecáveis, mostrando que d. Nilza sabe trabalhar bem o acabamento das peças.
O volume godê aparece mais nas saias, com aplicações de flores de tecido ou muitos corações. Entre os muitos bordados, impressiona o resultado das flores metalizadas feitas de latinha reciclada como o vestido verde do final. Na cabeça e nas sandálias, um porta-alfinetes de veludo vermelho. Um bom momento para Ronaldo.
Emocionante a participação especial do cantor Jamelão, de 92 anos, mangueirense tradicional, no final do desfile da Poko Pano. Com o espírito de customização, a estilista Paola Robba tirou a poeira dos biquínis da vovó e fez um desfile inspirado em modelagens dos anos 50 e 60. Mas o resultado não é retrô, e sim delicado, com lacinhos e calcinhas altas, e muita valorização de trabalhos manuais, como o ótimo modelo de crochê turquesa usado por Juliana Imai, ou o uso de cianinhas coloridas em biquínis e maiôs.
Os garotos investem no sungão. “Não tem como fugir, o sungão já é algo já estabelecido”, diz Paola. Pulseirinhas de bolas coloridas e munhequeiras de crochê são os acessórios da marca, que desfilou sua coleção em meio a 6 mil pratos de porcelana e o vozeirão de Jamelão.
Marcelo Sommer anda circunspecto, cada vez mais distante do lado lúdico e streetwear que fez seu nome. Depois da melancolia do inverno na Islândia, o estilista faz uma apresentação cheia de drama invocando a arte tiki da Polinésia. O cenário minimalista trazia pontos de luz para reforçar uma metáfora criada pelo diretor Alberto Renault: "Hoje as pessoas estão em busca do seu verdadeiro eu. As imagens não têm significado específico, mas o uso de espelhos e a postura dos modelos com a mão no pulso são tentativas de se sentir, sentir o bater do coração, a energia dos chakras”, filosofa Renault.
As formas contrastam volumes de babados e camadas à silhueta mais seca e acinturada. O trabalho forte de estampas começou numa viagem à Holanda, onde Sommer comprou os tecidos fabricados exclusivamente para o continente africano, com estampas clássicas dali. Outro esmero foi encomendar botões de cerâmica e madrepérola para dar acabamento aos looks 100% algodão e também de gaze, chamois ou palha _ material eleito para forrar o sapato de salto anabela. As cores seguem a natureza, como os tons de terra, verde e azul.
O revival dos anos 70 e do flower power é inspiração de muitos estilistas para a próxima temporada. O carioca Carlos Tufvensson entrou de cabeça no psicodelismo e começou bem, explorando tons de pink e amarelo em longos fluidos de seda com top de lástex e manga sino. Linda a nova top Cíntia Dicker com coroa flores naturais em seu cabelo ruivo – enquanto girassóis esperavam os convidados em cada lugar da pacífica sala 4, toda branca, no último andar da Bienal. “O verão brasileiro é isso, cor e alegria”, diz o estilista, que explora também degradês de laranja e lilás. Mas infelizmente entre uma estampa floral e um patchwork de tiras de cetim, as modelagens ficam repetitivas e acabam brecando o que podia ser de fato um avanço.
Na Sais, segunda marca da festejada Rosa Chá, tudo é bem simplificado. Na trilha do dj Zé Pedro, só músicas com a palavra “flores” e a margarida foi a escolhida, em estampas ou vazados nos biquínis. Segundo Riva Slama, mulher de Amir, o romantismo dos laços pontua a coleção desde o início, com a onipresente Isabeli Fontana num biquíni de laço gigantesco. As cores são fortes e as estampas quase infantis, como o arco-íris ou a borboletinha aplicada. Aqui, como na maioria dos desfiles de moda praia até agora, a calcinha larga, tipo sunguinha, tem destaque. Parece que as meninas de hoje querem mais é conforto na hora de ir para a praia. Os modelos pequenininhos, como os da Cia. Marítima, ficam para as mais velhas.
Lilian Pacce (colaboraram Jade Augusto Gola e Ailton Pimentel)
10 anos de SPFW – Primeiro dia primavera-verão 2005/06
Dia de aniversário é dia de festa. E Ricardo Almeida cumpriu o que prometeu.
Para comemorar os dez anos de São Paulo Fashion Week, ele criou um lounge com muito champanhe para receber seus modelos globais – de Marcelo Anthony com seu filho fofo à emocionante entrada de Raul Cortez, que está em pleno tratamento quimioterápico, passando pelo cantor-ator Seu Jorge, que abriu o desfile ao lado de Paulo Borges, diretor do SPFW.
Almeida estava preocupado com a reação da imprensa especializada de moda diante de tanto show e desta overdose de celebridade, páreo para a novela das oito. Mas ele pode relaxar. Para seus costumes (terno sem colete) de corte reto, de tecidos nobres, ele optou por uma cartela de tons claros (cinza principalmente), com camisas coloridas ou estampadas. O sapato era preto supersocial ou bege-claro, mais casual e quase estranho. Os rapazes ficavam ali conversando e bebendo, formando naturalmente grupinhos. Claro que os atores estavam mais à vontade do que os socialites e fotógrafos, mas a performance foi ok. Ao final, os pais trouxeram seus rebentos para desfilar a nova linha infantil do estilista, que insistiu para o filho Ricardinho de 2 anos, colocar a mão no bolso da calça.
Já a comemoração de Alexandre Herchcovitch tem outro tom. A sala era toda branca com a platéia de frente para o parque Ibirapuera, onde acontecem os 51 desfiles desta temporada primavera-verão 2005/2006 do São Paulo Fashion Week. As modelos desfilavam entre peças de acrílico saídas do universo infantil. A top Isabeli Fontana abriu, com cabelo de traça de raiz que virou assunto do dia. O cabelo, que leva de duas a três horas para ficar pronto, leva quase o mesmo tempo para ser desfeito e muita top acabou estrilando com os puxões na hora de desmanchar o penteado e correr para o próximo desfile…
A coleção é mais um primor do estilista. Ele recupera os anos 70 em estampas e tecidos (com tecnologia de hoje). Combina com cabelo rasta e volumes dos anos 50 e 60, dando ênfase principalmente ao balonê e tulipa ao marcar a cintura alta com cintos largos, de couro trabalhado. Teoricamente, tudo seria over: a mistura de estampas, a sobreposição de tecidos, os babados, o exagero dos volumes. Mas este é o segredo e a chave do talento de
Herchcovitch: transformar e surpreender. O resultado é romântico e leve, tanto nos vestidos com saiote de tule logo abaixo do busto, quanto nos terninhos de bermuda-bloomer. Os sapatos também merecem destaque: com plataforma de madeira e enfeite de flor de couro ou laço. Aliás, o laço promete marcar presença no verão 2006.
Na Patachou, a estilista Terezinha Santos aposta em elementos de brasilidade como algodão cru, crochê de grampo, cores claras. As tramas abertas ou a transparência do voal de algodão são compensadas com maiôs e biquínis usados por baixo, criando uma nova lingerie. Até a roupa de noite, como os longos 70’s, vêm em algodão, com flores de tecidos aplicadas. As cores claras casam bem com tons fechados de verde e vermelho e uma pitada de preto. As sandálias de corda com veludo de seda e solado de flores são de um luxo rústico contemporâneo. E esta moça usa até tiaras made in Brazil: de algodão cru com tucumã da Amazônia, e desfila sobre um autêntico linóleo.
Já na passarela de madeira da Osklen, o Brasil aparece sob um prisma mais carioca, o melhor da nobreza carioca. As estampas tropicais vêm nos vestidos de algodão ou leve tafetá e calças de cintura mais alta, com laço na cintura, um novo jodhpur. O macaquinho é ponto de partida: blusê ou sequinho, quase um maiô. Os acessórios de megapingentes arrasam na chiqueria, assim como as sandálias rasteiras, de dedo. A Osklen não faz moda praia mas faz moda de praia. Para o dia e para a noite, como prova o look da top Raquel Zimmermann: camisa branca de gazar com short preto em escalope, bolsa de paetê de metal e tênis. Simples e chic assim.
Com Rappin’ Hood ao vivo, a Ellus volta a reunir seu masculino e feminino num mesmo desfile em nome de seu produto principal: o jeans, que aqui ganha o aposto deluxe – na trilha dos jeans premium que conquistam o mundo. As calças apostam na modelagem bem justa, com duas variantes: o jeans escuro, puro, mais tradicional (que não entra no desfile), e o detonado com lavagens e processos manuais, que faz surgir os fios brancos. Tingimentos e lavagens pontuam a coleção também nos tie-dyes de vestidos mais soltos – mas sensuais- e camisetas podrinhas, como pedem esses tempos. “Ela é romântica sem ser bobinha – e sexy”, define Nelson Avarenga. A cor forte fica para os meninos, em total look limão, azulão, rosa, com bota idem. “É como se tivesse alguém gritando:‘Ei, olha aqui as cores’”, brinca ele que só usa preto, colocando o homem como objeto cenográfico de apoio à sensualidade feminina.
Num explícito falso bronzeado, Isabeli Fontana abriu o desfile da Cia Marítima, mas quem causou furor na passarela foi a modelo Daniela Sarahyba.
Bem mais magra que o habitual, a carioca – que é estrela da campanha de verão da marca de moda praia – é a tradução da garota Cia Marítima: corpo sob medida para qualquer biquíni e uma paixão por acessórios como brincos candelabros, pulseiras e apliques. A trilha flertou com hits dos anos 70 e o casting resgatava modelos da primeira edição do SPFW, em 1996, como Isabela Fiorentino, Gianne Albertoni , Sabrina Gasperin e as gêmeas Carolina e Mariana Bittencourt. O desfile, inspirado na Índia étnico-chique, propõe biquínis e saídas de praia em tie-dye, oncinha, florais grandes, arco-irís e cashmere, como o do maiô de Adriana Lima, bordado com paetê bronze sobre fundo azul noite. Na modelagem, o mais novo são os biquínis de tirinha, que parecem “pendurados”. “Foi um leitura da moda de rua, das mulheres que saem de calça jeans com calcinha aparente”, diz Mariana Adans, da equipe de estilo.
Se o momento é oportuno para se falar em agitação política, o estilista Mario Queiroz quer a palavra para seu verão 2006 e se inspira na efervescência política e cultural dos movimentos sociais de 68. Seus ativistas usam estampas lavadas, que parecem de lambe-lambe, com jeans rasgados, ou camisas de laise, para um tipo metrosexual. “Não costumo me preocupar com a idade, mas tenho que rejuvenescer a roupa que eu faço”, diz.
Lilian Pacce (colaboraram Jade Augusto Gola e Ailton Pimentel)
Começa hoje a SPFW primavera-verão 2005/06
A São Paulo Fashion Week começa hoje na Bienal reunindo 51 desfiles para a primavera-verão 2005/06. Num momento Marcelo D2 (o rapper que estrearia sua marca no Fashion Rio e cancelou o desfile em cima da hora), o mineiro Renato Loureiro resolveu ficar fora desta edição, que comemora 10 anos. Mas nada que abale o espírito de celebração que baixou nos fashionistas nesta temporada: desde a abertura da exposição do fotógrafo Otto Stupakoff no domingo, passando pelo lançamento do livro Atitude Fashion, do fotógrafo Marcos Rosa, até a festa de 10 anos do GNT Fashion no Memorial da América Latina.
É neste clima que Ricardo Almeida dá a largada hoje às 14h30. “Há dez anos eu abro os desfiles e para comemorar transformei a sala num lounge onde amigos e clientes vão desfilar”, diz. Por “amigos” entenda-se uma lista de quase 40 celebridades que inclui os globais Thiago Lacerda, Murilo Rosa, Rodrigo Santoro e Fabio Assunção. Com um elenco deste, Almeida sabe que seu trabalho propriamente dito não vai receber muita atenção. “Na última temporada, mostrei o lado mais fashion da marca. Nesta, sei que as roupas mal vão ser vistas…”
Na seqüência, numa sala também pequena, interpreta os anos 70 de modo pessoal e intransferível, com roupas leves em cores fortes. O estilista confirma a sobrevida da moda das batas no próximo verão – para alegria das brasileiras que fizeram desta peça um jeans da parte de cima. Aliás, desde o verão passado (aquele do cenário das flores) ele tem trabalhado esta forma que, acredita, é uma maneira da mulher se acostumar a volumes mais amplos – ao contrário do arquétipo nacional de quanto mais justo melhor. O cabelo deve ser um show à parte: cada um leva duas horas para ser finalizado, revela Herchcovitch, que leva este desfile para Nova York em setembro, assim como a marca Rosa Chá e agora também a Sais – ambas de Amir Slama.
Outro nome brasileiro que tem conquistado o mercado internacional é a mineira Tereza Santos, da Patachou. Ela aposta no equilíbrio de tramas e texturas, marca registrada de sua confecção. “Para conseguir uma atmosfera chique e despojada, trabalhei o tricô com misturas de fibras naturais e fiz uma grande pesquisa de pontos e volumes”, afirma a estilista que contratou uma equipe globalizada para expressar suas idéias na passarela. Além de Lena Pessoa, brasileira radicada na França, a equipe tem stylist alemão e trilha sonora do francês Michel Gaubert, o mesmo que assina os desfiles da Chanel e produz os CDs da badalada butique Colette, em Paris.
Também em clima de aniversário, a Cia Marítima é o gigante da moda praia que comemora quinze anos de sucesso. O desfile com cenário de Daniela Thomas e trilha sonora de Zé Pedro vai mostrar biquínis-jóias dos anos 70, com aplicações de pedras semipreciosas. O exotismo chique da Índia com muitos caftãs e peças em jeans tie-dye é outro ponto forte. No casting (elenco de modelos), nomes que brilharam nas primeiras SPFW, como Cássia Ávila, Isabela Fiorentino e Sabrina Gasperin. “Além de reforçar a festa de quinze anos da Cia Marítima, estas meninas que hoje têm trinta anos têm um corpo muito melhor do que a nova geração de modelos – lindas, porém magras e muito flácidas”, avalia Fabiana Kherlakian, diretora de criação. A marca de Benny Rosset promete apresentar bons complementos para as gatas da areia como as sandálias de cetim de seda desenhadas pela carioca Constança Basto, a sapateira de luxo que tem loja em Nova York.
A moda praia promete outros momentos de luxo. A Rosa Chá, depois de um bom tempo de desenvolvimento de produto, lança finalmente a linha praia assinada pela top inglesa Naomi Campbell, que pretende valorizar biquínis e maiôs brancos. O jovem Samuel Cirnanski, que estreou na última temporada, promete levar para a moda praia o mesmo espírito alta-costura de seus vestidos e lança biquínis de couro em seu desfile no próximo domingo.
A ópera promete desdobramentos brechtianos na passarela da Zapping, desenhada por Thaís Losso. Thaís fez o figurino de Zap, O Resumo da Ópera, de Marcelo Tas, durante o Festival de Ópera do Amazonas, e se envolveu com este universo e com a Itália. Ao descobrir O Rigoletto, de Verdi, ela acabou vestindo a bandeira italiana e promete explorar tradições do país da bota que vão da comida ao cinema, passando pela música e o futebol.
Aliar o seu jeans deluxe com celebridades é uma fórmula que vem sendo elaborada pela Ellus. Desta vez, Fernanda Torres é a eleita – depois de Xuxa e Daniela Cicarelli – para estrelar a campanha da marca de Nelson Alvarenga, que vai ser clicada durante a temporada de moda, pelo fotógrafo Miro. Mas a atriz não vai se arriscar na passarela, que reúne a coleção masculina e feminina num só desfile, focado no jeanswear urbano e veranil. Fernandinha estará com o marido Andrucha Waddington acompanhando tudo na primeira fila hoje à noite.
Lilian Pacce (colaborou (Ailton Pimentel)



