07.07.2005 às 2:50

Moda se insipira no cinema

Que a moda está sempre se inspirando nas ruas e nas artes, a gente já sabe. Nesta temporada de lançamentos para a primavera-verão 2005/06, a estilista Isabela Capeto acionou a obra do pintor francês Henri Matisse, por exemplo, e desfilou no Museu de Arte Moderna (MAM) entre as telas que exibem as “Motion Pictures” de Andy Warhol. Muitas grifes preferiram se associar a diretores de teatro renomados como Filipe Hirsch (Raia de Goeye), Zé Celso Martinez Correa (Cavalera), Bia Lessa (Huis Clos) e Alberto Renault (Sommer), para empacotar suas apresentações no São Paulo Fashion Week. Mas foi a sétima arte quem mais ofereceu belas imagens para os desfiles que rolaram durante sete dias tendo a Bienal como QG principal.
 

Uma estampa, uma cor, uma música e até uma coleção inteira nasceram de uma sessão de cinema. Em alguns casos, o filme serviu para afinar idéias e definir melhor o conceito da coleção. Logo no primeiro dia, Alexandre Herchcovitch em fase anos 70 se lembrou das trancinhas afro de Bo Derek, no filme Mulher Nota Dez: “Há três edições trabalho com tranças e pensei em fazer exatamente aquele cabelo, que consumiu duas horas para ficar pronto, com mínimas adaptações como os búzios nas três tranças frontais e as contas aplicadas na parte de trás. Esta imagem da Bo Derek estava na minha cabeça há muito tempo. Agora foi o momento certo de usá-la”, diz Herchcovitch. Além das trancinhas, as modelos usavam boinas com penas para mostrar sua salada de estampas (azulejos, flores psicodélicas, op-art bicolor) em volumes que saem da cintura império. 
 

Também da década de 70, Tufi Duek resgata para a Triton o look da então ninfeta Jodie Foster em Táxi Driver. No filme de Martin Scorsese ela perambulava pelas ruas de Nova York vestida com os ombros à mostra, short de cintura alta, sandália de plataforma e chapéu de abas largas arrematado com flores (na versão da Triton, basicamente tulipas, aplicadas nas saias rodadas, batas e até no cenário de papel craft). “Primeiro surgiu a idéia de anos 70, Biba e Zandra Rhodes (dois ícones de moda londrina). Por último, veio Taxi Driver”, diz Duek. Mas pode-se dizer que ele fez uma grande homenagem às adolescentes das telonas, indo da beleza inocente de Brooke Shields em Menina Bonita (onde a jovem atriz interpretava a filha de uma prostituta) à maliciosa Lolita, que já foi contemplada com duas versões: em 1962 com Sue Lyon e em 1997 com Dominique Swain no papel-título.
 

O longa italiano Respiro conta a vida de Grazia, uma mulher casada e mãe de dois filhos, marcada por um temperamento bipolar, que alterna momentos de felicidades com acessos de raiva. Tanto a direção de Emanuele Crialese quanto a interpretação de Valeria Golino deixaram a estilista Gisele Nasser “em choque”. “Vi o filme com uma turma de estilistas, como a Emilene Galende, Fábia Bercsek e J.Pig. Fiquei um ano com ele na cabeça pensando como usar esta referência numa coleção de verão”, conta Gisele. Aqui, o filme veio primeiro, depois surgiu a coleção, sob medida para expressar todos os desejos da personagem perturbada na atmosfera sensual do Mediterrâneo. “Antes de ter a silhueta, defini a cartela de cores e senti que fechei o conceito, tendo a imagem de uma mulher sensual, feminina, frágil, forte… Acho que me marcou tanto porque estava atravessando uma fase muito parecida”, ri.
 

A Itália dos anos dourados também foi homenageada pelo casamento moda e cinema feito pela Zapping. Fernanda Tavares usando tubinho ultra-decotado e laço com estampa vichy na cabeça foi a modelo escolhida para encarnar a Sophia Loren da marca, que desfilou ainda clones de Monica Vitti e outras musas do Cinecittá. “Me inspirei completamente na Itália e cada filme rendeu uma inspiração”, diz Thaís Losso sobre sua última coleção como estilista da Zapping.
 

De Cinema Paradiso, ela tirou aquela cena que o menino assiste ao filme proibido pelo padre, uma montagem de beijos, que foi encenada na passarela e virou estampa grafitada. O clássico Dolce Vitta, de Fellini, virou Dolce Zapping. De Pato com Laranja nasceram as estampas psicodélicas. “De Boccacio 70, que é super sensual, fiz uma leitura dos cartazes de filmes pornôs italianos da década de 70”, conta Thaís.
 

O estilista carioca Maxime Perelmuter elege Mad Max, a trilogia estrelada pelo australiano Mel Gibson nos anos 80, como referência de imagem para a sua British Colony. “Não vou dizer que parti do filme, mas foi um visual masculino que escolhi para facilitar a compreensão da coleção”, afirma. O resultado na passarela, tomada por uma casting de modelos com cabelo de corte moicano totalmente descolorido, em efeito platinum blonde, diluiu a inspiração no filme, que emprestou sua silhueta e temas como o caos e a poluição. “O que fiz foi transportar este caos e esta luta para evitar o fim dos recursos naturais para os trópicos”, explica. Perelmuter ressalta o contraste entre os tecidos sintéticos e naturais – no trench-coat e na bermuda de plástico transparente e nas peças 100% algodão – que serviram de base para as manchas de óleo e graxa também aplicadas no rosto, aqui numa alusão explícita ao filme.
 

A produção nacional ficou para o grand-finale da São Paulo Fashion Week. A Cavalera importou as três irmãs ceguinhas de Campina Grande (Maroca, Indaiá e Poroca), personagens do documentário A Pessoa é Para o que Nasce, de Roberto Berliner, para cantar na abertura do desfile feminino. Ao final, sentou o ator José Dumont, que vive o pai da dupla Zezé de Camargo e Luciano no novo filme Os Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira, bem em frente dos fotógrafos ao som da dupla mirim sertaneja que também atua no longa. Neste clima de sertão, a Cavalera cria imagens suaves, com rendas, babados e vestidos estampados para esta mulher de postura ereta, de quem vive com uma trouxa ou uma lata d’água na cabeça. Quem diria que um dia a moda brasileira olharia para o cinema nacional com tanta candura… (colaborou Ailton Pimentel)

Lilian Pacce

04.07.2005 às 6:25

SPFW primavera-verão 2005/06 – Último dia

A nova geração da moda brasileira mostra que veio para ficar. Nesta edição de lançamentos para a primavera-verão 2005/06 do São Paulo Fashion Week esses jovens estilistas, a maioria em sua segunda temporada no evento, souberam se aprimorar. É o caso de nomes como Gisele Nasser, Néon (da dupla Dudu Bertholini e Rita Comparato), Samuel Cirnansck e Fábia Bercsek, além de Isabela Capeto, que abriu o último dia com desfile no MAM (Museu de Arte Moderna), ao lado da Bienal, em meio aos telões que mostram os filmes de Andy Warhol na exposição Motion Pictures.
 

As flores de Isabela viram corações, maçãs e folhagens de samambaia nesta temporada, insipiradas nas formas do pintor francês Henri Matise (1869 – 1954). Eles são aplicados no microvestido vermelho frente-única, no longo branco de alcinha ou na calça branca, criando um efeito camuflado em tons de musgo e marrom. A delicadeza das nervuras vem desde o início, em blusas, batas e vestidos, arrematadas com plaquinhas de cobre. Nada é simples na construção da carioca Isabela, mas tudo tem a medida certa. Com sua mania de recortar e colar tecidos, até as listras de sua camiseta básica são de patchwork, assim como o xadrez aplicado sobre o vestido floral. Esta é Isabela Capeto em sua essência, evoluindo em sua trajetória no mercado da moda.
 

A semana terminou depois de 51 desfiles com a confirmação de uma nova brasilidade – especialmente o sertão no desfile da coleção feminina da Cavalera. Enquanto os meninos foram para o lado mais motocross do agreste do sertão nordestino, pegamos um clima mais de romance, de amor mesmo”, afirma Catarina Gushiken, uma das estilistas da marca. No cenário, a imagem de padre Cícero abre o desfile com pocket show das irmãs cegas (estrelas do filme A Pessoa é Para que o Nasce). Em seguida, as modelos desfilam suas rendas e estampas de cordel entre cadeiras “importadas” direto das casas de lá. As cores saem dos tons esmaecidos do sertão e de suas casas. “Eles misturam tinta com cal para render mais”, fala Catarina sobre seu rosa xique-xique, amarelo-cajá e verde-grilo. No final, entre plissados e lamês, usados com ótimos jeans detonados e um lindo sutiã de renda renascença, elas vêm com a postura elegante das mulheres que vivem com uma lata d’água na cabeça.
 

Dudu Bertholini e Rita Comparato cruzam o universo da sauna com a rotina de escritório, sempre dentro da estética dos anos 80 que eles curtem tanto. As estampas vão de motivos afro à pinceladas de tinta, passando por um pomar bem verde. A toalha vira top sensual e colorido quando vem no pescoço ou vestido-bata, como se estivesse enrolada no corpo saindo do banho. A cintura sobe em modelos stretch como a calça jeans ou a saia-bermuda franzida com minicolete branco em look old navy. O cinto tresse, outro ícone daquela época, afivela a coleção sustentando maiôs ou a lateral dos biquínis. Os bijoux são da artista chinesa radicada no Brasil Cristine Yufon, direto de galhos e sementes brasileiras. Ao final, a dupla cria mais uma vez um colorido tableux vivant, sob os aplausos da platéia.
 

A estilista Gisele Nasser traz para o Brasil uma idéia romântica de Itália, reforçada pela trilha de versões italianas de hits brasileiros e inspirada no filme italiano Respiro, de Emanuele Crialese: “É um paralelo na estética, na paisagem, e o filme trata do respiro como uma idéia de dar um tempo, de algo suave”, explica. As cores seguem o clima mediterrâneo com tons areia, cinza pedra, azul e verde oceânico, além do vermelho vulcânico – lisas ou em estampas de mandalas, estrelas do céu e do mar. O início em tons de areia é o ponto alto, tanto nos bordados de sutache quanto nas minipérolas brancas e cinzas que brincam de fundo mar, numa silhueta feminina e delicada.
 

Os anos 80 entram de novo na passarela de Fábia Bercsek, com o short jeans de cintura alta e camiseta com estampa metalizada (boa a versão rosê).
Melhor ainda quando o spencer listrado imprime um ar navy. O biquíni vai ganhando a praia de Fábia, assim como o tomara-que-caia até em macaquinhos.
O tricô vai se encorpando ao longo do desfile que começa nos biquínis (também à mostra como vimos na Raia de Goeye e Isabela Capeto) e chega soberano ao vestido rosê ou ao lindo casaquinho de Marcelle Bittar com bermuda saruel.

Lilian Pacce

04.07.2005 às 6:21

SPFW primavera-verão 2005/06 – Desfile Basso & Broke – Último dia

A anglo-brasileira Basso e Brooke estreou como marca convidada no São Paulo Fashion Week imprimindo literalmente sua alegoria sobre o poder da beleza na passarela. O santista Bruno Basso e o inglês Christopher Brooke despontaram na moda em setembro do ano passado, quando venceram o Fashion Fringe, prêmio britânico para jovens talentos de moda no valor nada irrisório de cem mil libras. A partir daí, o mundo todo olhou para eles e eles conquistaram até um contrato com o poderoso grupo italiano Aeffe, o mesmo que produz as coleções de Jean Paul Gaultier, Moschino e Narciso Rodriguez.
 

Aqui, eles mostraram ontem à noite uma prévia do que será visto apenas em setembro na semana de moda londrina. A marca registrada da dupla são as estampas digitais que não economizam cores nem imagens. Um misto de Pucci com Versace, Basso & Brooke são over até não poder mais. A fórmula do sucesso deve ser esta na soma exata do senso de humor e ironia inglesa com o colorido brasileiro.
 

Depois de estrearem com estampas eróticas de órgãos sexuais em estética art nouveau, agora eles viajam pelo mundo da beleza e da vaidade com a estética da pop art. Dois temas dividem esta coleção: as maquiagens (batons, bases, rimeis etc.) e poodles – o pet perua por excelência _ em todos os estilos, de Maria Antonieta à Boy George. Segundo Brooke, a modelagem sai toda de um círculo de tecido: tanto a da saia matelassada que abre o desfile na top Michelle Alves quanto no short mega-clochard.
 

As estampas vêm em modelagens limpas como a das leggings, maiôs e saia tipo jeans, mas também extravasam em volumes dos anos 50, em godês e ótimos drapeados, como a imagem de diva hollywoodiana de Gianne Albertoni encerrando o desfile. Para entender Basso & Brooke é preciso humor. E glamour.
 

Lilian Pacce

03.07.2005 às 6:17

SPFW primavera-verão 2005/06 – Penúltimo dia

Terminam hoje os lançamentos para a primavera-verão 2005/2006 do São Paulo Fashion Week, que reuniu nesta temporada 51 desfiles. Alguns caminhos já confirmaram: anos 70, psicodelismo, flores e florais, a volta do linho, o resgate da laise e do bordado inglês, a delicadeza dos laços, o uso e abuso dos babados. Continuam as batas (agora também em vestidões compridos), as saias e vestidos com volume (como o godê, balonê ou tulipa), os bordados com tecidos aplicados, o jeans (seco ou over à hip hop), os colares de bolas, as plataformas.
 

O domingo abriu com o desfile de Gloria Coelho que consegue filtrar todos esses caminhos e transformá-los com maestria a seu modo. Ela diz que a coleção tem anos 70, psicodelismo e hippies – referências que precisam de um olhar superaguçado para serem detectadas. Dos anos 70 vêm os longos. Do psicodelismo, as cores fortes (verde, laranja, azulão) que pipocam nos modelos pretos do começo. Dos hippies vem a vontade do flower power – que se realiza na profusão sofisticada de flores de chifom ou nas pétalas salpicadas dos bodys usados sobre elegantes casacos de gazar branco.
 

Delicada e moderna, a coleção brinca com tufos de tule que brotam da sandália, da manga e da lapela dos casacos até virarem saias que armam os vestidos-regata do início ou tomam conta do vestido todo em muitos babados no final. Fios de bolas e de flores ora são usados como colar, ora como cinto, arrematando a maioria dos looks. Entre o preto e o branco, tons suaves de bege e verde – como no lindo look usado por Laryssa Castro.
 

Depois do festival de lycra lisa e estampada que dominou os desfiles de moda praia, é um alívio ver o sertão virar mar no desfile da Rosa Chá, com Ronaldinho posicionado bem à frente das modelos – Raica, especialmente, sua mais nova jogada. A coleção inspirada no Nordeste fala do passado e do presente, de pinturas da época da invasão holandesa e tradições como o maracatu, com 80% dos looks confeccionados em tecidos planos, como palha de seda e cambraia. “Foi um desafio trabalhar com tecidos sem elasticidade”, conta Amir Slama.  A maria bonita da Rosa Chá desfila numa passarela que remete à terra seca e rachada do sertão, arrematada com 1.500 gotas de cristais.
 

Os primeiros looks tingidos em chá ficam no cru e pele, com drapeados, babadinhos e rendas que falam do lado mais rústico da coleção, sempre chic no tom certo. O biquíni vem com lenço do Lampião ou transforma cartucheiras em alças e cós de calcinhas mais largas. As peças têm um forte trabalho artesanal, como o maiô de Larissa Castro feito de macramé e o caftã estampado bordado com paetês metalizados que encerrou o desfile com Carol Ribeiro de rainha do maracatu – uma peça que leva cinco dias para ser feita.
 

E para ressaltar todo o trabalho de amarração com lenços em tons esfumaçados e tecidos retorcidos, as modelos ficam de costas para os fotógrafos, mostrando que Amir Slama nada de braçada num mar de criatividade.
 

Nessa maré fashion, as meninas da Raia de Goeye sonham com uma ilha à noite, onde podem usar suas batas bem à vontade com bermudas cada vez mais baixas, enroladas na bainha – mas nada de sandalinha rasteira. Esta Camilinha bem informada não abre mão de seu escarpin poderoso, azulão ou amarelo com salto dourado. As batas (de linho, cambraia ou seda) não têm nada de comportado.
 

Megacavadas, pedem um sutiã preto delicado embaixo, que faz parte do look, com estampas de flores tropicais ou samambaia. Num clima engana-mamãe, o vestido tomara-que-caia é o próprio batão na frente – mas mostra que é frente-única quando vira de costas e revela a microssaia ondulada, que é marca registrada das meninas Paula Raia e Fernanda de Goeye, sócias da marca. A direção cênica de Filipe Hirsch cria uma grande vitrine, onde a platéia de meninas chiques e desencanadas se divertem fazendo sua listinha de compras para o próximo verão.
 

Alexandre Herchcovitch imprimiu delicadeza à coleção em clima trucker e de borracharia americana dos anos 70. A referência direta é Joe Dalessandro no filme, (o ator pornô que se tornou cult ao cair nas graças de Andy Warhol e do cineasta Serge Gainsbourg), que  influenciou a escolha do casting dos próprios looks. “Foi uma brincadeira com a masculinidade, que vem mais delicada sem perder o tom fetichista”, conta o estilista, que desconstrói o terno ao colocar o paletó para dentro da calça, obtendo um efeito “terno borracheiro”.
 

O fetiche da borracharia vem também nos macacões de corte mais amplo, feitos de jeans ou sarja, nas correntes, nas botas tipo Ugg coloridas e fica selvagem com as peças de cobra sintética. Herchcovitch dilui essa masculinidade com o pink, florais e adornos. Mistura estampas, como o xadrez e as flores, como na coleção feminina, só que de maneira menos intensa.
 

Em sua segunda participação no SPFW, Samuel Cirnansck quer evocar o amor visceral e intenso. “São as formas mais brutas do amor: o sado, o romântico e o desesperado”, explica. Do s&m vem os bons looks de couro do início, com delicados babados. O lilás já é uma marca do estilista e vem diluído sobre tule preto bordado com espinhos negros em vestidos drapeados – um amor rosado que pode machucar… A silhueta passa longe dos anos 50 desse inverno. Muito ao contrário, é sinuosa, entre os anos 30 e 40, como o longo preto com cauda bordado com fios de canutilho.
 

O homem que a marca VR Menswear quer vestir é urbano, tecnológico e despojado. Para ele, o estilista Alexandre Brett propõe peças bem cortadas de alfaiataria que servem para o dia-a-dia sem conferir a austeridade típica dos ternos e costumes.  “É um caráter mais street da cidade. É o prazer de estar na cidade, em meio ao concreto, no verão”, diz. Os ternos são quase sempre brancos, usados com moletom cinza, de preferência com capuz. Tem também risca-de-giz e estampas florais, com ar desbotado, que se combinam aos moletons listrados. Para firmar a modernidade de seu cliente, os modelos desfilaram com skates, bicicletas e no mais novo walk-machine, que já é visto nas ruas da Europa. “Nosso homem gosta de seus brinquedinhos”, justifica.
 

Ícones de luxo como a seda, renda e aplicação de cristais e pedrarias pontuaram a coleção do mineiro Eduardo Suppes. O look chave do desfile é o vestido, em versão longa e decotada (mostrado por Ana Beatriz Barros) ou curtos arrematados por paletós sequinhos. Tons de ouro e verde predominam, assim como os foulards de seda amarrados no pescoço, que aparecem na maioria dos modelos de festa. Suppes combina também tops de pena de faisão com cristais dourados, usados com peças de cetim de seda pura. Já seu homem não está para esta festa toda. Prefere caftan estampado de cobra, jaqueta de jacquard ou peças de chamois. Pelo visto, na festa de Suppes, cada um vai para um lado. (colaboraram Ailton Pimentel e Jade Augusto Gola)
 

Lilian Pacce

02.07.2005 às 6:11

SPFW primavera-verão 2005/06 – Quinto dia

O deputado Turco Loco está com sorte como empresário de moda. Depois da ótima estréia da Cavalera em desfile-solo masculino, foi a vez da V. Rom dar um verdadeiro show de bola ontem de manhã no estádio do Pacaembu, onde mostrou uma coleção masculina inspirada em futebol. “Haja o que houver, somos uma raça única”. Com essa idéia na cabeça, os estilistas Rogério Hideki e Vitor Santos, da V.Rom, elegeram o futebol como expoente máximo dessa união. A influência veio dos times, uniformes, torcedores e estádios dos anos 20 e 40. “O design do Pacaembu representa bem essa idéia retrô”, diz Vitor.

As peças trabalham a estética dos uniformes, como as listras bicolores, principalmente em preto e branco ou no desbotado vermelho e cru, tanto nas charmosas pólos antigas quanto nos paletós de alfaiataria. Jaquetinhas de cambraia dão transparência revelando cores vivas. Brasões e estrelas completam o look. A novidade é a linha feminina dentro da V. Rom – já que todo craque que se preza tem uma linda modelo ao seu lado até levar o cartão vermelho – o mais novo penduricalho das calças de modelagem street. Esta menina gosta de batinhas, inspiradas nas pólos dos jogadores, nos vestidos em tons lavados e nas peças de algodão. “Sobre as cores, eu sou suspeito, sempre adorei verde. Dizem que um estilista que não coloca suas cores prediletas em seu trabalho não é coerente”, explica Vitor, ao ser questionado sobre sua preferência pela cor do gramado.

Para André Lima, não basta ser mulher, é preciso ser deusa. Já que seus vestidos fluidos megaestampados só cabem nessas musas do olimpo, que flutuam poderosas sobre as mortais. Com Ângela Maria cantando Babalu e modelos com cabeças florais que ele define como “Havaí demente”, arrematados por brincos surreais, os vestidos realçam as costas e os decotes. E deixam espaço para contemplar cada estampa, mesmo que o modelo junte vários desenhos numa peça só, sejam florais coloridos ou folhagens em preto-e-branco, bem de surfista.

É uma mulher de Hollywood dos anos 40, só que no mais hi-tech technicolor. A influência dos quimonos vem superdepurada na faixa bordada na cintura. Seu modelo mais básico são os vestidos de tricô de lurex, sempre muito sensual.

O crash de estampas e a mistura de retalhos e recortes é a marca do verão de Lino Villaventura, num trabalho quase insano de patchwork. Pena que o styling hiperbarroco acaba confundindo o olhar, desviando o foco da bela construção dos vestidos com volume e dos tops corsetados construídos com adamascados, tapeçarias e até chifom leves. Em vez da pele morena do verão, ele cobre as modelos dos pés e mãos à cabeça com um body segunda-pele, quase sempre com estampas florais em tons de outono. “O mote é a beleza. Trabalhei muito com a emoção e procurei transcender alguns limites. Não tem nada estapafúrdio”, afirma Villaventura. Mas no final, causa estranheza, mas a gente preferia ficar mesmo é com a beleza.

O verde também ganhou importância cênica no verão da Huis Clos. O conceito do desfile nasceu de uma canaleta, uma espécie de fenda para passar e amarrar tecidos. E grande parte dos looks traz o verde e o amarelo como recurso que acende tons neutros como o cinza claro e o bege. Com concepção de desfile assinada por Bia Lessa, que forrou a sala com grandes telões para projetar estampas e citações, a coleção ganhou mais dramaticidade. Foi um bom exercício de continuidade, com os volumes, amarrações, saias tulipas ou godês, os casaquetos 3/4, os vestidos e blusas repuxados, saias e bermudas no joelho e as costas nuas _  obsessões da estilista. “Uma das referências mais fortes que trabalhei foi a imagem de uma mulher na praia, de costas.

Daí vieram os outros elementos da coleção”. Outro trunfo é a rigorosa escolha de tecidos, como o 100% algodão com fio de lurex, linho com lurex, algodão com elastano e a cambraia mista.

Numa homenagem explícita ao estilista Oleg Cassini, Fause Haten alinhavou uma coleção estilo tapete vermelho, toda cortada em tecidos nobres. Muitas camadas de musseline, organza, cetim, tafetá e o paetê aplicado em jeans ou delineando as estampas de mulheres concebidas pelo artista plásticos inglês Gary Hume . A silhueta brincou com saias tulipas e contrastou com a cintura baixa dos anos 20. Os corsets e tomara-que-caia foram construídos com tule entertelado e ganham arremates de renda na linha lingerie à mostra. O bolero arredondado – estilo Jackie Kennedy – têm tudo para ganhar às ruas, especialmente a versão jeans, usada com a boa saia de paetê furta-cor. Outro ponto alto são as versões de cetim da utilitária salopete, seja em vestidos ou macacões, contribuem para desperuar o look sem perder o glamour.
Além de levar o conceito a sério demais, Mareu Nitschke complica um pouco a sua roupa. A coleção, batizada de Crepúsculo Tropical, remete ao contraste entre o dark e o trópico, tendo como fio condutor a história do Crepúsculo de Cubatão, club underground carioca de 20 anos atrás que inseriu na noite do Rio notívagos com marca de biquíni. Dessa mistura vem a composição de peças pálidas e acinzentadas em bege, verde e azul com elementos do carnaval brasileiro. Os sapatos vêm dos anos 80, com congas e bonecas, com bordadinhos.

Lilian Pacce
(colaboraram Ailton Pimentel e Jade Augusto Gola)

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