Gisele, o mais bem-sucedido design nacional
Uma menina vinda de Horizontina, no Rio Grande do Sul, teria no final do século 20 e no começo de um novo milênio, o mesmo papel que um dia foi de Carmem Miranda: definir e representar a imagem do Brasil para o mundo. “Veja Gisele Bündchen: é admirável como esta brasileira jovem e despretensiosa tem mantido praticamente sozinha o status de supermodelo vivo, e de sua existência dependem tantos empregos”, escreve a poderosa Anna Wintour em seu editorial na última edição da revista Vogue americana em mais um de tantos reconhecimentos que Gisele tem colhido pelo mundo nos últimos dez anos.
Como já disse Caetano Veloso ao observá-la: “Ela tem nome francês, sobrenome alemão e ginga brasileira”. Talvez seja exatamente esta miscigenação a nossa grande contribuição para a beleza do mundo, que agora encontra sua melhor tradução nas retas e curvas desta top. Sem dúvida, Gisele é o design made in Brazil de maior sucesso dos últimos tempos.
Canceriana, Gisele Bündchen nasceu em 20 de julho de 1980. Mesmo tendo uma irmã gêmea, ela é peça única, dessas que não podem ser produzidas em escala como adoraria a Bauhaus, famosa escola de design modernista alemã do começo do século 20 que propunha a reprodução em série como um de seus dogmas.
Seu corpo é uma benção que definiu melhor seus contornos em aulas de ginástica olímpica, balé e atletismo. Sem falar em sua grande paixão na adolescência: o vôlei e a jogadora da seleção Ana Mozer. Se pensarmos o design como desenho, não como a arte de desenhar mas sim a de projetar, podemos dizer que os esboços do que viria a ser definido como “a über model” foram todos traçados nessa época.
É nesse mesmo período que ela resolve, meio por brincadeira meio pra melhorar a postura, participar de um curso de modelos junto com as irmãs. E como em um conto de fadas, durante a excursão de final de curso, é descoberta por um olheiro (aqueles especialistas das agências de modelos que descobrem novos talentos para as passarelas) em um shopping em São Paulo. Ela, que queria ir a São Paulo só para conhecer o Playcenter, vê sua vida mudar radicalmente aos 14 anos. Vai até a agência de modelos e deixa o sonho do parque de diversões para depois.
É com a cara e coragem que Gisele se muda para São Paulo. Mas os tempos não são fáceis. Sua carreira não decola de imediato e logo de cara é assaltada no metrô. Recebeu muitos “não” em inúmeros testes e muitos diziam que seu nariz não favorecia seu visual. “Quando um design é arrojado demais, temos dificuldade de compreendermos sua beleza”, gostava de afirmar a arquiteta Lina Bo Bardi.
Seu primeiro desfile em São Paulo é para a estilista Glória Coelho, por recomendação do cabeleireiro Wanderley Nunes. Passa alguns meses no Japão até que, em 1996, surge a oportunidade de morar em Nova York. A moda vivia os últimos picos da estética “heroína chic” (termo inspirado em uma música de Lou Reed que dizia a droga “heroína é chique”). Era a estética da magreza doentia, da aparência anoréxica e de um olhar perdido e evasivo próprio dos toxicômanos. A modelo Zou Fleischauer, um dos ícones da “heroína chic”, chegou a declarar que em Nova York “quanto mais drogada estava, mais fabulosa você parecia". O próprio presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, pediu providências contra essa estética e mesmo as editoras de moda mais poderosas do mundo perceberam que era hora de mudar, como sempre acontece na engrenagem fashion.
Gisele era a menina certa na hora certa. Sua aparência solar, saudável, e sua alegria deram um novo ânimo à roda da moda. Suas curvas e seu andar de gazela mudaram a estética da época e, já em 1998, estava nos principais desfiles internacionais e nos editoriais de moda mais importantes do mundo.
E o quanto essas curvas que o mundo reverencia até hoje tem relação com o desenho das pedras portuguesas no calçadão de Copacabana? Ou com as formas mais orgânicas dos atuais designers brasileiros como os irmãos Campana e a Ovo? Ou com toda a escola modernista brasileira, principalmente a arquitetura?
Não dá para negar o quanto suas tão comentadas curvas são similares às que fizeram a fama do arquiteto Oscar Niemeyer. Ele, discípulo da escola moderna de arquitetura, que tinha claras influências do geometrismo da Bauhaus, sempre disse: “Não é um ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso de seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida.” Ah, parece até que ele escreveu isso pensando na Gisele…
Hoje a modelo mais bem paga do mundo também está ensaiando uma carreira de atriz de cinema. Depois do filme “Táxi”, faz uma ponta na polêmica história “O Diabo Veste Prada”, inspirada na editora Anna Wintour, onde contracena com ninguém menos do que Meryl Streep. Acaba de fechar mais um contrato de US$ 5 milhões com uma marca de computadores e exercita seu talento empresarial com uma linha de calçados que leva seu nome junto a Grendene. Mesmo assim, sua aura de superstar mantém o frescor, a energia e a beleza, e continua, acima de tudo, a ser a nossa mais completa tradução. Seu design inspirador, curvilíneo na medida certa, coroado por um belo sorriso, atrai os que querem saber mais sobre o que existe debaixo do Equador. E não estamos falando de pecado e sim de uma rara divindade. Salve Gisele!
Lilian Pacce para a Revista Florense



