Inspirações africanas pro inverno brasileiro
Lilian Pacce
Esther Mahlangu
Depois de Vivienne Westwood, Zaha Hadid e irmãos Campana, a Melissa surpreende mais uma vez com sua estratégia global, valorizando grandes criativos. A parceira da vez é a artista sul-africana Esther Mahlangu, que virá de convidada especial da marca de sapatos de plástico para o SPFW de janeiro. Conheci Esther em sua casa, lá no interior da África do Sul, em 2006. Ela foi um ponto alto da viagem assim como as mulheres de sua tribo, as Ndebele, que são uma facção dos zulus surgida no século 19.
Nascida em 1935, Esther Mahlangu foi descoberta pelos curadores do museu Georges Pompidou, de Paris, onde fez sua primeira exposição em 1989. Mal falava inglês, que é língua corrente entre as onze faladas em seu país, muito menos! Nunca tinha saído de sua cidade… Mas Esther conquistou o Velho Mundo com o colorido de sua pintura (que até os anos 50 era obtido através de pigmentos naturais e hoje é feita com tinta acrílica) e seu traço firme a mão livre (que tem o desenho de uma lâmina como marca registrada). Em 91, depois de nomes como Alexander Calder, Frank Stella, Andy Warhol e David Hockney, ela foi convidada a transpor sua arte Ndebele para um carro BMW, trabalho que a levou à Documenta de Kassel, na Alemanha. E no ano seguinte fez uma parceria com a Comme des Garçons, sim, a marca da estilista japonesa Rei Kawakubo. Esther virou cidadã do mundo, embora ela continue a morar na mesma casinha num vilarejo em Mpumalanga, ao norte de Pretória, onde vive a maioria dos Ndebele da África do Sul.

Arte de Esther em sua tribo, na África
A história de Esther poderia ser igual à de qualquer menina Ndebele. Desde criança, as meninas Ndebele aprendem com suas mães e avós a fazer uma pintura especial nas paredes da casa, a trabalhar com miçangas e a criar o traje especial usado por elas em cerimônias e rituais. Elas não são mulheres-girafa como as da antiga Birmânia (atual Mianmá), mas usam vários anéis de metal no pescoço e nas pernas, assim como largos braceletes de miçangas, um lindo avental também de miçangas e, sobre o peito nu, apesar do calor, cruzam um grosso cobertor de lã – antigamente, era a própria pele de animal.
O colorido é forte, geométrico e harmônico, igual às paredes que elas pintam em suas casas durante o inverno, quando não há chuva. Este aprendizado, restrito às mulheres, começa de pequena. Na adolescência, elas passam por rituais secretos que as “ensinam” a ser mulher. Esther logo se identificou com a pintura. Casou-se, teve três filhos. Mas cedo perdeu o marido e dois de seus filhos – sim, HIV é o grande drama local. E a falta dessas pessoas queridas acabou potencializando seu talento. Com o filho Elias, que a ajuda e acompanha, fez sua arte ganhar o mundo. E agora deve ganhar o Brasil.

