O fim-de-semana mostrou a coleção de 3 brasileiros: Alexandre Herchcovitch, Inacio Ribeiro para sua Clements Ribeiro e para a Cacharel, e a estréia de Walter Rodrigues. Eles participam dos lançamentos de prêt-à-porter para o outono-inverno 2002/2003 que estão acontecendo esta semana, dividindo o disputado calendário da moda francesa com nomes como Chanel, Dior e Louis Vuitton.
Inspirado no filme “O Senhor dos Anéis“, a Clements Ribeiro traz um trabalho maduro e intenso em microplissados de seda – uma novidade nas criações da grife que se especializou em malhas de cashmere, especialmente as listradas. Mas desta vez o cashmere ficou apenas nas araras do showroom, enquanto o moletom tipo canguru apareceu na passarela com lindas aplicações de folhas em couro e feltro, bem contos de fada. As cores vieram mais contidas: muito preto com vários tons de rosa, do mais claro ao quase vinho, passando pelo areia e marrom.
Já para a Cacharel, o estilista brasileiro radicado em Londres revitaliza as estampas em seda, seja em florais ou folhas, e lança uma linha de jeans, com direito à calça baggy que abriu o desfile na modelo brasileira Marcelle Bittar, um dos grandes sucessos da temporada. O jeans também surge em composições com veludo preto, como o caban levemente em A, ou com musseline estampada, como a túnica sequinha.
Herchcovitch e Rodrigues mostraram exatamente a mesma coleção já vista durante a última SPFW – o inverno que chega às lojas do Brasil até o final do mês. Ou seja, hoje os brasileiros criam e lançam suas coleções seis meses antes dos estilistas estrangeiros. Um desafio que se mostrou a única maneira viável para eles competirem no mercado mundial, que é voraz e impiedoso e só trabalha com pedidos antecipados.
Esta é a 4ª temporada de Herchcovitch em Paris. Ele desfilou no salão da Union Centrale des Arts Décoratifs, onde montou o tablado de madeira em desníveis para mostrar uma de suas melhores coleções, conceitual e comercialmente: uma Chapeuzinho moderna que usa pelerine de jacquard feito de caveiras na floresta amazônica sobre saião de tule colorido (verde maçã, violeta, uva). Numa temporada em que a casaca foi descoberta por vários estilistas, a versão de Herchcovitch (de moletom com “rabo” de tule) têm tudo para ser hit dos melhores editorais do mundo.
Já Rodrigues se apresentou no Petit Palais, que é onde se concentram os desfiles promovidos por seu patrocinador. A iniciativa da Tactel em Paris, aliás, se deve em parte à parceria da empresa na nossa Fashion Week – uma estratégia que tem gerado frutos mundo afora; Londres, por exemplo, já teve sua cota. A atriz Claudia Raia veio prestigiá-lo.
A coleção mistura o futurismo dos anos 60 ao Japão tradicional, com seus quimonos, armaduras e samurais. Japonista confesso, Rodrigues trabalha tons escuros (vermelho, roxo e preto) em materiais como o couro stretch e a lã.
Jean Paul Gaultier
Christo é a grande referência de Jean Paul Gaultier para o outono-inverno 2002/2003. O artista belga, que já embrulhou museus e até a Pont Neuf de Paris, embalou desta vez a própria passarela do Carrousel du Louvre. Mas seus “pacotes” também aparecem na coleção, em peças acolchoadas, como saias, coletes e mantôs, que vêm amarradas com barbante.
O estilista brasileiro Ronaldo Fraga teria levado um susto se estivesse aqui. O mesmo sistema de engrenagem com roldana com o qual ele apresentou seu desfile em janeiro, em SP, foi armado na passarela de Gaultier. Entra um cabide vazio, um manequim de tecido, um anorak e, finalmente, a brasileira Caroline Ribeiro, que depois pendura seu próprio anorak no cabide – uma atitude que será repetida por todas as modelos.
Esta é uma coleção forte. Além do efeito pacote, Gaultier investe numa linha de jeans, que tem a calça justa com a bainha virada numa enorme dobra até o joelho ou toda embolada no tornozelo. Esta dobra aparece também na manga dos blazers acinturados, de cotelê ou risca-de-giz, forrados de seda. O espírito é totalmente streetwear. Bermudas de skatista em cetim vêm sobre calças, assim como vestidos levemente plissados, saias kilt ou saias-faixa de couro que ficam “penduradas” por uma alça. A sobreposição, aliás, é um trunfo que Gaultier sempre soube explorar bem.
Se a calça de cintura baixa ainda é tendência, Gaultier assume a meia-calça de cintura alta sob a calça, com a camisa por dentro, obtendo um divertido efeito kitsch-chic. Se a tendência pede patchwork, ele cria vestidos com echarpes de seda misturando diversas estampas coloridas. E na linha África, a saia é de pele de tigre com veste safári bem justinha.
Mod@bytes
@ Hoje tem festa no Favela Chic, mas o bar-restaurante franco-brasileiro que conquista os gringos com capeta e caipirinha, além de ótima música, pegou fogo mesmo no sábado, quando Karl Lagerfeld (leia-se Chanel e Fendi) apareceu por lá à meia-noite com seus amigos da “Vogue” América e da “New Yorker“. Com seu corpinho pela metade – Lagerfeld emagreceu 50 quilos no último ano – o estilista ficou enchanté com a animação local.
@ Lagerfeld, que lança amanhã a nova coleção da Chanel, também esteve presente no desfile de estréia de seu protegé Jose Ona Selfa para a grife espanhola Loewe. Ona Selfa começou bem. Conseguiu deixar contemporâneas as roupas de couro que são tradição da Loewe, mantendo o espírito classe A. Em caramelo, rosê, oliva e preto, ele combina uma silhueta justa com camisas brancas e traz delicados vestidos: tricô para o dia e cetim insinuante para a noite.
@ Outra festa que agitou o fim-de-semana em Paris foi a que o estilista Azzedine Alaïa ofereceu para a colega e patroa Miuccia Prada. O poder do mundo da moda e das artes lotou o ateliê de Alaïa no Marais. E ontem à noite a nova revista fashionista “AnOther Magazine” lançou sua 2ª edição com festa, exposição e leilão de máscaras criadas por estilistas como Vivienne Westwood, Miguel Adrover, Alexander McQueen e Hussein Chalayan. A renda vai para Fundação de Aids do cantor Elton John.
@ O maquiador Celso Kamura está em Paris com sua equipe. Assinou o look dos desfiles de Alexandre Herchcovitch e Walter Rodrigues.
@ A belga Ann Demeulemeester injeta um refinamento especial à sua energia roqueira. Suas calças cargo de efeito bombacha, de preferência em tecido purpurinado ou cetim, são sucesso total. O couro vem com aspecto envelhecido, esbranquiçado, e tem um de seus grandes momentos na saia escocesa com veste de capuz, tudo bege claro, apontando um novo caminho para os tailleurs.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
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