Os “fashion moments” em Paris

12.10.2002 - 16:20 Desfiles Paris comente!

Apesar da nuvem negra que paira sobre o mundo, a moda reage e se esforça para encontrar o sol a qualquer preço. Com a queda das vendas das roupas e acessórios com logotipos das marcas (que, segundo recente matéria no “New York Times“, caíram de 40% pra 15% do total das vendas), as grifes precisam buscar uma identidade mais profunda e conceitual que vai além da explícita logomarca. E este foi o desafio dos criadores que apresentaram esta semana suas coleções para a primavera-verão 2003 aqui em Paris.

Jean-Paul Gaultier buscou na arte dos móbiles de Alexander Calder uma razão para suas roupas, desafiando a gravidade em peças “penduradas”, molengas, que quase caem – como a calça de cintura mais baixa do mundo, com cós que começa no quadril, abaixo da calcinha biquíni. Ao fundo do cenário, ele “pendura” trapezistas como se fossem móbiles humanos.

Mas a surpresa para nós, brasileiros, são as peças de musseline feitas com fuxico (aquela rodinha franzida feita com retalhos de tecido) que aparecem junto a salopetes de jeans e jaquetas esportivas de cetim extragrandes.

O moletom é a referência esportiva da marca anglo-brasileira Clements Ribeiro. Em casacos e camisetões, ele ganha estampa pop de um gato hipercolorido, que também aparece em patchwork em peças de seda. A inglesa Suzanne Clements e o brasileiro Inácio Ribeiro, que assinam também a coleção da marca Cacharel, sabem misturar cores em microvestidos e não perdem o humor quando estampam palavras de ordem como “no more work” ou aplicam uma boca em homenagem a Yves Saint Laurent.

O próprio Tom Ford, que assina as coleções de prêt-à-porter da Saint Laurent, olha para o mesmo período de inspiração surrealista deste grande criador que se aposentou no ano passado. Abusado, estampa o contorno do bumbum em saias-lápis de tafetá rosa ou acompanha as curvas do peito em jaquetinhas de cetim matelessado cor de gelo. O maiô duas peças cor de pele usado por Caroline Ribeiro traz duas mãos em devorê. As vestes curtas têm o ombro bem estruturado e a cintura das calças e saias sobem. Mas o melhor da coleção está nos vestidos de jérsei de seda drapeados. Se Saint-Laurent fez do coração romântico uma de suas marcas, Tom Ford o reproduz in natura para pendurá-lo no pescoço.

O mesmo respeito e admiração que o Ocidente nutre por criadores japoneses como Rei Kawakubo (da Comme des Garçons), Junya Watanabe e Yohji Yamamoto, deve ser dedicado a Jum Takahashi, que estreou esta temporada em Paris com a marca Undercover. Takahashi trabalha suas roupas como uma pele machucada que se renova conforme vai cicatrizando com aquela casquinha. Isso significa que ele constrói calças baggy, saias plissadas e blazers (de preferência em linho e algodão rústico) e depois esconde todos os detalhes, como bolsos e golas, sob dezenas de retalhos remendados com costuras à mão. Depois de tanto trabalho, ele ainda distribui zíperes pelas peças para se encaixarem a acessórios diversos como cintos de bolinhas de cobre ou bolsos extras, dando a oportunidade de personalização a cada consumidor. Tudo é extremamente elaborado, em tons neutros como cru e preto que se acendem ao final do desfile, usados sob burkas transparentes de cores vibrantes. Sua estréia foi uma das mais elogiadas desta temporada de grandes fashion moments em Paris.

Lilian Pacce para o Estado de S.Paulo

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