Ela não era loira, linda, nem sexy. Nunca posou como estrela de Hollywood e o grande público a desconhece completamente. Baixinha, não abria mão de sua franja milimetricamente reta, dos óculos fundo-de-garrafa e de sisudos tailleurs em tons neutros. Ciente de que a beleza não era um dom que Deus lhe deu, dizia: “Sempre quis me parecer com Shirley Temple. Mas o espelho logo me mostrou o contrário”. Espartana nos hábitos e extremamente séria nas feições, só passou a sorrir quando cobriu com uma prótese dois dentes incisivos que lhe faltavam. No entanto, Edith Head foi indicada para 35 Oscars, dos quais levou oito para casa, por seu trabalho como figurinista em mais de 1.100 filmes durante os 29 anos em que comandou o departamento de figurinos dos estúdios Paramount.
Uma de suas biografias, “Edith Head’s Hollywood”, de Paddy Calistro, afirma que ela teria nascido em 1897, dez anos antes do que declarava, em uma pequena cidade na Califórnia. Head, que morreu em 1981 às vésperas de seu 84º aniversário, não gostava de comentar sobre sua vida antes de chegar à Paramount. Dizia que havia um espaço em sua mente trancado por uma porta de ferro. Ali ela atirava tudo aquilo de que não gostava e batia com força a tal porta de ferro.
Para conquistar tantos Oscars, Head driblou vários colegas, mas chutou vários gols. O primeiro teve Mae West como alvo. O chefe de Head, então uma mera aprendiz, estava em Paris assistindo os desfiles e lhe passou a bola do filme “She Done Him Wrong” (1933). West alertou Head: “Quero uma roupa larga o bastante para provar que sou uma lady, mas justa o suficiente para mostrar que sou mulher”. O filme tirou a Paramount da falência e bateu recordes de bilheteria.
O segundo e decisivo gol teve Barbara Stanwyck como parceira. Incumbida de vesti-la em “Internes Can’t Take Money” (1937), Head ganhou sua confiança. No filme seguinte, “Lady Eve” (1941), Head a transformou em sex symbol graças a um modelo de lamê dourado. O sucesso foi tanto que Head passou a ser cláusula contratual nos trabalhos da atriz.
Mas foi apenas há exatos 50 anos que a Academia de Hollywood instituiu o Oscar de melhor figurino. Ambiciosa, Head não se conformou quando viu a estatueta cair em outras mãos. Determinada, resolveu se empenhar ainda mais, trabalhando 15 horas por dia, seis vezes por semana, a fim de que fosse vista como um ser insubstituível. Head sempre quis ser a única nos estúdios da Paramount e podava qualquer possibilidade de ameaça ao seu reinado como figurinista. Com o designer americano Oleg Cassini, um dos preferidos de Jacqueline Kennedy Onassis e um dos namorados de Grace Kelly, chegou a impedi-lo de ter seu primeiro crédito no cinema com o filme “I Wanted Wings” (1941).
A frustração do primeiro Oscar durou pouco. Nos três anos seguintes, ela ganhou quatro Oscars consecutivos: três pelo trabalho em preto-e-branco, um pelo colorido: “A Herdeira” (1949, com Olivia de Havilland), “Sansão e Dalila” (1950), “A Malvada” (1950, com Bette Davis) e “Um Lugar ao Sol” (1951). O vestido de camadas e camadas de tule usado Elizabeth Taylor em “Um Lugar ao Sol” foi confeccionado com a etiqueta Edith Head e todas as pós-adolescentes americanas correram para adquiri-lo. Mas seu maior talento não estava na criação propriamente de um modelo e sim na sensibilidade para escolher o modelo correto, seu ou de outro estilista, e na capacidade de se auto-promover conquistando generosos espaços na mídia. “Jamais serei a melhor figurinista do mundo, mas posso ser a mais inteligente”, dizia. Anos depois, em 59, Head lançou o auto-biográfico “The Dress Doctor”, e mais uma vez teve o gosto de ser um best-seller.
Ética não era seu ponto forte. Encantou-se quando a apresentaram à nova estrela da Paramount, a bela Audrey Hepburn. Mas não se conformou quando Audrey voltou de Paris com o guarda-roupa completo – e impecável- , assinado pelo também promissor talento da moda Hubert de Givenchy para o filme “Sabrina”. Sem se fazer de rogada, na noite do Oscar de 1954, Head recebeu o prêmio e, para surpresa de Givenchy, seu nome sequer era citado nos créditos. O vestidinho preto do filme lançou a “gola Sabrina”, assim conhecida até hoje, mas cuja autoria ambos reivindicam. Head, ao contrário dos clássicos agradecimentos à equipe, pronunciava-se apenas a respeito do brilhante resultado de seu trabalho. Seus assistentes jamais eram lembrados.
Grace Kelly foi o consolo de Head para Hepburn. Head ensinou-a a andar, a segurar a cauda do vestido e a manter a postura. Além disso, soube valorizar sua elegância e beleza em filmes como “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca”, ambos de Alfred Hitchcock, seus preferidos.
Em 1967, Head foi demitida da Paramount mas logo arrumou abrigo no Universal Studio. Ali, seu acervo fazia parte até do tour dos visitantes e ela chegou a cobrar US$ 10 mil por desfiles de seus melhores figurinos. Em 73, recebeu o último Oscar por “The Sting”, com Robert Redford – mas, dizem, ela não teve o menor envolvimento no trabalho, a não ser o de aparecer na noite da festa.
Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo
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