A moda brasileira, por Oskar Metsavaht
“Recebi o convite da [revista] Vizoo para escrever livremente sobre a moda brasileira. Por acaso estou em Nova York e passei esta semana na minha loja, no Soho, observando os clientes da Osklen. Sempre gostei de fazer isso, de ver o que seduz em minhas coleções. Percebo o estilo de cada pessoa que entra na loja e, muitas vezes, posso até apostar diante de que peças ela vai parar. Depois de ver a coleção, é normal que procurem pelo catálogo para tentar entender que marca é esta, de onde vem, quem é o estilista. Pois na loja de NY tem bermuda de surf, vestido de seda, tênis, sapato alto, jaqueta de couro, sobretudo de lã, Sandálias Ipanema, cashmere legítimo, etc. Esta mistura toda confunde qualquer pessoa. Uma marca brasileira, de um estilista que é médico, hetero, snowboarder, que mora em Ipanema, e assim por diante. Mas voltando a NY, além de ficar na Osklen observando, faço o ritual de sempre: visito as exposições nas galerias de Chelsea, os museus de arte moderna, assisto a uma peca na Broadway e vejo as outras marcas.
Não sei se é só comigo ou se é porque tenho viajado muito, mas tenho achado a moda muito parecida. Não só no Brasil como em todos os lugares. Há duas semanas eu estava em Tokyo por 10 dias, há um mês em Bali e em Dubai, nos Emirados Árabes. Pensando melhor, nestes últimos 12 meses, estive em Miami, Fiji, Paris, Milão, Roma, Aspen, NY, São Paulo, Los Angeles e Londres, além do Rio. Imagina só o que vi de moda, arte, bares, surf e snow. E aos meus olhos tudo é moda: o que as marcas apresentam nas lojas e nas revistas, e o que estas pessoas das mais diferentes culturas vestem, na praia, na neve, nas ruas e nas festas. Hoje, andando em algumas lojas aqui em NY, nada realmente me seduziu. Pensei: será que estou sobrecarregado de informação de moda? Ou está tudo, mesmo, muito parecido? Existem boas exceções, claro. Alguns designers mantêm seus clássicos com estilos inconfundíveis. E com pequenos detalhes fazem suas próprias releituras do que é a vanguarda. E outros poucos novos designers realmente mostram algo de novo.
Reprodução
Na praia, foto de Oskar Metsavaht
Mas a moda está muito chata! Sem graça, enjoada. Acho que foram estes últimos 10 anos, de novo milênio. Eu nunca havia visto tantas propostas, de tantos lados. Embalados por uma onda de brasilidade, a cada ano existem mais e mais festivais de cinema, semanas de moda, prêmios de design, feiras de arte que lançam novos nomes, novos talentos. Como se fôssemos ter revelados, de uma hora para a outra, um monte de Fellini, Coco Chanel, Oscar Niemeyer, etc. A impressão é de que podemos estar perdendo verdadeiros talentos que foram esquecidos porque sempre tem que haver um novo, de qualquer maneira.
No Brasil já estamos nos achando os reis da cocada. Temos certeza de que o mundo quer a “nossa moda”. De que somos os mais criativos, os mais descolados. Mas não é por aí, não. O que está na “moda” mesmo é o nosso modo de viver. Somos felizes, saudáveis, sensuais, despojados e abertos. Somos mesmo. Não os mais bonitos, longe disto. E muito menos os mais bem vestidos. Acho até que, se houvesse um índice e classificação, estaríamos entre os últimos países em elegância! Somos básicos e caretas. Talvez pelo clima, pela falta de poder aquisitivo ou pela cultura de criticar e ao mesmo tempo dar atenção à critica. O ritual de vestir-se, para nós, não tem significado. O brasileiro ainda escolhe a marca antes de escolher o design da roupa que vai vestir. Já viajo há anos para algumas culturas diferentes, onde o vestir-se tem uma importância pelo seu significado. Como ler, apreciar a arte, as línguas, a música. Ainda temos muito que aprender sobre moda. Tanto para vestir-se quanto para criar. Somos uma cultura nova, jovem. Gosto de dizer que somos primitivos ainda. E que neste primitivismo é que está o nosso charme. Quando vou ao Japão vejo o quanto, em moda, eles são mais evoluídos que os europeus E, na mesma proporção, os europeus são mais evoluídos do que nós, brasileiros. Mas isto é óbvio, a cultura deles é milenar, a européia, secular. E a nossa cultura de moda tem apenas algumas décadas.
Exagero aqui um pouco, mas é para podermos ter uma noção do que temos pela frente: uma oportunidade. Temos do nosso lado um frescor em criatividade, e estamos emergindo num tempo em que a tecnologia nos permite ser observados no mundo todo, sem os filtros de editorias de revistas estrangeiras. E temos a chance de aprender, em tempo, sobre o que existe de moda pelo mundo todo. E, assim, de criar uma verdadeira identidade. Com design original, llinguagem estética universal e qualidade internacional, além de consciência socioambiental de verdade. Sem perdermos o nosso maior conteúdo: o Brazilian Soul.”
Publicado na edição número 68 da revista Vizoo, em novembro de 2010.





19.05.2012
ola. adorei seu artigo, tem tudo a ver com o que eu penso. Faço muits fotos de vitrines e de produtos para empresas de Sao Pauloe as vezes eles me dizem que ja viram aquele modelo, que e a mesma coisa de antes… o caso e que nada muda e principalmente aqui em NY, algumas marcas fazem umas peças que qdo fotografadas parecem roupas de senhora. Alem disso tem a crise, as empresas estão repetindo os modelos e mudando uma coisinha ou outra para não ter que pagar pelo processo de criar uma peça totalmente nova. O custo de criação e altissimo para as marcas. Ao trabalhar na Ankasa pude ver de perto, a modificação de um detalhe na modelagem, significa muito dinheiro com envio da alteração pra China, esperar pelor recebimento da peça, aprovar novamente… o que no Bom Retiro ou no Bras leva um dia pra ser resolvido, aqui pode levar uma semana… as empresas diminuiram o numero de funcionarios, então eles precisam ser praticos… dai que a moda do dia a dia, das lojas em geral, esta repetitiva sim, chata sim… e tudo igual no mundo todo. Abraços e otimo seu artigo…
Concordo em tudo o que foi dito pelo Osckar, porém acho que um dos principais problemas da moda no Brasil, é que tudo se tornou uma “panela”, você pode até ter mais talento do que fulano, mais se fulano conhece mais gente que você, ele terá prioridade em tudo, principalmente em mostrar o seu trabalho. Acho que enquanto não abrirem mais oportunidades para quem realmente tem talento, ao invés de quem tem maior contato com a “panelinha”, a moda seria mais diversificada, e teria uma maior qualidade!
De fato, talvez tudo esteja tão igual. Diferente e igual ao mesmo tempo, devido a facilidade de acesso a informação. As identidades de cada nação estão se mesclando, deixando apenas algumas características. Mas o fato é que o Brasil não tem essa identidade estética. E nem terá: somos um país enorme, com influências étnicas diversas… de diversos países, diversos continentes. Somos uma mistura, que pouco permite dizer de onde saiu e para onde vai!
Que texto maravilhoso! Este homem merece realmente nosso respeito e admiração. Em poucas palavras e com humildade, descreveu nossa realidade.
A moda perdeu sua logica. Enquanto essa eterna busca do novo deixam todos inquietos,verdadeiras personalidades sao chamadas de sem graca Ou repetitiva. Esse texto condiz muito com minha visao.
Gostei de ler o artigo, me deu mais assunto para reflexão. Tem mais?
Gostei bastante do artigo, menos desse final falando de ‘evolução’ das diferentes culturas.. uma argumentação um tanto quanto ultrapassada e beirando uma vertente de xenofobia… claro que não foi essa a intenção, mas não foi uma boa escolha de argumentos com certeza.
Bacana Oscar. Mas tua moda esta meio chata tambem. Nao tem nada de Brasil e parece querer provar algo, mais do que exprimir algo.Menos japao e mais viamao,ok?